28 de fevereiro de 2016
Hoje partilho a reflexão que recebo semanalmente do Pe.Thomas
Figueira estéril
Evangelho (Lc 13,1-9): Nesse momento, chegaram algumas pessoas trazendo a Jesus notícias a respeito dos galileus que Pilatos tinha matado, misturando o sangue deles com o dos sacrifícios que ofereciam. Ele lhes respondeu: «Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que qualquer outro galileu, por terem sofrido tal coisa? Digo-vos que não. Mas se vós não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo. E aqueles dezoito que morreram quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que qualquer outro morador de Jerusalém? Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo». E Jesus contou esta parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi lá procurar figos e não encontrou. Então disse ao agricultor: ‘Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Para que está ocupando inutilmente a terra? ’ Ele, porém, respondeu: ‘Senhor, deixa-a ainda este ano. Vou cavar em volta e pôr adubo. Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então a cortarás».
TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA (28.02.16)
“Se vocês não se converterem, vão morrer todos do mesmo modo”
Lucas 13, 1-9
Essa passagem somente se encontra no Evangelho de Lucas e ensina os discípulos que Jesus é compassivo com as falhas, fraquezas e limitações humanas; mas, que também tem exigências para quem quer segui-Lo. Ele nos convida à conversão, antes que seja tarde demais!
O trecho começa com o relato feito por algumas pessoas referente ao fato ocorrido em Jerusalém, quando Pilatos matou um grupo de galileus durante o sacrifício no Templo (não temos informações sobre esse acontecimento de outras fontes). Na época, sofrer desgraças como doença, pobreza ou morte prematura, era visto como castigo de Deus por ser pecador. Podemos lembrar a pergunta feita a Jesus sobre ao homem cego de nascença, no Evangelho de João: “Os discípulos perguntaram: Mestre, quem foi que pecou, para que ele nascesse cego? Foi ele ou os pais dele?” (Jo 9, 2). É a “Teologia da Retribuição”, onde Deus premia ou castiga segundo os méritos da pessoa, ou melhor, segundo o que o sistema vigente entende por mérito. Assim se anula a gratuidade e a bondade misericordiosa de Deus; e, os excluídos da sociedade são vistos como culpados do seu próprio sofrimento. Infelizmente essa teologia, tão anti-evangélica, está muito presente hoje, quando a prática religiosa, ou o dízimo, são entendidos como “investimento” para receber retornos de
Deus. É claro que também essa teologia funcionava, e funciona, em favor da elite dominante, pois a sua riqueza é explicada como proveniente da bênção de Deus, e não como, frequentemente, resultado da exploração e/ou de um sistema econômico injusto. Jesus não autoriza tal interpretação, e falando também de outro acidente em Jerusalém que matou dezoito (v. 4), mostra que Deus não castiga assim. Esses acontecimentos trágicos podem servir para que todos pensem na insegurança da vida, e na urgência de conversão, enquanto ainda há tempo! Todos nós precisamos estar preparados para enfrentar o julgamento de Deus, através de uma vida digna de discípulos.
Os versículos 6-9 formam a parábola da figueira. Muitas vezes as parábolas comportam mais do que uma explicação válida. A parábola de hoje tem dois lados - como parábola de compaixão e como parábola de crise! Na primeira interpretação, Deus sempre dá ao pecador (simbolizado no texto pela figueira que não dava fruto) mais uma chance. Assim toca em um tema central de Lucas, que é a misericórdia e a compaixão de Deus. Na segunda interpretação, mexe com os acomodados e desligados entre os discípulos, que só “esgotam a terra” (v.7), ou seja, estão na comunidade como peso morto, sem contribuir nada a ela. Tais pessoas devem converter-se para dar os frutos de uma vida do discipulado, ou correr o risco de serem cortados da vinha do Senhor!
Quaresma é um tempo oportuno para uma reflexão sobre a nossa vida cristã, tanto como indivíduos como participantes de uma sociedade, cujas estruturas muitas vezes também não estão de acordo com a vontade de Deus, destruindo a nossa “casa comum”, o nosso planeta, por exemplo. É claro que todos nós somos pecadores, e, então, em permanente necessidade de conversão. A parábola nos anima diante das nossas fraquezas, pecados e tropeços na caminhada, pois Deus é compassivo, e Jesus sempre nos convida a voltar ao bom caminho. Do outro lado, a Quaresma também deve nos estimular para que busquemos na verdade os caminhos de conversão, descobrindo onde e como somos “figueiras sem frutos”, buscando o “adubo” (v. 8) da oração, da Palavra de Deus, dos sacramentos, da Campanha da Fraternidade, para que voltemos a produzir os frutos devidos a verdadeiros/as discípulos/as de Jesus.
Pe. Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
25 de fevereiro de 2016
Cuidemos dos Lázaros...
Evangelho (Lc 16,19ss): Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e dava festas esplêndidas todos os dias.
Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, ficava sentado no chão junto à porta do rico. Queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico, mas, em vez disso, os cães vinham lamber suas feridas.
Não quero diminuir deste evangelho a mensagem central de um apelo a justiça social que Jesus coloca claramente nesta parábola. E a justiça social que cabe aos cristãos (se vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus – Mt. 5,20), é uma exigência central, dorsal para o cristão.
Não obstante a isto, esta parábola pode também nos levar a fazer mais uma reflexão, complementar a esta, assim digamos.
É uma parábola que descreve uma pessoa que aparentemente está muito bem, cheio de coisas, banqueteando-se diariamente... e há uma outra pessoa... na porta... caído ao chão... faminto... cheio de feridas... carente...
Esta outra pessoa pode ser a própria pessoa que está se banqueteando... ou seja, pode ser que numa só pessoa convivam “o rico que se banqueteia” e o “pobre caído na porta, faminto...”.
Há necessidade de todos nós olharmos constantemente para dentro de nós para sabermos se a pessoa que existe dentro de mim é a mesma pessoa que vive socialmente.
E hoje, parece que a exigência de se viver como o rico é muito forte. Todos tem que estar bem, sorridentes, esbanjando coisas, comprando coisas da modernidade, banqueteando-se diariamente, ainda que seja a custas de
empobrecimento do seu interior. E este empobrecimento interior fica à porta do coração..., e este Lázaro vai gritando, clamando, passando fome, ferindo-se... E quanto menos damos atenção à esta realidade, mais vai aumentando o abismo que separa estas duas pessoas “o que se banqueteia” X “o que passa fome”.
Há uma pergunta séria a ser respondida: “existe um eu dentro de mim que passa fome?”. “Existe um Lázaro dentro de mim, à minha porta, carente de tudo?”. Infelizmente eu acho que na maioria das pessoas isto existe, se é que não existe em todos, em graus diferentes.
Com certeza, dentro de cada um de nós existe uma carência, um buraco, um espaço não preenchido, um Lázaro que, apesar de estar à porta, faço questão de não enxergá-lo. E, durante nossa vida, é importante pararmos, refletirmos, olharmos para dentro de nós mesmos, para dar atenção à este Lázaro, e cuidar do que é que nos falta. Pode ser que seja o amor (não recebido e/ou não doado/praticado/ofertado). Quando conseguimos “curar” nosso interior, quando dermos vazão às nossas carências, quando preenchermos nosso buraco interno, quando saciarmos nossa fome de amor, generosidade, carinho, afeto, amizade, perdão; enfim, quando nos preenchermos de Deus, quando O reencontramos e quando nos reencontramos, nossos lázaros interiores vão deixando de ser lázaros e, por consequência, os lázaros exteriores, os pobres, os injustiçados, também vão diminuindo. Podemos até afirmar que os lázaros sociais são frutos dos lázaros internos das pessoas, pois quem ama não pactua com injustiça... lembro-me da frase do Leonardo Boff: “aqueçamos nossos corações, para que não matemos de frio as pessoas”. Cuidemos dos nossos lázaros interiores, para que sejamos humanos, e, como humanos, não suportemos a fome do irmão, e ajamos na direção do Reino que não suporta lázaros, nem dentro, nem fora de ninguém – Amém!
18 de fevereiro de 2016
Pedi e vos será dado
Evangelho (Mt 7,7-12): «Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á. Porque, aquele que pede, recebe; e, o que busca, encontra; e, ao que bate, abrir-se-lhe-á. E qual de entre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? E, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente? Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem? Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas».
Pedi e vos será dado... um pai não dá uma cobra ao filho... se assim age o pai, quanto mais Deus Pai...
Jesus estabelece uma relação de confiança entre nós e o Pai. Peça... bata... solicite... aproxime-se... para pedir, dificilmente alguém grita de longe. Para resmungar, recusar, brigar, este sim, muitas vezes faz de longe, gritando... no entanto, raramente para pedirmos o fazemos de longe... pelo contrário, chegamos perto e falamos mansamente... assim funciona entre nós... assim deveria funcionar com o Pai... por isso, implícita nesta mensagem de “peça ao Pai que Ele o atenderá”, está a mensagem “chegue-se perto do Pai... fale aos seus ouvidos proximamente à Ele”. Aproximar-se de Deus... na oração, na ação, na liturgia, na celebração, pelo irmão, sobretudo, pelo amor... aproximando-se do Amor Materno Paternal de Deus, podemos cochichar nos seus ouvidos nossas necessidades... no entanto, quando realmente dEle nos aproximamos, percebemos que aquilo que achávamos necessário e fundamental, passa a ser relativo, e deixamos de pedir; ao passo que conseguimos, neste estágio, perceber o que é fundamental, essencial e crucial: a vida e o amor, e tudo que conduz a vida e ao amor... daí reiherarquizamos nossos valores interiores e encontramos a paz, pois encontramo-nos conosco mesmo e sentimo-nos em casa. Aproximar-se... talvez este seja o desafio desta
nossa quaresma. Que Deus nos conceda esta graça de dEle aproximarmo-nos – Amém!
14 de fevereiro de 2016
As tentações de Jesus
Evangelho (Lc 4,1-13): E Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto; E quarenta dias foi tentado pelo diabo, e naqueles dias não comeu coisa alguma; e, terminados eles, teve fome. E disse-lhe o diabo: «Se tu és o Filho de Deus, dize a esta pedra que se transforme em pão». E Jesus lhe respondeu, dizendo: «Está escrito que nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra de Deus». E o diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o diabo: « Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero. Portanto, se tu me adorares, tudo será teu». E Jesus, respondendo, disse-lhe: «Vai-te para trás de mim, Satanás; porque está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás». Levou-o também a Jerusalém, e pô-lo sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: «Se tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; Porque está escrito: Mandará aos seus anjos, acerca de ti, que te guardem, E que te sustenham nas mãos, Para que nunca tropeces com o teu pé em alguma pedra. E Jesus, respondendo, disse-lhe: «Dito está: Não tentarás ao Senhor teu Deus». E, acabando o diabo toda a tentação, ausentou-se dele por algum tempo.
PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA
Lucas 4,1-13.
“Você adorará o Senhor seu Deus e somente a Ele servirá”
O texto expressa a luta interna de Jesus, que na realidade se deu ao longo da sua vida pública, para discernir o caminho a seguir, depois de assumir a sua missão no batismo.
Jesus era totalmente humano e assim enfrentava sempre as tentações de seguir o caminho de um messianismo falso, que não fosse o caminho do Servo de Javé.
A experiência de Jesus é como a nossa - entre o nosso compromisso com o projeto de Deus e a sua vivência prática existem muitas tentações!
Jesus estava “repleto do Espírito Santo”, e era “conduzido pelo Espírito através do deserto”.
O Espírito Santo não o conduz à tentação, mas é a força sustentadora d’Ele durante as suas tentações.
Como o Espírito dava força a Jesus, Lucas ensina às suas comunidades que elas também poderão contar com este apoio nos momentos difíceis da vivência da sua fé!
As tentações são as mesmas que enfrentamos na nossa caminhada da fé hoje!
Primeiro Jesus é tentado para mandar que uma pedra se torne pão.
Aqui é a tentação do “prazer” - logo que enfrente sofrimento e sacrifício por causa da sua missão, Jesus é tentado a escapar dele! Uma tentação das mais comuns hoje, em um mundo que prega a satisfação imediata dos nossos desejos em uma sociedade que cria necessidades falsas através de sofisticadas campanhas de propaganda. Uma sociedade de individualismo, onde a regra é “se quiser, faça!”, onde o sacrifício, a doação e a solidariedade são considerados como ladainha dos perdedores!
Jesus é contundente: “Não só de pão vive o homem” (v. 4).
Vivemos de pão, mas, não só!
Jesus não é contra o necessário para viver dignamente.
Mas, salienta que não é somente a posse de bens que traz a felicidade, mas a busca de valores mais profundos, como a justiça, a partilha, a doação, a solidariedade com os sofredores.
Não faz contraste falso entre bens materiais e espirituais - precisa-se de ambos para que se tenha a vida plena! Jesus desautoriza tanto os que buscam a sua felicidade na simples posse de bens, como os que dispensam a luta pelo pão de cada dia para todos! Nada de materialismo e nada de uma religião que não inclui o compromisso com a solidariedade, e justiça social e uma sociedade mais fraterna, justa e igualitária.
A segunda tentação pode ser visto como a do “ter”. Algo atual! Vivemos na sociedade pós-moderna da globalização do mercado, do neo-liberalismo, do “evangelho” do mercado livre. Diariamente a televisão traz para dentro das nossas casas a mensagem de que é necessário “ter mais”, e que não importa “ser mais”!
A tentação vem em forma atraente - até a Igreja pode cair na tentação de achar que a simples posse de bens, que podem ser usados em favor da missão, garantirá uma atuação mais evangélica.
Somos tentados a não acreditar na força dos pobres, das “pessoas comuns”, dos leigos/as, dos “fracos” aos olhos da sociedade, ou seja, de não seguir o caminho do carpinteiro de Nazaré.
Jesus também enfrentou esta tentação – Ele, que veio para ser humano com a humanidade, pobre com os pobres, para mostrar o Deus que opta preferencialmente pelos marginalizados, é também tentado a confiar nas riquezas! Para o diabo - e para o nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo às custas da justiça social - Jesus afirma: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá” (v. 8).
A terceira tentação pode ser entendida como a do “poder”. Uma tentação permanente na história das Igrejas e dos cristãos. Quantas vezes as Igrejas confiavam mais no poder secular do que na fragilidade da cruz, para “evangelizar”.
Quanta aliança entre a cruz e a espada - a América Latina que o diga!
Ainda hoje enfrentamos esta tentação - não de ter poder para servir, mas de confiar no poder deste mundo, mais do que na fraqueza aparente de Deus, assim contradizendo o que Paulo afirmava: “A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1, 25) e “Deus escolheu o que é fraqueza no mundo, para confundir o que é forte” (1Cor 1, 27).
Jesus, que veio para servir e não para ser servido, que veio como o Servo de Javé e não como dominador, teve que clarear a sua vocação e despachar o diabo com a frase: “Não tentarás o Senhor seu Deus”.
Podemos agradecer o exemplo do Papa Bento XVI que soube abrir mão do poder para o bem da Igreja!
Nesse gesto profético, talvez tenha proferido sua melhor pregação – o poder existe somente para servir o bem comum!
Realmente, podemos nos encontrar nas tentações de Jesus! São as do mundo moderno - o ter, o poder e o prazer! Todas coisas são boas em si, mas altamente destrutivas quando tomam o lugar de Deus em nossas vidas!
Jesus teve que enfrentar o que nós enfrentamos - o “diabo” que está dentro de nós, o tentador que procura nos desviar da nossa vocação de discípulos/as-missionários/as.
O texto nos coloca diante da orientação básica para quem quer vencer: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá” (v. 8)
1.2.2016
Hoje partilho a reflexão que recebo diariamente do site "evangeli.net".
Evangelho (Mc 5,1-20): Jesus e os discípulos chegaram à outra margem
do mar, na região dos gerasenos. Logo que Jesus desceu do barco, um homem que
tinha um espírito impuro saiu do meio dos túmulos e foi a seu encontro. Ele
morava nos túmulos, e ninguém conseguia amarrá-lo, nem mesmo com correntes.
Muitas vezes tinha sido preso com grilhões e com correntes, mas ele arrebentava
as correntes e quebrava os grilhões, e ninguém conseguia dominá-lo.
Dia e noite andava entre os túmulos e pelos morros, gritando e
ferindo-se com pedras. Ao ver Jesus, de longe, o homem correu, caiu de joelhos
diante dele e gritou bem alto: «Que queres de mim, Jesus, Filho de Deus
Altíssimo? Por Deus, não me atormentes!». Jesus, porém, disse-lhe: «Espírito
impuro, sai deste homem!»- E perguntou-lhe: «Qual é o teu nome?» Ele respondeu:
«Legião é meu nome, pois somos muitos». E suplicava-lhe para que não o
expulsasse daquela região
Entretanto estava pastando, no morro, uma grande manada de porcos. Os espíritos
impuros suplicaram então:«Manda-nos entrar nos porcos». Jesus permitiu. Eles
saíram do homem e entraram nos porcos. E os porcos, uns dois mil, se
precipitaram pelo despenhadeiro no mar e foram se afogando. Os que cuidavam
deles (dos porcos... tinha gente para cuidar dos porcos... não
tinha ninguém para cuidar daquele ser humano...) fugiram e espalharam
a notícia na cidade e no campo. As pessoas saíram para ver o que tinha
acontecido. Chegaram onde estava Jesus e viram o possesso sentado, vestido e no
seu perfeito juízo — aquele que tivera o Legião. E ficaram
com medo. Os que tinham presenciado o fato explicavam-lhes o que havia
acontecido com o possesso e com os porcos. Então, suplicaram Jesus para que fosse
embora do território deles.
Enquanto Jesus entrava no barco, o homem que tinha sido possesso pediu para que
o deixasse ir com ele. Jesus, porém, não permitiu, mas disse-lhe: «Vai para
casa, para junto dos teus, e anuncia-lhes tudo o que o Senhor, em sua
misericórdia, fez por ti». O homem foi embora e começou a anunciar, na
Decápole, tudo quanto Jesus tinha feito por ele. E todos ficavam admirados.
Comentário: Rev. D. Ramon Octavi SÁNCHEZ i Valero (Viladecans, Barcelona,
Espanha)
«Espírito impuro, sai
deste homem!»
Hoje encontramos um fragmento do Evangelho que pode provocar o sorriso a
mais de um. Imaginar-se uns dos mil porcos precipitando-se pelo monte abaixo,
não deixa de ser uma imagem um pouco cômica. Mas a verdade é que a eles não
lhes fez nenhuma graça, se enfadaram muito e lhe pediram a Jesus que se fora de
seu território.
A atitude deles, mesmo que humanamente poderia parecer lógica, não deixa de ser
francamente recriminável:prefeririam ter salvado seus porcos antes que a
cura do endemoninhado. Isto é, antes os bens materiais, que nos proporcionam
dinheiro e bem estar, que a vida em dignidade de um homem que não é dos
“nossos”.Porque o que estava possuído por um espírito maligno só era uma
pessoa que «Sempre, dia e noite, andava pelos sepulcros e nos montes, gritando
e ferindo-se com pedras» (Mc 5,5).
Nos temos muitas vezes este perigo de apegar-nos ao que é nosso, e
desesperar-nos quando perdemos aquilo que só é material. Assim, por exemplo, o
camponês se desespera quando perde uma colheita mesmo tendo-a assegurada, ou o
jogador de bolsa faz o mesmo quando suas ações perdem parte de seu valor. Em
compensação, muitos poucos se desesperam vendo a fome ou a precariedade de
tantos seres humanos, alguns dos quais vivem ao nosso lado.
Jesus sempre pôs em primeiro lugar as pessoas, mesmo antes que as leis e os
poderosos de seu tempo. Mas nós, muitas vezes, pensamos só em nós mesmos e
naquilo que acreditamos que nos traz felicidade, mesmo o egoísmo nunca traz
felicidade. Como diria o bispo brasileiro Helder Câmara: «O egoísmo é a
fonte mais infalível de infelicidade para si mesmo e para os que o rodeiam».
31 de janeiro de 2016
Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria
Lucas 4,21-30
“Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria”
Não é fácil entender o desfecho da visita de Jesus a Nazaré, logo após o seu batismo. É muito violenta a mudança de atitude dos Nazarenos - da admiração à fúria. Talvez Lucas tenha unido dois acontecimentos em uma só história. Mas, seja como for, alguns pontos importantes saltam aos olhos.
Em primeiro lugar “todos aprovavam Jesus, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca” (v. 22). Com certeza, essa reação não foi causada pela oratória de Jesus, nem porque soubesse usar “artifícios para seduzir os ouvintes” (1Cor 1, 4), como fazem tantos pregadores midiáticos e políticos hoje. Não, foram palavras cheias de encanto porque brotaram da sua intimidade com o Pai, da sua espiritualidade profunda, da sua capacidade de compaixão, da coerência entre a sua fala e a sua vivência. Aqui há um desafio para todos nós - de deixar que sejamos tomados pela Palavra de Deus, de tal maneira que a nossa palavra não seja mais a nossa, mas, a manifestação do Espírito que habita em nós. Só assim as nossas palestras e pregações surtirão efeito. Ao contrário, por tão eloquente que possa ser a nossa fala, seremos “sinos ruidosos, ou símbolos estridentes” (1Cor 13, 2) - chamam a atenção, mas não deixam frutos! Como disse em uma ocasião o Papa Bento XVI, “A Igreja não vive de si, mas do Evangelho e encontra sempre e de novo sua orientação nele para o seu caminho. É algo que cada cristão tem de ter em conta e aplicar-se a si mesmo: só quem escuta a Palavra pode converter-se depois em seu anunciador. Não deve ensinar sua própria sabedoria,
mas a sabedoria de Deus, que com frequência parece estupidez aos olhos do mundo”
A reação dos vizinhos de Nazaré encontra eco muitas vezes nas comunidades de hoje. É o pobre que não acredita no pobre! Jesus é rejeitado por ser considerado o filho de José, um simples carpinteiro de Nazaré. Quantas vezes, hoje, acontece que, em lugar de incentivar as nossas lideranças das bases, os próprios companheiros de comunidade os rejeitamos por não serem “doutores”, por não saberem “falar bonito”, como sabem muito bem os nossos exploradores! Parece às vezes que há gente que sente prazer em destruir as lideranças. Mas, as coisas vão mudar só quando o pobre começar a acreditar no pobre!
Outro motivo para tal reação, com certeza, era o fato de Jesus desafiar os preconceitos e comodismo da comunidade nazarena, usando os exemplos da ação de Deus em favor de um estrangeiro (Naaman, o sírio) e uma estrangeira (a viúva de Sarepta). Pois, Jesus era um profeta e o profeta sempre incomoda, pois nos desafia a sair de nossas fronteiras, e olhar o mundo como Deus o vê. É difícil que alguém goste de ser incomodado, e por isso preferimos com frequência criar uma religião de ritos e rituais, com certezas absolutas que nos confirmam na nossa visão do mundo. Mas, a verdadeira religião não é só de ritos (embora esses tenham grande importância na celebração da nossa fé). É o seguimento de Jesus, que veio “para que todos/as tenham a vida e a vida plenamente” (Jo 10, 10), vivenciando a solidariedade e a fraternidade entre todas as pessoas, sem preconceitos nem exclusões. É triste ver em tantos lugares hoje que a maior preocupação de muitas Igrejas parece ser com as minúcias rituais, com um número cada vez maior de normas, decretos e rubricas, enquanto se ignoram as grandes questões da humanidade, como a violência, a exploração, a destruição da natureza, o extermínio de indígenas, e assim por diante. Dificilmente se pode imaginar Jesus de Nazaré agindo assim. Por isso, talvez se fale tanto nos programas religiosos dos meios de comunicação só do Cristo glorificado, e tão pouco de Jesus de Nazaré, profeta perseguido por causa das suas opções concretas em favor dos sofredores, sem levar em conta a sua raça, religião ou situação social.
Jesus nos dá o exemplo de como enfrentar estes problemas, diante de críticas e rejeição, quando realmente tentamos ser coerentes com o Profeta de Nazaré . Ele “continuou o seu caminho” (Lc 4, 20). É isso mesmo - apesar das críticas, da não-aceitação, das gozações, o cristão tem que “continuar o seu caminho”. Jesus sofreu com isso, mas não se abalou, pois a sua convicção não se baseava na opinião, aprovação e aceitação dos outros, mas na oração, na interiorização da Palavra. Oxalá todos nós cresçamos neste sentido, seguindo o exemplo do Mestre! Como recomenda a Carta aos Hebreus: “Para que vocês não se cansem e não percam o ânimo, pensem atentamente em Jesus, que suportou contra si tão grande hostilidade por parte dos pecadores.”(Hb 12, 3)
29 de janeiro de 2016
Não adianta querer impedir o Reino... a terra produz fruto por si mesma
Evangelho (Mc 4,26ss):Jesus dizia-lhes: «O Reino de Deus é como quando alguém lança a semente na terra. Quer ele esteja dormindo ou acordado, de dia ou de noite, a semente germina e cresce, sem que ele saiba como. A terra produz o fruto por si mesma: primeiro aparecem as folhas, depois a espiga e, finalmente, os grãos que enchem a espiga. Ora, logo que o fruto está maduro, mete-se a foice, pois o tempo da colheita chegou».
A terra produz o fruto por si mesma...
Aqui para mim soa como uma frase de esperança e esperança concreta. Registro isto porque geralmente nós somos teleguiados por emissoras globais que tentam nos impor um mundo de tristeza, desânimo, medo, apreensão, etc.. E parece que esta onda vai pegando todo mundo, entrando inclusive dentro da Igreja, inclusive dentro de algumas lamentáveis pregações/homilias. No entanto, esta frase “A terra produz o fruto por si mesma” pode nos dizer que devemos continuar no caminho indicado pelo Pai, e com relação às forças contrárias, e fortes, não se preocupe... independente das ações dos poderosos/opressores, a terra produz o fruto por si mesma, ou seja, não adianta quererem barrar o Reino... ele cresce, expande, chega até onde tem que chegar, e fica disponível a todos... mesmo com toda aldeia global televisiva, somada com mídia impressa e redes sociais nefastas... são forças poderosas, não tenhamos dúvida... mas a força do Reino é maior... Por mais que se preguem o individualismo, a fraternidade sempre existirá... por mais que preguem a meritocracia, sempre a bondade e misericórdia e a partilha existirá... existem pessoas (e a gente conhece gente assim), que nunca se cansam de fazer o bem, nunca se cansam de amar, nunca se cansam de se doar... sacerdotes, pastores, leigos, e pessoas nem ligadas a religião... não são poucos os que, independente da “onda”, seguem amando, servindo, e sobretudo, “sendo”, e não “tendo”. Estes são os profetas do século XXI... e talvez à este profetismo é que somos
todos chamados. Ilude-se quem acha que tudo está perdido, que caminhamos numa estrada cujo fim está próximo, que não há elementos para se esperançar na humanidade... pura ilusão... o Reino cresce por si mesmo... basta acreditarmos e permanecermos nos firmes princípios que nos nortearam no início da nossa conversão... basta relembrarmos das experiências profundas que já tivemos e nelas permanecermos como âncoras de nossa caminhada... independente da ação de cada um, “a terra produz os seus frutos”... o que valerá ao final de tudo é saber se vivenciamos esta realidade, ajudando na terra e na produção destes frutos ou se ficamos lamentando e nos desesperançando... no entanto, independente da minha posição, a terra produz os frutos, o Reino se expande, cresce e segue... que Deus nos dê a graça de jamais desanimarmos, e ficarmos firmes, sempre firmes, nos valores do Reino, e, ao final de tudo, percebermos que estivemos do lado certo da história, do lado onde Jesus nos chamará para adentrar definitivamente no Reino, pois “Ele teve fome... e demos de comer...” – Amém!
25 de janeiro de 2016
Eis os sinais dos que creem
Evangelho (Mc 16,15-18): Naquele tempo, Jesus apareceu aos onze e disse-lhes: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda criatura! Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado. Eis os sinais que acompanharão aqueles que crerem: expulsarão demônios em meu nome; falarão novas línguas; se pegarem em serpentes e beberem veneno mortal, não lhes fará mal algum; e quando impuserem as mãos sobre os doentes, estes ficarão curados».
Eis os sinais que acompanharão aqueles que crerem: expulsarão demônios em meu nome; falarão novas línguas; se pegarem em serpentes e beberem veneno mortal, não lhes fará mal algum; e quando impuserem as mãos sobre os doentes, estes ficarão curados».
Eis os sinais. Se não temos estes sinais, logo não cremos...
Expulsar os demônios da indiferença, do ódio, da intolerância, da injustiça, do desamor, do “olho por olho/dente por dente”, e assim vai. Há muitos demônios a serem expulsos no século XXI.
Falar novas línguas de esperança, de acolhimento, de ternura e compreensão. Esta nova linguagem está em falta atualmente numa sociedade individualista, o linguagem do afeto compartilhado, da compaixão e da misericórdia... linguagem pouco utilizada hoje.
Pegar em serpentes e beberem veneno mortal, sem fazer-lhe mal... mergulhar nos mundos subalternos da pobreza e envolver-se com os excluídos, marginalizados, criminosos... entrar nos submundos dos consumidores de droga, dos apartados... envolver-se no campo político tão manchado pelas “vantagens pessoais” que a norteia, e fazer deste poderoso instrumento político um meio de libertação dos
pobres, de melhoria da qualidade de vida das pessoas... Talvez isto seja pegar em cobras e tomar venenos, sem fazer-nos mal.
E quando impuserem as mãos sobre os doentes, estes ficarão curados – talvez hoje pudéssemos traduzir de outra forma: “e diante das pessoas que choram, oferecer os ombros para recostarem suas lágrimas e oferecer os ouvidos para ouvir seus histórias, desabafos e dores... e assim, curá-los de seu coração ferido/maltratado.
Eis os sinais dos que creem – se estes sinais existem, cremos... caso contrário...
24 de janeiro de 2016
Abaixo transcrevo o evangelho de hoje e a reflexão do Pe.Thomas
Evangelho (Lc 1,1-4;4,14-21): Muitos tentaram
escrever a história dos fatos ocorridos entre nós, assim como nos transmitiram
aqueles que, desde o início, foram testemunhas oculares e, depois, se tornaram
ministros da palavra. Diante disso, decidi também eu, caríssimo Teófilo, redigir
para ti um relato ordenado, depois de ter investigado tudo cuidadosamente desde
as origens, para que conheças a solidez dos ensinamentos que recebeste.
Jesus voltou para a Galileia, com a força do Espírito, e sua fama se espalhou
por toda a região. Ele ensinava nas sinagogas deles, e todos o elogiavam. Foi
então a Nazaré, onde se tinha criado. Conforme seu costume, no dia de sábado,
foi à sinagoga e levantou-se para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do profeta
Isaías. Abrindo o livro, encontrou o lugar onde está escrito: «O Espírito do
Senhor está sobre mim, pois ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa
Nova aos pobres: enviou-me para proclamar a libertação aos presos e, aos cegos,
a recuperação da vista; para dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de
graça da parte do Senhor». Depois, fechou o livro, entregou-o ao ajudante e
sentou-se. Os olhos de todos, na sinagoga, estavam fixos nele. Então, começou a
dizer-lhes: «Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de
ouvir».
TERCEIRO DOMINGO COMUM (24.01.16)
“O Espírito do Senhor está sobre mim”
Lc 1, 1-4; 4,14-21
O texto relata a primeira experiência da Vida Pública de Jesus. Deu-se na sua
terra de criação - Nazaré.
Na linguagem de
hoje, Jesus foi para a capela da comunidade e foi convidado a fazer parte da
equipe litúrgica, para fazer a segunda leitura! Naquela época, o culto da
sinagoga tinha duas leituras - a primeira tirada da Lei, a segunda dos
Profetas. Jesus, abrindo o livro do Profeta Isaías, encontrou a passagem que
diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me consagrou para
anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos
presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar
um ano da graça do Senhor” (4, 18-19).
Não que Ele
encontrasse esta passagem por acaso! Pelo contrário - Jesus procurou até achar,
pois Ele identificava a sua missão com aquela descrita pelo profeta.
Por isso, na hora
da homilia, começou com a frase chocante: “Hoje se cumpriu essa passagem da
Escritura, que vocês acabam de ouvir” (4, 21).
Jesus identificou a
sua missão com a do Capítulo 61 de Isaías. Nós, como discípulos d’Ele, temos a
mesma missão.
Olhemos os
elementos:
a) “Anunciar a Boa
Notícia aos pobres”: O evangelho é “Boa-Notícia” - não uma série de leis, nem
uma lista de práticas rituais, nem uma moral (embora tenha todos estes
elementos), mas uma experiência de Deus que traz alegria, felicidade,
- especialmente para os pobres!
Portanto, Ele toma
posição - o que é boa notícia para uns, é má-notícia para outros! O que é boa
notícia para o oprimido, é má notícia para o opressor, a não ser que mude de
vida! Não existe uma Boa-Notícia neutra, igualmente boa para todos! E não
devemos diluí-lo a termo “pobre” - aqui não é o pobre de espírito, nem de
coração, nem de fé... é o pobre mesmo, aquele/a que não tem o necessário para
uma vida digna (Lucas usa o termo grego “ptochois”, que significa mais ou menos
“indigentes”). Com certeza, na nossa sociedade inclui todos os excluídos.
b) “Proclamar
a libertação aos presos”: Não só aos na cadeia, mas que estão sem a liberdade
dos filhos de Deus - presos hoje pelas consequências do neo-liberalismo, do
desemprego, do salário mínimo; pelas correntes de racismo, machismo,
clericalismo, e tudo que oprime! Também aos presos no seu próprio egoísmo, pois
o assumir dos valores evangélicos vai libertá-los. Porém, esta libertação passa
pela mudança radical na sua maneira de viver.
c) “Aos cegos a
recuperação da vista”: Quanta gente cega hoje! E não por doença dos olhos, mas
cegada pela ideologia dominante que não deixa ver a realidade do mundo e dos
sofridos; pelas falsas utopias alienantes e pela manipulação de informação
pelos meios de comunicação, dominados pela elite, que “fazem a cabeça”; quantos
cegos diante da possibilidade de mudança através da força histórica dos
oprimidos! Vale a pena notar que o texto enfatiza a “recuperação” da vista -
não a doação dela. Ou seja, trata-se de ajudar os/as que uma vez viram a
realidade com os olhos de Deus, mas foram cegados pela ideologia dominante ao
ponto de não enxergarem mais a verdade.
d) “Libertar os
oprimidos”: Aqui há o eixo fundamental de toda a Bíblia - o Êxodo, como
processo permanente. No livro de Êxodo, Deus se identificou como o Deus que
liberta os oprimidos (Êx 3, 76-10). Jesus se coloca - e coloca todos os seus
seguidores - neste mesmo compromisso. Hoje a época é diferente, mas a opressão
continua, e Deus nos conclama para que todos nós nos empenhemos nesta luta para
concretizar a libertação dos oprimidos.
e) “Proclamar o ano
de graça do Senhor”: O Ano da Graça - o Ano Jubilar! Memória da proposta do Lv
25, o ano do perdão das dívidas, da libertação dos escravos, da devolução das
terras aos seus donos originais!
Como concretizar,
na realidade do Brasil de hoje, esta visão? O que significa hoje o perdão das
dívidas, a libertação dos escravos e a devolução das terras? Questões
evangélicas da fé, que têm fortes consequências políticas e econômicas e
desafiam a tendência à uma religião intimista, individualista e desencarnada da
realidade.
Pois júbilo,
alegria, não pode ser decretado - tem que brotar de algum motivo profundo.
Aqui o próprio
Jesus fala da sua missão, que é também a nossa. Pois, fomos todos “consagrados
com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres, para proclamar a
libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os
oprimidos, e para proclamar o ano da graça do Senhor” (4, 18-21).
23 de janeiro de 2016
Ele está ficando louco...
Evangelho (Mc 3,20-21): Jesus voltou para casa, e outra vez se ajuntou tanta gente que eles nem mesmo podiam se alimentar. Quando seus familiares souberam disso, vieram para detê-lo, pois diziam: «Está ficando louco».
Jesus volta para sua casa – acho que voltou para Nazaré. Cidade pequena, e sua fama já tinha chegado por lá. Portanto, várias pessoas vão a sua procura, e Ele fica sem tempo até para comer. Seus parentes tentam detê-lo, pensando que ele está ficando “louco”. Quando imaginamos que alguém está ficando louco? Quando seu comportamento foge a regra, foge a normalidade, quando seu jeito e modo de ser extrapolam os manuais de comportamentos sociais... Este é Jesus. Pela forma que está escrito este evangelho (não tinham tempo para comer) dá-se impressão de um Jesus totalmente dedicado ao outro, ao próximo, a causa. Dedicação tão forte que não lhe permite suprir as necessidades básicas (alimentação). Não se trata de fazer hoje esta imitação, pois como diz Frei Beto: existe o militante e o militonto. Militonto é o que vai fazendo tanta coisa, que quando vê, já esqueceu seus princípios. É verdade que Jesus aqui é tido como louco porque não pára e fica todo para o próximo; mas também é verdade que, em outros trechos, Jesus retira-se para rezar, para ficar a sós com o Pai e consigo mesmo. Portanto, não é um militonto. E nem devemos ser militontos. O mundo precisa de militantes, como Jesus – pessoa que se dedica totalmente ao outro, mas que sabe também afastar-se do outro para recompor-se e sintonizar-se com o Pai.
Que “as loucuras” do nosso dia a dia não nos desviem do caminho original que um dia dissemos “sim” – Amém!
15 de janeiro de 2016
Ser perdoado dos pecados e voltar a andar
Evangelho
(Mc 2,1-12): Alguns dias depois, Jesus passou novamente por Cafarnaum, e
espalhou-se a notícia de que ele estava em casa. Ajuntou-se tanta gente
que já não havia mais lugar, nem mesmo à porta. E Jesus dirigia-lhes a
palavra. Trouxeram-lhe um paralítico, carregado por quatro homens. Como
não conseguiam apresentá-lo a ele, por causa da multidão, abriram o
teto, bem em cima do lugar onde ele estava e, pelo buraco, desceram a
maca em que o paralítico estava deitado. Vendo a fé que eles tinham,
Jesus disse ao paralítico: «Filho, os teus pecados são perdoados».
Estavam ali sentados alguns escribas, que no seu coração pensavam: «Como
pode ele falar deste modo? Está blasfemando. Só Deus pode perdoar
pecados»! Pelo seu espírito, Jesus logo percebeu que eles assim pensavam
e disse-lhes: «Por que pensais essas coisas no vosso coração? Que é
mais fácil, dizer ao paralítico: ‘Os teus pecados são perdoados’, ou:
‘Levanta-te, pega a tua maca e anda’? Ora, para que saibais que o Filho
do Homem tem na terra poder para perdoar pecados — disse ao paralítico —
eu te digo: levanta-te, pega a tua maca, e vai para casa!» O paralítico
se levantou e, à vista de todos, saiu carregando a maca. Todos ficaram
admirados e louvavam a Deus dizendo: «Nunca vimos coisa igual!».
Fiz
vários cursos, e sempre fiquei atento aos professores quando falavam
“tal cena não deve ter acontecido... tal acontecimento não é
histórico...” e assim sucessivamente. Nunca ouvi que esta cena não teria
acontecido. Pode até ser que não ocorrera, mas nunca ouvi de alguém que
foi uma criação literária de um evangelista para levar alguma mensagem à
comunidade. Portanto, a princípio, penso que esta cena ocorreu, tal
como está descrita. Até porque, para criar uma cena para uma determinada
mensagem, acho que não inspiraria o que foi escrito aqui, pois é quase
inimaginável que quatro pessoas desçam um paralítico pelo telhado.
Portanto, ao julgar que a cena está tal como teria ocorrido, podemos
perceber a lógica de Jesus: perdoa os pecados... em seguida, o
paralítico anda... Não somente o seu efeito físico, que em si já é
grande, mas
o seu efeito religioso, espiritual, pedagógico e
psicológico é muito grande. O homem não andava e precisava ser carregado
por outros. A partir do momento que ele tem os seus pecados perdoados,
ele passa a andar, e a maca que o carregava, passa a ser carregado por
ele, invertendo a lógica da dependência material. Isto dá uma reflexão
muito tentadora: somos pecadores, e isto ninguém tem dúvida. Um dos
problemas do pecado, é que aos poucos ele vai nos paralisando.
Paralisando o coração que vai amando cada vez menos e endurecendo...
paralisando nosso afeto, sensibilidade, fraternidade e senso de justiça,
deixando-nos cada vez mais egoísta, frio, insensível e buscando não a
justiça, mas o que me favorece... isto vai me deixando cada vez menos
humano. Isto vai, na verdade, nos paralisando... e vai nos colocando
numa dependência (ser carregado na maca) e sem percebermos vamos
perdendo a vida, e entrando numa lógica material/capitalista, e às vezes
até continuando a frequentar Igreja, buscando um Deus que autentique
esta minha lógica. Na verdade, estamos paralisados, humanamente falando.
Podemos ser tudo – rico, patrimonialista, ter “sucesso”, “status”,
etc., mas não somos humanos mais... paralisou-se a humanidade dentro de
nós. Então, no encontro pessoal com Jesus, ele perdoa os pecados, e isto
faz com que o que me deixava paralisado, saia e eu volte a caminhar, ou
seja, volte a não mais depender da maca e passe a andar e inverter a
lógica (agora eu é que carrego a maca). O dinheiro me carrega ou eu que o
carrego? Uma pessoa que faz o encontro pessoal com Jesus inverte sua
lógica, hierarquiza-se interiormente de outra forma, colocando em
primeiro lugar o que de fato interessa a vida, e em segundo lugar o que
pode ser útil a vida, e por último lugar o que atrapalha a vida (ódio,
vingança, etc). O paralítico, perdoado, voltou a andar e carregou a maca
que o carregava. Que eu tenha esta graça de, todas as vezes que
perceber que estou sendo carregado pela maca (e pode ser tanta coisa que
me carrega – hoje, por exemplo, a TV carrega muita gente...)... que eu
não seja carregado por nada, mas que eu possa andar com minhas próprias
pernas, que eu seja humano e que aquilo que me carregava, passe a ser
carregado por mim, como sinal de “adulto livre”. Amém!
14 de janeiro de 2016
Tocar o intocável – eis o cristianism
Evangelho
(Mc 1,40-45): - Um leproso aproximou-se de Jesus e, de joelhos,
suplicava-lhe: «Se queres, tens o poder de purificar-me!». Jesus
encheu-se de compaixão, e estendendo a mão sobre ele, o tocou, dizendo:
«Eu quero, fica purificado». Imediatamente a lepra desapareceu, e ele
ficou purificado. Jesus, com severidade, despediu-o e recomendou-lhe:
«Não contes nada a ninguém! Mas vai mostrar-te ao sacerdote e apresenta,
por tua purificação, a oferenda prescrita por Moisés. Isso lhes servirá
de testemunho”. Ele, porém, assim que partiu, começou a proclamar e a
divulgar muito este acontecimento, de modo que Jesus já não podia
entrar, publicamente, na cidade. Ele ficava fora, em lugares desertos,
mas de toda parte vinham a ele».
O Evangelho de hoje me
faz lembrar a homilia do padre feita no retiro que participei na semana
passada, onde era este mesmo evangelho, e ele dizia que em levítico
existe um trecho que ele tem vergonha de, ao ler, dizer “palavra do
senhor”, tal é a exclusão social que o texto impõe. Diz ele que o texto
de levítico que fala do leproso, o trata como um pecador, que deveria se
cobrir e se afastar da comunidade, e viver em lugares próprios e,
quando alguém se aproximar dele, ele deveria gritar “impuro, impuro”. E
mais: era considerado que a lepra que ele recebeu era um castigo de Deus
por algum pecado que ele teria feito. Portanto, o leproso sofria pela
doença em si, sofria por ser um impuro (imagine isto na auto-estima
dele), e sofria por não poder conviver com demais pessoas. E, também era
obrigado a, quando alguém se aproximar, auto-declarar-se “impuro”. Ou
seja, além de sua auto-estima estar lá no fundo do poço, ainda tinha que
ser público! E esta cena chamava atenção do padre, quando dizia que o
leproso aproximou-se se Jesus. Ora, ou ele sabia quem era Jesus ou ele
foi ousado por não aguentar mais seu sofrimento. O que chama atenção é o
que Jesus faz. Jesus não somente o cura, mas Jesus o toca e o declara
“purificado”.
Isto faz uma mudança na vida daquela pessoa inimaginável para os tempos
de hoje. E Jesus então com isto não respeita o que consta em levítico,
pois se alguém leproso nem poderia se aproximar de outra pessoa sã,
muito menos alguém tocá-lo. Jesus quebra este escrito. No entanto, Jesus
respeita o escrito quando fala para ele ir se aproximar aos sacerdotes,
pois era assim que deveria fazer quando alguém se percebesse curado:
apresentar-se a sociedade. Interessante que quem o declarava impuro, na
época, era a Igreja. Temos passados também houve um bispo que declaro
pecado uma pessoa portadora do vírus HIV. Continuando a homilia, para o
padre esta passagem deixa claro o que é o cristianismo: tocar o
intocável... fora disto, não é cristianismo. A Igreja, os cristãos, são
pessoas que tratam todas as demais pessoas com dignidade, independente
de sua aparência, classe social, capacidade econômica; e, fora disto,
não é cristianismo. A Igreja tem a missão de proclamar o cristianismo,
de proclamar Jesus, e não se auto-proclamar. A Instituição tem que estar
a serviço de Deus, e não o contrário. Dizia também que, na Índia, por
questões financeiras, os doentes em fases terminais eram retirados dos
hospitais e depositados nas calçadas, para morrerem, visto que, como
nada mais havia a ser feito, não tinham como ficar ocupando leitos, em
prejuízo de outros e com gastos insuportáveis. Madre Teresa de Calcutá
percebeu isto e foi tocada a fazer uma casa de acolhimento, e começou a
levar para ela os doentes, em fases terminais depositados em calçadas,
para dar-lhes um tratamento digno nesta fase da vida dela. Dar dignidade
a pessoa, tratar com dignidade a pessoa, seja quem for, é condição sine
qua non do cristianismo. Fora disto, não existe cristianismo. Esta foi a
homilia, que deve servir-nos para termos como bússola da direção dos
nossos comportamentos, já que nos dizemos “cristãos”.
Amém!
06 de Janeiro de 2016
Ajoelhando-se diante dEle, abriram seus cofres...
Evangelho
(Mt 2,1-12): Depois que Jesus nasceu na cidade de Belém da Judéia, na
época do rei Herodes, alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém,
perguntando: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a
sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo». Ao saber disso, o rei Herodes
ficou alarmado, assim como toda a cidade de Jerusalém. Ele reuniu todos
os sumos sacerdotes e os escribas do povo, para perguntar-lhes onde o
Cristo deveria nascer. Responderam: «Em Belém da Judéia, pois assim
escreveu o profeta: «E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a
menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um
príncipe que será o pastor do meu povo, Israel». Então Herodes chamou,
em segredo, os magos e procurou saber deles a data exata em que a
estrela tinha aparecido. Depois, enviou-os a Belém, dizendo: «Ide e
procurai obter informações exatas sobre o menino. E, quando o
encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo». Depois que
ouviram o rei, partiram. E a estrela que tinham visto no Oriente ia à
frente deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino. Ao
observarem a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande. Quando
entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se
diante dele e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram
presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonho para não voltarem a
Herodes, retornaram para a sua terra, passando por outro caminho.
Quando
entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se
diante dele e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram
presentes...
Esta cena, descrita em Mateus, independente
de ter acontecido ou não, é cheia de significados que podem nos trazer
uma mensagem interessante.
Para mim, é significativo que os magos
(não reis, e nem três; mas magos), entrem na casa de Maria de José
(casa ?) e vejam o Menino recém-nascido e ajoelhem diante dele. Quem
eles viram? Não viram uma criança num presépio bonito, cheio de luzes,
como representamos em nossas casas, nem uma bela árvore de Natal
enfeitada... imagino uma cena de muita simplicidade: um casal e um
recém-nascido. Todos nós já vimos recém-nascidos e percebemos que é um
"toquinho" de gente. Até falamos "que bonito... parece com fulano...".
Na verdade são expressões comuns, mas não refletem a realidade, pois
recém-nascido é recém-nascido - pequenas criaturas humanas que mal se
comunicam com o meio externo (salvo com dor ou fome). No entanto, estes
magos, ao verem uma simples criança numa simples casa, com um simples
casal, o que fazem? "Ajoelham-se". Talvez aqui esteja um segredo da
humanidade: "ajoelhar-se diante do simples, de uma cena que em si é
pobre materialmente. Hoje ajoelhamos diante de fortunas, shoppings,
vitrines...,
mas pouco ajoelhamos diante de aparências de baixo esplendor visual. E é
isto que os Magos fazem: viajam tanto, procuram tanto, e não se
frustram com o que vêem: "ajoelham-se". Quantas vezes vamos numa
Celebração e queremos isto e mais aquilo, exigimos tanta coisa, e quanto
não tem, voltamos frustrados... Raramente nos ajoelhamos para coisas e
cenas simples, mas que podem nos dizer muito. Uma enorme fila para jogar
numa mega sena de milhões, não é ajoelhar-se? E tantas outras cenas
poderíamos lembrar aqui de como nos ajoelhamos a cenários que não nos
alimenta no coração; e talvez deixemos de ajoelhar diante do que
realmente importa.
E o que ocorre com os magos, após
ajoelharem-se? Diz o texto: "abriram seus cofres...". O que é cofre?
Cofre é um lugar difícil de abrir, que precisa saber o segredo para que o
mesmo se abra. E eles descobriam o segredo para abrir seus cofres: o
encontro com Jesus. Acredito eu que a maioria da humanidade passa a vida
toda ajoelhando-se onde nunca deveriam se curvar e mantendo seus cofres
permanentemente fechados. E assim, o cofre da solidariedade, justiça,
amor, afetividade, amizade, bondade, vida plena, permanecem fechados e
vivemos uma vida preocupada com o futuro, sem nunca viver o presente,
tentando viver como se nunca fossemos morrer e morrendo sem nunca ter
vivido. Como disse Frei Beto em uma palestra: "no jazigo de muita gente
deveria estar escrito 'eis aquele que morreu sem nunca ter sido o que
poderia ter sido'". Cofres fechados... O que temos fechado dentro de nós
que precisamos abrir? A necessidade de abertura dos nossos corações,
verdadeiros cofres do amor infinito, é de todos nós. O segredo para
abri-lo é ajoelhar-se... mas não basta ajoelhar-se... é necessário
ajoelhar-se diante dAquele que tem o segredo do cofre, e não diante do
que nossa imaginação capitalista acredita que resolverá. Os Magos
encontraram um recém-nascido e, apesar de todas as aparências
contrárias, eles O adoraram, e com isto, abriram seus cofres... que Deus
nos dê a sabedoria e humildade de reconhecermo-nos necessitados dEle e O
busquemos, como os Magos, e que nos dê a graça de abrir-nos aos outros,
ao mundo, a mim mesmo, enfim, a vida: talvez este seja o grande segredo
que muitos buscam em lugares que jamais encontrarão... não está nas
Jerusaléns lindas e maravilhosas... está nas grutas simples... mas que
abrem nossos cofres... amém!
29 de dezembro de 2015
Reerguer os caídos...
Evangelho
(Lc 2,22-35): E quando se completaram os dias da purificação, segundo a
lei de Moisés, levaram o menino a Jerusalém para apresentá-lo ao
Senhor, conforme está escrito na Lei do Senhor: «Todo primogênito do
sexo masculino será consagrado ao Senhor”. Para tanto, deviam oferecer
em sacrifício um par de rolas ou dois pombinhos, como está escrito na
Lei do Senhor.
Ora, em Jerusalém vivia um homem piedoso e justo,
chamado Simeão, que esperava a consolação de Israel. O Espírito do
Senhor estava com ele. Pelo próprio Espírito Santo, ele teve uma
revelação divina de que não morreria sem ver o Ungido do Senhor. Movido
pelo Espírito, foi ao templo. Quando os pais levaram o menino Jesus ao
templo para cumprirem as disposições da Lei, Simeão tomou-o nos braços e
louvou a Deus, dizendo: «Agora, Senhor, segundo a tua promessa, deixas
teu servo ir em paz, porque meus olhos viram a tua salvação, que
preparaste diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e
glória de Israel, teu povo». O pai e a mãe ficavam admirados com
aquilo que diziam do menino. Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe:
«Este menino será causa de queda e de reerguimento para muitos em
Israel. Ele será um sinal de contradição — e a ti, uma espada
traspassará tua alma! — e assim serão revelados os pensamentos de muitos
corações».
«Este menino será causa de queda e de reerguimento para muitos..."
Interessante
esta frase colocada por Lucas na boca de Simeão. Maria ouve e talvez
não entenda o que queria dizer isto: "alguns serão reerguidos e outros
terão queda?".
Se a palavra usada é "reerguido" é porque ele já
estava numa posição e caiu e agora vai se "reerguer". Não é elevação,
mas reerguimento. Elevação é quando alguém está na posição correta e
sobe; reerguimento é quando a pessoa que estava na posição correta, por
algum motivo caiu, e agora vai ser reerguida, ou seja, recolocada na
posição original.
Acredito eu que o evangelista esteja dizendo
que Deus, na pessoa de Jesus, vem para restabelecer as pessoas na
posição que ele nunca deveriam ter saído: a posição de ser "ser humano",
ser cidadão de direitos e deveres, não ser subalterno ou escravo de
nada, de ninguém. Com certeza,na época de
Jesus, havia poderes
civis, políticos e eclesiásticos que oprimiam o povo mais simples, mais
pobre, menos culto, imputando-lhes uma vida pequena, como se fossem
seres inferiores à outros. Tanto que as doenças eram vistas como
"castigo de Deus por pecados cometidos", e as transgressões às mais de
400 regras existentes pela Igreja, também tornava as pessoas menores. E,
como não sabiam ler, ainda que quisessem cumprir as regras, lhes era
impossível, pois não tinham o acesso às mesmas, como os outros (alguns)
tinham. A escassez financeira também fazia das pessoas seres inferiores a
outros. E, talvez Simeão venha dizer: "estas pessoas que foram
rebaixadas, serão reerguidas, pois o mundo não foi feito por Deus para
que alguns estejam por cima de outros... - portanto, serão reerguidas!" .
E, por outro lado, Simeão também diz: "queda de muitos". Queda é
voltar a ser o que era, cair de um patamar mais elevado para ficar no
patamar que lhe é devido.
Entre tantos trechos do evangelho que
esta frase é real, lembro-me daquela em que Jesus descendo do barco para
uma comunidade, um homem "possuído pelo demônio, que vivia entre os
túmulos, vem até Jesus, que expulsa os demônios, manda-os para os porcos
(que morrem) e o homem fica são e a comunidade pede que Jesus vá
embora". Esta cena é típida de reerguimento de uns e queda de outros. O
"endemoninhado" foi reerguido à sua posição de ser humano - voltou a ser
normal... Mas, aqueles que viviam da exploração, mantendo porcos
(especulação) a custas de pobreza alheia, estes tiveram queda
(literalmente, os porcos caíram...). A queda dos porcos era a quebra do
sistema econômico opressor e excludente daquela comunidade que vivia bem
com a economia apresentando bons números (porcos em grande quantidade),
ainda que tivesse pessoas vivendo nos túmulos (como mortos). Aqui,
nesta cena, como em tantas outras, Jesus reergue um ser humano e provoca
a queda de alguns privilegiados.
Bem, o tem passou e estamos em
2015, quase 2016. Aos cristãos cabe a tarefa de continuar o que Jesus
fez. E a realidade sócio/economica/política/eclesial de hoje não nos
parece muito diferente da do tempo de Jesus. O problema não é que nem
sempre nós cristãos não fazemos o que Jesus fez... o problema é maior
quando nós, ditos cristãos, somos os protagonistas de um sistema
injusto, e, pior, quando estamos "mais alto" e jamais permitimos nossa
queda para o reerguimento de outros... isto pode ser tudo, menos
cristianismo. Cristianismo eleva os que estão abaixo, mas para que isto
possa ocorrer, não bastam discursos,
homilias e pregações... há necessidade de queda de alguns... e nem sempre estamos dispostos a isto...
Que
Deus nos abra os olhos, como abriu os de Simeão, para vermos o que
precisamos enxergar e fazermos o que precisa ser feito - só assim
podemos dizer que o "reino está no meio de nós" - amém"
28 de dezembro de 2015
Todos os dias eu recebo um comentário do evangelho, do site "evangeli.net". O de hoje me chamou atenção e partilho com todos.
A saída noturna de José - decisões que nos interpelam (evangeli.net)
Evangelho
(Mt 2,13-18): Depois que os magos se retiraram, o anjo do Senhor
apareceu em sonho a José e lhe disse: «Levanta-te, toma o menino e sua
mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai
procurar o menino para matá-lo». José levantou-se, de noite, com o
menino e a mãe, e retirou-se para o Egito; e lá ficou até à morte de
Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: «Do
Egito chamei o meu filho». Quando Herodes percebeu que os magos o
tinham enganado, ficou furioso. Mandou matar todos os meninos de Belém e
de todo o território vizinho, de dois anos para baixo, de acordo com o
tempo indicado pelos magos. Assim se cumpriu o que foi dito pelo profeta
Jeremias: «Ouviu-se um grito em Ramá, choro e grande lamento: é Raquel
que chora seus filhos e não quer ser consolada, pois não existem mais».
Comentário:
Rev. D. Joan Pere PULIDO i Gutiérrez (Sant Feliu de Llobregat,
Espanha)«José levantou-se, de noite, com o menino e a mãe, e retirou-se
para o Egito »
Fonte: evangeli.net
Hoje celebramos
a festa dos Santos Inocentes, mártires. Introduzidos nas celebrações de
Natal, não podemos ignorar a mensagem que a liturgia quer nos
transmitir para definir, ainda mais, a Boa Nova do nascimento de Jesus,
com dois acentos bem claros.
Em primeiro lugar, a predisposição
de São José no desígnio salvador de Deus, aceitando sua vontade. E, por
sua vez, o mal, a injustiça que freqüentemente encontramos em nossa
vida, concretizada na morte martirial das crianças Inocentes. Tudo isso
pede-nos uma atitude e uma resposta pessoal e social. São José nos
oferece um testemunho bem claro de resposta decidida perante o chamado
de Deus. Nele nos sentimos identificados quando devemos tomar decisões
nos momentos difíceis de nossa vida e de nossa fé: «Levantou-se de
noite, com o menino e a mãe, e retirou-se para Egito» (Mt 2,14). Nossa
fé em Deus implica a nossa vida.
Faz que nos levantemos, quer
dizer faz nos estar atentos às coisas que acontecem em nosso redor,
porque —freqüentemente— é o lugar onde Deus fala.
Faz nos tomar
ao Menino com sua mãe, quer dizer, Deus faz se nos próximo, companheiro
de caminho, reforçando a nossa fé, esperança e caridade.
E faz
nos sair de noite para Egito, isto é, convida-nos a não ter medo perante
nossa própria vida, que com freqüência enche-se de noites difíceis de
iluminar.
Estas crianças mártires, também hoje, têm nomes
concretos em crianças, jovens, casais, pessoas idosas, imigrantes,
doentes... que pedem a resposta de nossa caridade.
Assim nos o diz João Paulo II: «Em efeito, são muitas, em nosso tempo, as necessidades que interpelam à sensibilidade cristã.
É
hora de uma nova imaginação da caridade, que se desdobre não só na
eficácia da ajuda emprestada, mas também na capacidade de nos fazer
próximos e solidários com o que sofre». Que a nova luz, clara e forte
de Deus feito Menino encha nossas vidas e consolide nossa fé, nossa
esperança e nossa caridade.
24 de novembro de 2015
Partilho a reflexão que recebo mensalmente do Pe.Thomas, feita do
evangelho da liturgia católica de domingo passado, onde trazia Jesus
como Rei do Universo.
Uma reflexão muito interessante e questionadora.
JESUS CRISTO - REI DO UNIVERSO
FESTA DO NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO (22.11.15) Jo 18, 33b-37
“Todo aquele que é da verdade, escuta a minha voz”
Na
Igreja Católica, hoje, último domingo do Ano Litúrgico, celebra-se a
festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. A festa foi
estabelecida na época dos governos totalitários nazistas, fascistas e
comunistas, nos anos antes da Segunda Guerra, para enfatizar que o único
poder absoluto é de Deus. Nos dias de hoje, em que milhões padecem as
consequências de um novo tipo de totalitarismo disfarçado, o do poder
econômico inescrupuloso, torna-se atual a inspiração original da festa –
que Deus é o único Absoluto. Em um mundo que não ateu mas idolátrico,
pois presta culto ao lucro, a festa de hoje nos desafia para que
revejamos as nossas atitudes e ações concretas – para descobrir o que é
para nós, na verdade, o valor absoluto das nossas vidas.
O texto é
tirado da paixão segundo João – o diálogo entre Jesus e Pilatos sobre a
verdadeira identidade de Jesus. Com a ironia que lhe é típico, João
faz com que Pilatos – o representante do poder absoluto da época, o
Império Romano - apresenta Jesus como Rei, o que ele é na verdade, mas
não da maneira que Pilatos pudesse entender. O Reino de Jesus é o oposto
do Reino do Império Romano – não é opressor, nem injusto, nem
idolátrico, mas o Reino da justiça, fraternidade, solidariedade e
partilha, o Reino do Deus da Vida.
É exatamente por pregar e
semear este Reino que Jesus deve morrer – aliás não morrer mas ser
matado, o que é diferente. Pilatos demonstra isso quando ele deixa
claro quem entregou Jesus, pedindo a sua morte. Não foi o povo, mas os
sumos sacerdotes que o entregaram (v. 35). É importante entender o que
isso significa, pois se Jesus foi matado, houve
algum motivo e
houve alguém que o matasse. Os sumos sacerdotes eram, no tempo de
Jesus, todos nomeados pelos romanos, dentro do partido dos saduceus, o
partido da elite jerosalemita, donos de terras e do comércio, e chefes
do Templo. O Templo funcionava como “Banco Central”, centro de
arrecadação de impostos e lugar de câmbio monetário, uma vez que não se
aceitava nele a moeda corrente. Jesus, portanto, foi assassinado pelo
poder político, econômico e religioso, coniventes com o poder
imperialista, representado por Pilatos. Pois o Reino de Deus se opõe
frontalmente a qualquer reino opressor, como era o de Roma.
A realidade vivida por Jesus continua hoje. O seguimento de Jesus, na
construção dum Reino de justiça e paz, do shalôm de Deus,
necessariamente vai entrar em conflito com os reinos que dependem da
exploração e da injustiça. Normalmente, esses poderes primeiro vão
tentar cooptar a igreja, para que, em lugar de ser voz profética diante
das injustiças, torne-se porta-voz dos valores desses reinos. E não
faltarão incentivos, monetários e outros, para que as igrejas caiem
nesta cilada. Por isso, como nos advertiram os textos nos últimos
domingos, é necessário que fiquemos sempre vigilantes para verificarmos
se a nossa vida prática está mais de acordo com o Reino de Deus ou o
reino de Pilatos.
Para João, Jesus provoca a grande crise da
história. Diante da verdade, que é Ele, todos têm que se posicionar.
Ele, como todo profeta, não causa a divisão, mas desmascara a divisão
que existe dentro da sociedade, a divisão entre o bem e o mal, entre um
projeto da morte e um projeto da vida, uma divisão que permeia todos os
elementos da sociedade. Diante dele, não há lugar para meio-termo -
todos têm que optar. Por isso, a nossa festa de hoje, longe de ser algo
triunfalista, nos desafia para que façamos um exame de consciência –
tanto individual como eclesial e comunitário - para verificar se o nosso
Rei é realmente Jesus, ou se, mesmo duma maneira disfarçada, continua
sendo Pilatos!
4 de novembro de 2015
Hierarquia do amor
Evangelho
(Lc 14,25ss): Grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-se, ele
lhes disse: Se alguém vem a mim, mas não me prefere a seu pai e sua mãe,
sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs, e até à sua própria
vida, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega sua cruz e não
caminha após mim, não pode ser meu discípulo.
Existem
trechos do evangelho que são perigosos para um leigo interpretar
exegeticamente e também perigosos para teólogos genéricos pronunciarem.
Pode, à partir deste trecho, termos mensagens, na minha opinião,
equivocadas, a respeito de desprezo pela vida, pelas pessoas, etc.,
levando uma pessoa a um fanatismo que não seria o objetivo deste
Evangelho. Quantas pessoas não deixam de viver sua vida para se
entregarem a atividades na Igreja, e ficam sem tempo para sua família,
amigos, prazeres, etc.. O tempo passará e depois, caso "a ficha caia",
será tarde demais. Frei Vittório disse na semana passada para mim: "Deus
perdoa sempre - os homens de vez em quando; mas a natureza, NUNCA". Ou
seja, o que deixou de ser feito no seu devido tempo não tem perdão. O
tempo passa e não há reparos. Quem não viu seus filhos crescerem, quem
não beijou seus pais, quem não quem não brincou com as crianças, quem
não estudou nas devidas épocas, quem deixou o cavalo passar, não tem
como retornar, refazer, reconstituir... a natureza nada perdoa - fez,
está feito - ou, não fez, não está feito! Daí que este trecho do
evangelho, se mal interpretado, pode dar problemas graves a muitas
pessoas. Claro que, se o passado não pode ser mudado, um novo futuro
pode ser construído, à partir do aprendizado do passado - isto sim - e
Deus renova todas as coisas - neste sentido sim. Portanto, neste momento
que nos deparamos com este trecho do evangelho, duas coisas acredito
que tenho que pedir, como graça: a humildade de me ver impotente para
compreender por si o que o texto me diz e sabedoria para, também pela
graça, apreciá-lo dentro do que seria o objetivo de Jesus. De qualquer
forma, pensando que os
seguidores de Jesus caminhavam com ele com
certa ilusão que Jesus seria um Rei e que seus seguidores seriam seus
ministros, pode ser que Jesus teria falado o que falou, para que se
desfizesse na cabeça dos seguidores este pensamento de poder dominante,
com o objetivo de deixar claro que o Reino é um poder de serviço. Não é
dominar, mas servir. E, considerando que a natureza humana busca tudo
para si (pecado original), pode ser que Jesus estivesse propondo uma
outra forma de viver (graça original) onde cada um abrace o essencial, o
absoluto, e viva de forma relativo com o que é relativo. Pode ser. De
qualquer forma, não acredito que Jesus estivesse falando no sentido
negativo de não amar amigos, pais e a própria vida. Talvez o que Ele
tenha nos ensinado é que, amando primeiramente à Ele, todo o amor humano
se redimensiona, amplia, dilata e poderemos amar a todos, com um amor
sem egoísmo, sem desejo de reter o objeto amado, com ampla liberdade.
Amor perfeito impõe liberdade, e isto não é fácil de praticar, apesar de
ser fácil de falar. Liberdade para que o amado/a tenha a última palavra
dele/a e não a minha. Um amor assim não é fácil, pois nosso amor tende a
querer exclusividade, preferências, etc.. E os pais, com relação aos
filhos, mais difícil ainda: saber compreender até onde vai minha linha
de obrigação de interferência na vida do filho, sem ser omisso e onde
cruza a linha da liberdade que tenho que respeitar meu filho, sem fazer
dele minha marionete. Talvez possamos refletir neste texto a necessidade
que temos de dobrarmos nossos joelhos frente a Deus e dizer-Lhe com
humildade: "eu não sei amar - ensina-me". E, pela graça, possamos amar
de forma plena, humana e divina, e hierarquizarmos interiormente nossos
valores - isto talvez seja a conquista da liberdade humana, que nos dá
sentido à vida e a própria existência. Se for isto, que Deus me conceda
esta graça - Amém!
22 de outubro de 2015
Jesus veio trazer espada e fogo, e não o conformismo.
Evangelho
(Lc 12,49-53): Naquele tempo, o Senhor disse aos seus discípulos: O
servo que, conhecendo a vontade do senhor, nada preparou, nem agiu
conforme a sua vontade, será chicoteado muitas vezes. O servo, porém,
que não conhecendo essa vontade fez coisas que merecem castigo, será
chicoteado poucas vezes. Portanto, todo aquele a quem muito foi dado,
muito lhe será pedido; a quem muito foi confiado, dele será exigido
muito mais! Fogo eu vim lançar sobre a terra, e como gostaria que já
estivesse aceso! Um batismo eu devo receber, e como estou ansioso até
que isto se cumpra! Pensais que eu vim trazer a paz à terra? Pelo
contrário, eu vos digo, vim trazer a divisão. Pois daqui em diante, numa
família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas e duas
contra três; ficarão divididos: pai contra filho e filho contra pai; mãe
contra filha e filha contra mãe; sogra conta nora e nora contra sogra.
Para
mim este Evangelho contrasta contra todos aqueles que insistem em
apresentar um Jesus “bonzinho”, um modelo que não existiu, mas que seria
interessante que as pessoas acreditassem que existira, para fins de
manipulação e controle social. Desta forma, é interessante para alguns
que haja uma sociedade onde os pobres, os oprimidos e os excluídos
acreditem que serem cordeiros, pacientes, aceitarem a humilhação, a
exploração (sendo que o que importa é ser bonzinho, agradar os que nos
agridem, não protestar), creiam que diante dos sofrimentos terrenos
ganharão um céu eterno. Enfim, todas estas teologias capitalistas (que o
Papa Francisco tão bem combate e denuncia), não resistem neste
evangelho de Jesus que fala claramente que veio trazer divisões, fogo,
desentendimentos..., e numa sociedade “acalmada” pela anestesia de um
ópio de uma religiosidade medíocre, ao conhecer verdadeiramente Jesus,
não viverá mais em paz, pois os do andar de baixo perceberão que tem
direito ao andar de cima; os da senzala percebem que tem direito à Casa
Grande; os empobrecidos perceberão que tem direito ao bem produzido, e
que o mundo não foi feito para que alguns tenham tudo e a maioria tenha
pouco. No entanto, enquanto este Evangelho não for proclamado, não
chegar da forma tal como foi concebido, a sociedade permanecerá em
paz... numa paz de cemitério, numa paz não de presença de amor e
fraternidade, mas de ausência de guerra... ausência momentânea, pois um
dia a represa estoura, e se o silêncio permanecer, as pedras gritarão. O
Evangelho não é conciliável com o engano, a manipulação, a mentira, a
injustiça, a exploração...
Talvez por isso se tenham produzido
“outros evangelhos”, cujos anunciantes (alguns padres, pastores e
lideranças religiosas e políticas) apesar de pregarem a escassez, o
sacrifício, a dificuldade, vivem nos maiores castelos luxuosos de
incontáveis bens materiais. Não ficará pedra sobre pedra, no dia em que o
Evangelho for descoberto tal como Jesus o proferiu. E, neste dia,
cantaremos a libertação. Amém!
2 de novembro de 2015
Dia de Todos os Santos - reflexão Pe. Thomas
Evangelho
(Mt 5,1-12a): Naquele tempo, Vendo as multidões, Jesus subiu à montanha
e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e ele começou a ensinar:
Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Felizes
os que choram, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque
receberão a terra em herança. Felizes os que têm fome e sede da justiça,
porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque alcançarão
misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes
os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Felizes os
que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos
Céus. Felizes sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo,
disserem todo mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai,
porque é grande a vossa recompensa nos céus. Pois foi deste modo que
perseguiram os profetas que vieram antes de vós.
PE.THOMAS
“Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa nos céus”
Esses
primeiros versículos de Cap. 5 servem ao mesmo tempo como introdução e
resumo do Sermão da Montanha. Nos apresentam um retrato das qualidades
do verdadeiro discípulo(a), daquele que, no seguimento de Jesus, procura
viver os valores do Reino de Deus. Basta uma leitura superficial para
ver que a proposta de Jesus está na contramão da proposta da sociedade
vigente – tanta a do tempo de Jesus, como de hoje. Embora de uma forma
menos contundente do que Lucas (cf. Lc 6, 20-26), o texto de Mateus
deixa claro que o seguimento de Jesus exige uma mudança radical na nossa
maneira de pensar e viver.
Um primeiro elemento que
chama a atenção é o fato de que a primeira e a última bem-aventurança
estão com o verbo no presente – o Reino já é dos pobres em espírito e
dos perseguidos por causa da justiça – na verdade, as mesmas pessoas,
pois os que buscam a justiça são “pobres em espírito”. Eles já vivem a
dependência total de Deus, pois só com Ele esses valores podem vigorar.
Mas quem luta pela justiça será perseguido – e quem não se empenha nessa
luta jamais poderá ser “pobre em espírito”.
As outras
bem-aventuranças traçam as características de quem é pobre em espírito.
É aflito, por causa das injustiças e do sofrimento dos outros, causados
por uma sociedade materialista e consumista. É manso, não no sentido
de ser passivo, mas porque não é movido pelo ódio e pela violência que
marcam a ganância e a truculência dos que dominam, “amansando” os pobres
e fracos.
Tem fome da justiça do Reino, não a dos homens, que
tantas vezes não passa de uma legitimação oficial da exploração e
privilégio. Tem coração compassivo, como o próprio Pai do Céu, e é
“puro de coração”, sem ídolos e falsos valores. Promove a paz, não “a
paz que o mundo dá” (cf. Jo 14, 27), mas o “shalom”, a paz que nasce do
projeto de Deus, quando existe a justiça do Reino. Cumpre lembrar a
frase famosa do Papa Paulo VI: “Justiça é o novo nome da paz!”
Mas Jesus deixa claro qual é a consequência de assumir esse projeto de
vida – a perseguição! Pois um sistema baseado em valores
antievangélicos não pode aguentar quem a contesta e questiona, algo que a
história dos mártires do nosso continente testemunha muita bem.
Qualquer igreja cristã que é bem aceita e elogiada pelo sistema
hegemônica precisaria se questionar sobre a sua fidelidade à vivência
das bem-aventuranças do Sermão da Montanha. O martírio, (que na sua raiz
significa “testemunho”) é a pedra-de-toque dessa fidelidade. O martírio
nem sempre se dá pela morte física, mas muitas vezes pela morte lenta
ao egoísmo e às ideologias de dominação, em uma vivência fiel da luta
pela justiça do Reino de Deus. É a concretização da declaração de
Jesus: “quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, e
me siga” (Mt 16,24)
A festa de hoje não é tanto para recordamos
os nomes e façanhas dos grandes Santos/as conhecidos/as mas mais para
que lembremos de tantos milhões de pessoas, de todas as raças, culturas e
religiões, que viviam a santidade no anonimato das suas vidas diárias,
vivenda na fidelidade aos valores do Reino. O grande milagre que mostra
a santidade é a vivência fiel em busca do bem, na dedicação à família, à
comunidade e à sociedade, sempre procurando cumprir a vontade de Deus,
seja qual for a nossa experiência dele. Se examinarmos as nossas vidas
veremos que já
conhecíamos muitas pessoas santas, cujos nomes
jamais serão conhecidos mundialmente, mas que serviram como exemplo dos
verdadeiros valores evangélicos para nós. Que a celebração nos anime na
busca da vivência fiel dos valores do Evangelho, não em grandes
milagres, mas no dia a dia da nossa vocação, seja ela o que for
19 de outubro de 2015
Hoje
Evangelho (Lc
12,13-21): Alguém do meio da multidão disse a Jesus: Mestre, diz ao meu
irmão que reparta a herança comigo. Ele respondeu: Homem, quem me
encarregou de ser juiz ou árbitro entre vós?. E disse-lhes: Atenção!
Guardai-vos de todo tipo de ganância, pois mesmo que se tenha muitas
coisas, a vida não consiste na abundância de bens. E contou-lhes uma
parábola: A terra de um homem rico deu uma grande colheita. Ele pensava
consigo mesmo: Que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita.
Então resolveu: Já sei o que fazer! Vou derrubar meus celeiros e
construir maiores; neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus
bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tens uma boa reserva
para muitos anos. Descansa, come, bebe, goza a vida! Mas Deus lhe diz:
Tolo! Ainda nesta noite, tua vida te será retirada. E para quem ficará o
que acumulaste? Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo,
mas não se torna rico diante de Deus.
...descansa, come, bebe, goza a vida...
Parece-me
que este é uma orientação de vida que Jesus dá para os seres humanos:
descansar... alimentar-se... beber... gozar a vida. Gozar a vida em
todos os sentidos... curtir amizades, família, alegrias,
confraternizações, etc.. E, parece-me tudo isto muito bom. O que Jesus
chama atenção é que tudo isto tem que ser feito JÁ! E nós, insensatos,
muitas vezes guardamos isto para um “futuro “ que não sabemos quando
acontecerá. E mais: este futuro pode não chegar, como não chegou na
parábola. Deixar para amanhã o beijo nos pais, o carinho nos filhos, o
curtir com os amigos, a visita ao companheiro, a convivência em
passeios, o descansar adequadamente, o alimentar-se dignamente, o
celebrar profundamente, etc., etc., pode ser tarde. Muitos que deixaram
isto para “depois” este “depois” nunca ocorreu. E, nesta parábola, o
homem já era rico, poderia fazer tudo isto; no entanto, visto que sua
colheita foi muito boa, resolveu então construir silos e mais silos,
para encher de coisas e mais coisas, para depois gozar a vida... mas,
não deu tempo... após os silos estarem cheios, a vida dele terminou, e
os silos cheios ficaram para outras pessoas, e de nada adiantou à ele.
A grandeza da vida é para já. Não é para amanhã.
Por
isso, os bens materiais são necessários sim, mas não podem ser
condições imprescindíveis para eu curtir o que já posso curtir hoje. Não
podem me impedir de viver o que já posso viver hoje. Não podem ser
obstáculo para desfocar-me do que possuo e tenho hoje, do que posso e
devo fazer hoje.
No Calvário, Jesus disse ao bom ladrão: “Hoje
mesmo estarás comigo no paraíso”. É interessante a palavra “hoje”.
“Hoje” a salvação entrou nesta casa, disse à Zaqueu. O hoje para Jesus é
hoje mesmo.... Hoje... porque amanhã, pode ser tarde demais...
15 de outubro de 2015
Construir túmulos aos profetas
Evangelho
(Lc 11,47-54): Naquele tempo, o Senhor disse: «Ai de vós, porque
construís os túmulos dos profetas! No entanto, foram vossos pais que os
mataram. Com isso, sois testemunhas e aprovais as ações de vossos pais,
pois eles mataram os profetas e vós construís os túmulos. É por isso que
a sabedoria de Deus afirmou: Eu lhes enviarei profetas e apóstolos, e a
alguns, eles matarão ou perseguirão; por isso se pedirá conta a esta
geração do sangue de todos os profetas derramado desde a criação do
mundo, desde o sangue de Abel até o sangue de Zacarias, que foi morto
entre o altar e o Santuário. Sim, eu vos digo: esta geração terá de
prestar conta disso. Ai de vós, doutores da Lei, porque ficastes com a
chave da ciência!: vós mesmos não entrastes, e ainda impedistes os que
queriam entrar». Quando Jesus saiu de lá, os escribas e os fariseus
começaram a importuná-lo e a provocá-lo em muitos pontos, armando
ciladas para apanhá-lo em suas próprias palavras.
Comentário: Rev. D. Pedro-José YNARAJA i Díaz (El Montanyà, Barcelona, Espanha)
«Construís os túmulos dos profetas! No entanto, foram vossos pais que os mataram»
Hoje
o Evangelho nos fala do sentido, aceitação e trato dado aos profetas:
«Eu lhes enviarei profetas e apóstolos, e a alguns, eles matarão ou
perseguirão» (Lc 11,49). São pessoas de diferente condição social ou
religiosa, que tem recebido a mensagem divina e tem se impregnado dela;
impulsionadas pelo Espírito, o expressam com signos ou palavras
compreensíveis para seu tempo. É uma mensagem transmitida através de
discursos, nunca lisonjeiros, ou ações, quase sempre difíceis de
aceitar. Uma característica da profecia é sua incomodidade. O dom
resulta incômodo para aquele que o recebe, o esfolia internamente e, é
molesto para seu entorno, que hoje, graças à Internet ou aos satélites,
pode se estender ao mundo todo. Os contemporâneos do profeta pretendem o
condenar ao silêncio, o
caluniam, o desacreditam, assim até que
morre. Chega então o momento de lhe erigir o sepulcro e, de lhe
organizar homenagens, quando já não incomoda. Não faltam atualmente
profetas que gozam de fama universal. A Madre Teresa, João XXIII,
Monsenhor Romero... lembramo-nos daquilo que nos reclamavam e nos
exigiam? Aplicamos o que nos fizeram ver? A nossa geração se lhe pedirá
contas sob a capa de ozônio que destruiu, da desertificação que nossa
dilapidação de água causou, mas também do ostracismo que temos reduzido
aos nossos profetas Ainda há pessoas que se reservam para elas o
direito de saber em exclusiva, que o compartilham “no melhor dos casos”
com os seus, com aqueles que lhe permitem continuar no colo dos seus
sucessos e da fama. Pessoas que fecham o passo aos que tentam entrar nos
âmbitos do conhecimento, não seja que talvez saibam tanto quanto eles e
os ultrapassem: «Ai de vós, doutores da Lei, porque ficastes com a
chave da ciência! Vós mesmos não entrastes, e ainda impedistes os que
queriam entrar». Agora, como nos tempos de Jesus, muitos analisam
frases e estudam textos para desacreditar aos que incomodam com suas
palavras: É esse nosso agir? «Não há nada mais perigoso que julgar as
coisas de Deus com os discursos humanos» (São João Crisóstomo).
30 de setembro de 2015
Por onde mandares, eu irei
Evangelho
(Lc 9,57-62): Enquanto estavam a caminho, alguém disse a Jesus: «Eu te
seguirei aonde quer que tu vás». Jesus respondeu: «As raposas têm tocas e
os pássaros do céu têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde
reclinar a cabeça». Então disse a outro: «Segue-me». Este respondeu:
«Permite-me primeiro ir enterrar meu pai». Jesus respondeu: «Deixa que
os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai e anuncia o Reino de
Deus». Um outro ainda lhe disse: «Eu te seguirei, Senhor, mas deixa-me
primeiro despedir-me dos de minha casa». Jesus, porém, respondeu-lhe:
«Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de
Deus».
O que leva uma pessoa dizer a outra: “eu e
seguirei, onde quer que tú vás”? Para uma pessoa falar isto a outra, há
necessidade de algumas coisas terem ocorrido, e não são difíceis de
imaginar. Primeiro que Jesus deve ter conquistado corações e mentes,
pelo seu jeito, forma, e sobretudo, coerência entre o que fala e o que
faz. Jesus despertou uma liderança que envolve os liderados, que
conquista as pessoas, não pelo medo ou coerção, mas pela liberdade de
cada um optar por aquilo que ele acredita. Portanto, Jesus é uma pessoa
que passou credibilidade humana. A pessoa que disse que queria segui-lo
para ir onde quer que Ele fosse, é uma pessoa humana comum, com desejo
humano de fazer algo que dê sentido à vida dela; e encontrou, em Jesus, o
sentido para sua caminhada. Vale a pena deixar tudo, alterar seus
projetos e valores, para seguir aquele Homem. Hoje, quantos cristãos
atraem seguidores? Há uma carência de lideranças, pessoas que despertem
no outro o desejo de segui-los, que geram expectativa de uma nova vida.
Hoje, muitas pessoas ao dizerem que querem seguir alguém, querem saber o
que vão ganhar, o que vão receber. Também temos aí a mesquinhez e
egoísmo de muitos que dizem querer seguir um caminho, mas querem antes
saber o que receberão em troca para sua vantagem pessoal. Portanto,
temos ausência de lideranças que encantam outras pessoas, e ausência de
pessoas que se deixam encantar por motivos nobres, e não materiais. Mas,
para representar este segundo grupo de pessoas que até dizem topar uma
proposta, desde que algumas prévias condições materiais sejam
resolvidas, o Evangelho narra duas outras experiências: a de uma pessoa
que recebe o convite de Jesus e diz que antes tem quer ir enterrar o seu
pai e o de outro que disse que quer segui-Lo, mas antes quer despedir
dos de sua casa. Qual o significado de “ir enterrar o pai”. Pai pode ser
aquele que manda nele, e, neste caso, se ele quer ir enterrá-lo, é
porque está morto. Portanto, existe um “sem vida “ que manda na vida
daquela pessoa. E disse que quer ir sepultá-lo. Já deveria ter
sepultado. Um morto que manda em mim não pode me permitir liberdade,
abraço de nobres valores, abertura ao próximo. “Deixa-me primeiro
enterrar meu pai” –
hoje o que nos impede de um seguimento
radical de Jesus? Qual é o “pai morto” que eu ainda não enterrei? E,
neste campo de reflexão, existem muitos pais mortos que ainda não foram
enterrados. Pode ser uma frustração que ainda persiste na minha vida;
pode ser uma preocupação excessiva que me domina; pode ser um problema
de perdão não resolvido; pode ser uma confusão interna que não me
acalma... enfim, pais mortos que são verdadeiros pesos que nos prendem,
nos fazem caminhar em marcha lenta, quando fomos feitos para uma
velocidade maior. Preocupações com coisas pequenas, falta de superação,
ausência de dedicação... pais mortos... já deveriam estar enterrados faz
tempo. E Jesus fala: “deixe os mortos enterrarem seus mortos”. Ou seja,
quem tem coisa morta não enterrada, também está morto. E muita gente
está morta, sem saber, apesar do coração ainda bater. Gente morta para
uma esperança, morta para uma nova vida, morta porque está ocupada com
morto. A vida humana é uma só, e tem limite de tempo, e é pouco. E o
tempo é igual para todos. Portanto, ficar focado em coisas mortas, com
certeza, também me matará. Daí que Jesus fala “deixe os mortos
enterrarem seus mortos...”. No segundo episódio deste evangelho, a
pessoa disse que quer primeiro ir despedir dos de sua casa. Não vou
imaginar um conjunto de familiares que despedem alguém quando este
alguém vai para um lugar longe ou viagem, etc.. Vou imagem o que são
estes “de sua casa”? Pensando em casa como cada um de nós, o que, dentro
daquela pessoa, precisaria ainda ser despedida? Por que não os despediu
já? Quanta coisa parada, morta, pesando dentro da pessoa, e ainda não
os despediu? A pessoa, neste caso, percebe que tem que ir despedir “dos
de sua casa”. E Jesus fala “quem põe a mão no arado e olha para trás,
não consegue me seguir, não está apto”. O cristianismo é uma proposta de
uma vida plena, que não admite presença de interferências materiais ou
não, que segurem o ser humano. Uma pessoa que está cheio de coisas para
serem despedidas, não está apto ao Reino. Daí nos remete ao primeiro que
chegou até Jesus “vou onde Tú fores...”. Este já não tem nada morto
para ser enterrado, e nada para ser despedido – já enterrou o que tinha
que ser enterrado e está livre para uma nova vida. Portanto, tentar unir
valores antagônicos para fazer um seguimento, não é possível. E, cada
um tem sua liberdade de escolha. Ao escolher o caminho, definimos o
ponto que queremos chegar. Que Deus nos ilumine e nos dê sabedoria para
fazermos uma caminhada onde nada morto se impõe a mim e dentro da minha
casa (minha vida) nada há que precise ficar me despedindo. E, de coração
livre, possa entregar-me ao Grande Amor, para preencher-me dEle e quem
saber dizer “vou onde Tú queres que eu vá” – Amém!
29 de setembro de 2015
Antes que viesses até a Mim, Eu já o procurava
Evangelho
(Jn 1,47-ss): Naquele tempo, Jesus viu Natanael que vinha ao seu
encontro e declarou a respeito dele: Este é um verdadeiro israelita, no
qual não há falsidade! Natanael disse-lhe: De onde me conheces? Jesus
respondeu: Antes que Filipe te chamasse, quando estavas debaixo da
figueira, eu te vi.
Jesus viu Natanael que vinha
ao seu encontro e declarou a respeito dele: Este é um verdadeiro
israelita, no qual não há falsidade! Natanael disse-lhe: De onde me
conheces? Jesus respondeu: Antes que Filipe te chamasse, quando estavas
debaixo da figueira, eu te vi.
Neste pequeno trecho, o
verbo ver aparece duas vezes. No início, diz que Jesus VIU Natanael que
vinha ao seu encontro; e ao final Jesus diz que quando ele estava
debaixo da figueira Ele o VIU.
Jesus fala: “antes que Filipe te chamasse, quando estavas debaixo da figueira, Eu e Vi”.
Realmente
uma pessoa para conhecer o Amor, conhecer Deus, muitas vezes precisa
ser chamado por alguém. Estes “alguéns” que nos chamam, nos conduzem,
nos levam a conhecer o Pai, são verdadeiros anjos que nos abrem
caminhos, nos apresentam caminhos, mudam nossas vidas; são as chamadas
“figuras de transição” – pessoas que, tendo passado em nossa vida,
transforma-nos. No entanto, mesmo com a importância destes “anjos” na
nossa vida, Jesus fala “antes que Filipe (o anjo dele, neste caso) te
chamasse, Eu já o tinha visto”. Ou seja, não obstante a essencial ação
do anjo na nossa vida (neste caso Filipe, no nosso caso pode ser um
padre, um catequista, um professor, um amigo, um familiar, um pobre,
enfim, alguém que por nós passou e mudou a nossa vida), mas como estava
dizendo, não obstante a essencial ação deste(s) anjo(s), Jesus fala que
antes já tinha visto. Antes já tinha prestado atenção em mim. Antes já
tinha seu foco na minha pessoa. Antes já me observava amorosamente. No
caso de Natanael, Jesus fala “debaixo da figueira”. Interessante que
Jesus não fala “na sinagoga, na Igreja, no Templo”, lugares onde se
convencionou a achar que são os únicos
lugares de encontro com
Deus. Não! Jesus fala que via Natanael debaixo de uma figueira, num
momento “normal” de sua vida, num ponto cotidiano da história daquele
homem. Como hoje, Jesus também pode nos dizer que nos vê no trabalho,
nos estudos, no sono, num passeio, num leito de dor, num momento de
tristeza, num momento de alegria, num baile, numa viagem, num momento
mais cotidiano e corriqueiro da minha vida. Em qualquer situação da
minha história pessoal, Jesus pode estar me vendo, me observando, não
como na catequese antiga, que se pensava que Deus fazia isto para anotar
num caderninho meus erros para me cobrar no juízo final; mas como
alguém apaixonado por outro que observa o outro, fita o olhar no amado,
pensa no amado, tem sua atenção no amado, independente do amado perceber
ou não. Até que um dia, alguém toca no nosso braço e diz “você ainda
não percebeu que aquela pessoa está em atenção profunda contigo?” Ou não
foi assim em muitas vezes o início de um relacionamento amoroso entre
duas pessoas? Quantas vezes alguém precisou dar um “toque” no outro(a)
para que este outro(a) percebesse que alguém estava interessado nele(a)?
É um relacionamento humano amoroso normal, que compreendemos muito bem;
pois também temos que perceber um relacionamento amoroso entre Alguém
que nos ama e a mim. Neste caso, foi Filipe quem deu um “toque” a
Natanael, e Natanael foi ao encontro do Amado, e ouviu dele “antes que
você me procurasse, eu já o procurava, já tinha minha afeição à você”.
Também hoje, podemos ter certeza que ouviremos do Pai “antes que você me
procurasse, eu já o procurava ansiosamente... debaixo da figueira,
quando estava estudando... quando estava trabalhando... quando estavas
triste...”, enfim, no seu dia a dia, que, por mais simples e rotineiro
que possa ser, sempre serão pontos de encontro com o Amor, com o Pai.
Nosso dia a dia, podem ser (e são) altares de encontros entre um Deus
que nos ama e um ser humano desejoso de amor. No evangelho fala-se em
figueira... cada um de nós temos nossas figueiras, nossos lugares que
parecem simples, e no entanto, são lugares e momentos onde Deus continua
a nos procurar, nos olhar, nos afeiçoar.
Que eu tenha sensibilidade de perceber este Amor e ter esta experiência de ouvir dEle: “antes... Eu já o procurava... vamos!”.
27 de setembro de 2015
Abrir mão do essencial para alcançar o fundamental
Evangelho
(Mc 9,38-43.45.47-48): João disse a Jesus: Mestre, vimos alguém
expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não
andava conosco. Jesus, porém, disse: Não o proibais, pois ninguém que
faz milagres em meu nome poderá logo depois falar mal de mim. Quem não é
contra nós, está a nosso favor. Quem vos der um copo de água para beber
porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa. E quem
provocar a queda um só destes pequenos que crêem em mim, melhor seria
que lhe amarrassem uma grande pedra de moinho ao pescoço e o lançassem
no mar. Se tua mão te leva à queda, corta-a! É melhor entrares na vida
tendo só uma das mãos do que, tendo as duas, ires para o inferno, para o
fogo que nunca se apaga. Se teu pé te leva à queda, corta-o! É melhor
entrar na vida tendo só um dos pés do que, tendo os dois, ser lançado ao
inferno. Se teu olho te leva à queda, arranca-o! É melhor entrar no
Reino de Deus tendo um olho só do que, tendo os dois, ir para o inferno,
onde o verme deles não morre e o fogo nunca se apaga.
Mc 9, 38-43.45.47-48 - “Quem não está contra nós está a nosso favor”
O
texto de hoje nos coloca mais uma vez no contexto do ensinamento de
Jesus aos seus discípulos, enquanto caminhavam para Jerusalém. Já vimos
que a partir da “crise galilaica”, Jesus mudou a sua estratégia,
afastou-se das multidões e dedicou-se à formação mais intensa dos seus
discípulos, pois estes se mostravam incapazes de acolher a novidade do
Evangelho, com a mudança radical de atitudes que ele implicava.
A
primeira atitude a ser corrigida, nos versículos de hoje, é a de querer
reservar o Espírito de Jesus como propriedade da comunidade. João se
queixa que um homem que não os seguia estava expulsando demônios em nome
de Jesus. Atitude mesquinha, de querer dominar o Espírito de Deus,
sequestrar o poder divino! Mas, infelizmente, uma atitude bastante
prevalecente em certos setores mais retrógrados das Igrejas ainda hoje,
que acham que toda a riqueza do mistério de Deus possa caber dentro das
margens estreitas das suas definições dogmáticas! Hoje, Jesus nos ensina
a verdadeira atitude de um
discípulo: “Não lhe proíbam, pois...
quem não está contra nós, está a nosso favor” (v. 40). Temos que
aprender a acolher as manifestações verdadeiras do Espírito de Deus em
todas as religiões e culturas, e estar alertas para que nós mesmos não O
escondamos ou deturpemos! Discernimento deve ser uma atitude permanente
de vida!
A segunda parte do trecho nos coloca diante do problema
do escândalo aos pequenos na comunidade. Aqui cumpre ressaltar que “os
pequenos” neste texto não são as crianças, mas os humildes e pobres da
comunidade cristã. É bom lembrar o sentido original da palavra
“escândalo”. Vem de um termo grego que significa “pedra de tropeço”.
Então se trata de uma situação em que os pequenos da comunidade
“tropeçam”, isso é, não conseguem manter-se em pé ou se afastam, por
causa de certas atitudes dos dirigentes comunitários (é bom notar que o
discurso e as advertências se dirigem aos discípulos, e não aos de
fora). Deve ter sido um problema comum, pois o Discurso Eclesiológico
(isto é, da Igreja) no Evangelho de Mateus trata do mesmo assunto (Mt
18, 6-14). Usa imagens e linguagem tipicamente semitas: Jesus manda
cortar e jogar fora “a mão, o pé, e o olho”, que causam escândalos aos
pequenos. Obviamente não se propõe aqui uma mutilação física, mesmo se,
ao longo da história, houvesse quem assim o entendesse - por exemplo,
Orígenes. “Mão” significa a nossa maneira de agir, “pé” o modo de
caminhar na vida e “olho” o jeito de ver e julgar as coisas, ou até, a
nossa ideologia. Então o texto convida os dirigentes das comunidades
cristãs (hoje bispos, padres, pastores, irmãs, ministros etc.) a reverem
o seu modo de agir, pensar e julgar, para averiguar se não estão
causando a queda dos pequenos e humildes. Se descobrirmos que assim
esteja acontecendo, então devemos “cortar e jogar fora” - ou seja, mudar
o que causa o problema. Caso contrário, não experimentaremos na
comunidade a presença do Reino de Deus - a vivência dos valores do
Evangelho, que Jesus deu a vida para estabelecer.
A caminhada
para Jerusalém, no Evangelho de Marcos, é um grande ensinamento de Jesus
para quem quer segui-Lo como discípulo. Trecho por trecho, ele vai
desafiando a mentalidade dos discípulos, tão marcada pelos valores da
sociedade vigente, e semeando os valores do Reino. Hoje, Ele nos desafia
a praticarmos um verdadeiro ecumenismo e diálogo inter-religioso, e a
revermos os nossos modos de agir e pensar, para que a experiência cristã
de comunidade seja uma amostra real dos valores do Reino de Deus. O
Papa Francisco nos dá o exemplo, enraizado como está no espírito de
Jesus e na Palavra. Que tenhamos a abertura e a coragem de praticar o
que ele nos ensina.
Comentário: Rev. D. Valentí ALONSO i Roig (Barcelona, Espanha)
Possivelmente,
este Evangelho nos leva a refletir para descobrir o quê temos, por
muito nosso que seja, que não nos permite ir a Deus, e ainda mais, que
nos distancia dele.
21 de setembro de 2015
Sentados, somos chamados a se levantar.
Evangelho
(Mt 9,9-13): Ao passar, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na
coletoria de impostos, e disse-lhe: «Segue-me!». Ele se levantou e
seguiu-o. Depois, enquanto estava à mesa na casa de Mateus, vieram
muitos publicanos e pecadores e sentaram-se à mesa, junto com Jesus e
seus discípulos. Alguns fariseus viram isso e disseram aos discípulos:
«Por que vosso mestre come com os publicanos e pecadores?». Tendo ouvido
a pergunta, Jesus disse: «Não são as pessoas com saúde que precisam de
médico, mas as doentes. Ide, pois, aprender o que significa:
Misericórdia eu quero, não sacrifícios. De fato, não é a justos que vim
chamar, mas a pecadores».
Ao passar, Jesus viu um
homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe:
«Segue-me!». Ele se levantou e seguiu-o.
Interessante as
palavras que sempre aparecem no evangelho ao descrever uma cena de
mudança de vida na história de alguém. Aqui Mateus está sentado e Jesus
passa, faz-lhe o convite, e ele se levanta. O cego de Jericó está
sentado e ao ouvir Jesus passando, ele se levanta. No Evangelho de hoje
Jesus passa e muda a vida de alguém que está sentado. No episódio do
cego de Jericó, Jesus passa e muda a vida daquele cego que está sentado.
O paralítico levado até Jesus ouve dEle: “levanta-te”, e ele, em pé,
fica curado. Seriam meras posições físicas, coincidências, ou seria
mesmo uma mensagem, apontando um tipo de vida, um estilo de vida, uma
história de vida, que se representa na posição sentada, e outra história
que se representa na posição em pé? Eu acredito que não seja
coincidência. O que está sentado aguarda os outros virem até ele... o
que está em pé vai ao encontro de outras pessoas. O que está sentado
fica num local só; o que está em pé, tramita por vários locais. O que
está sentado indica uma posição de comodidade, parado, imóvel, sem
necessidade de mudança. O que está sem
pé está em movimento,
mudando sua posição geográfica constantemente. A proposta do Reino, o
convite de Jesus, não é para fazer as pessoas se sentarem, mas é para os
sentados se levantarem... E tem gente que imagina uma religião da
comidade, uma espiritualidade que lhe dê sossego, um Evangelho que lhe
dê segurança, tranquilidade, prosperidade, bem estar, etc.., ou seja, é
uma leitura, uma interpretação, totalmente adversa do que aponta a
Palavra. A Palavra não faz ninguém sentar-se, nem permanecer sentado;
mas é para os sentados se levantarem. Como fez Irmã Dulce, Gandhi, Dom
Luciano, e tantos outros que nunca ficaram sentados esperando outros
virem até ele, mas em pé, fizeram a história de vida que se nos
apresenta hoje como exemplo. A oração, a espiritualidade, não é para
deixar as pessoas cômodas (como imaginam algns), mas é para nos
levantar. Frei Betto disse que tem gente que não vai para a oração por
medo de perceber as mudanças que tem que serem feitas e, não querendo
fazer mudanças, então não param para rezar. De fato, quem quer sentar-se
ou permanecer sentado, não deve procurar a vida de oração (ao menos a
vida correta de oração), nem mesmo a espiritualidade (a espiritualidade
correta), pois pode ser que o sossego lhe seja tirado. Alguém poderia
perguntar: então não vale a pensa a espiritualidade, a oração... vale a
pena ficar sentado. Seria a mesma coisa que imaginar um barco que fica
somente no porto, para não correr risco. Um avião que jamais decolou,
por medo de cair. Um carro que nunca andou, para evitar acidente.
Realmente, podemos permanecer a vida toda sentado, e ao chegar ao final
dela, não ter resposta para a seguinte pergunta “de que valeu a minha
vida?” Não ter resposta para outra pergunta “quantas pessoas melhoraram
de vida porque eu existi?”. Ou ainda tem gente que se ilude, achando que
ao chegar ao final da vida lhe trará conforto ao coração a resposta que
“sentado, enriqueci-me... sentado, acumulei... sentado, todos vieram me
servir...”. Bela história esta! Pena que não é um legado a ser deixado,
nem uma mensagem a constar no epitáfio “eis aqui um sentado que nunca
se levantou, um barco que nunca navegou, uma vida que nunca desabrochou –
eis aqui uma pessoa pessoa que nunca foi o que podia ter sido”.
Independente
se é Mateus que está sentado ou o cego na beira do caminho, hoje Jesus
também passa e faz o mesmo convite a todos nós, e peço a Deus que a
“classe média que anda sentada” não me iluda e que eu tenha coragem de
levantar-me, que eu tenha coragem de ter minha oração diária, minha
espiritualidade, para eu levantar-me, e, em pé, servir, amar e construir
o Reino – Amém!
13 de setembro de 2015
Deus Humano que precisa ouvir de mim que Ele faz parte da minha vida
Evangelho
(Mc 8,27ss): Jesus e seus discípulos partiram para os povoados de
Cesaréia de Filipe. No caminho, ele perguntou aos discípulos: «Quem
dizem as pessoas que eu sou?». Eles responderam: «Uns dizem João
Batista; outros, Elias; outros ainda, um dos profetas». Jesus, então,
perguntou: «E vós, quem dizeis que eu sou?». Pedro respondeu: «Tu és o
Cristo».
A leitura do Evangelho nos ressoa
internamente a partir de como eu estou, das minhas disposições
interiores, dos meus conceitos pré-concebidos, etc.. Desta forma, se na
nossa catequese sempre ouvimos falar de um Deus austero e um Jesus
sério, que raramente ou nunca deu uma sorriso, certamente este trecho do
evangelho será lido como uma narrativa seca e até mesmo de cobrança por
parte de Jesus para com seus apóstolos. No entanto, se eu mudar meu
conceito anterior, e imaginar que Deus é um Pai extremamente apaixonado
por mim e que Jesus veio até nós para nos provar este amor, para
diminuir toda e qualquer barreira, para olhar nos meus olhos e dizer-me:
“acredite, eu Te amo”, então este trecho do evangelho pode ter outra
conotação. Jesus um dia disse aos seus amigos próximos: “vamos para um
lugar deserto, comigo, descansar”. É um convite a intimidade com Ele,
partindo dEle o desejo. Agora, parece que Jesus também caminha numa
intimidade com os apóstolos, e no meio do caminho, longe da multidão,
sem plateia, parece que Jesus dá mais uma prova de sua plena humanidade.
Todo ser humano apaixonado por outra pessoa, quer saber qual o grau de
importância que a outra pessoa lhe dá. E mesmo que este grau de
importância seja pequeno, raramente muda o seu comportamento em relação
ao outro devido a resposta. A pergunta “o que eu significo para você” é
para por um desejo humano de saber do outro(a) que “eu faço parte da
vida dele(a)”. É um sentimento humano, natural e comum a todos. E
Jesus
olha para os apóstolos, seus amigos mais próximos e lhes pergunta “o
que eu significo para vocês?”. Dentro de uma hierarquia emocional, em
que lugar eu me encontro dentro de você? Volto a pensar que, a depender
da catequese que tivemos, pode ser que na nossa cabeça Deus exista numa
certa distância, e eu deva, com esforço, tentar me aproximar dEle o mais
possível, sabendo que sempre existirá uma distância instransponível. Se
for esta a nossa catequese, então é importante alterar este conceito, e
mudar por outro, e retirar da idéia de um Deus distante, mas sim de um
Deus que se aproxima sempre, que me busca, que é o pastor que vai atrás
da ovelha, o Pai que espera o filho na estrada e corre ao filho quando o
vê, para abraça-lo e beija-lo... um Deus que, apesar de me conhecer
internamente, deseja ouvir de mim, da minha boca, com minhas palavras,
que Ele é significativo para mim, que Ele ocupa um lugar dentro da minha
vida, que eu O aceito que Ele faça parte da minha história, da minha
caminhada. “Eis que estou a porta e bato... se você abrir, é Meu desejo
entrar”. Parece loucura, mas Deus humano em Jesus, plenamente humano, é
aquele que pediu água paa samaritana... e hoje me pede uma consideração
por Ele... Fica difícil saber aqui, dentro deste contexto, quem precisa
de quem... Sempre aprendi que era eu que necessitava dEle, e agora
parece que é Ele que necessita de mim. Não dá, na verdade, para dizer
quem necessita mais do outro; mas dá para afirmar que ambos carecem de
um abraço, um trocar de olhares, uma frase “você é importante para mim”.
Ambos... Talvez hoje seja o dia de contemplarmos uma caminhada minha,
numa estrada, como os discípulos de Emaús, e Ele, comigo, na intimidade,
falar para mim “diga-Me que sou importante para Mim... isto é
importante para Mim...”. E percebermos que os papéis se inverteram... e
que cai da minha cabeça a idéia de Deus longe, distante, severo e
bravo... e que entre na minha mente e no meu coração, o verdadeiro Deus
Pai, Amor, Bondade, Misericórida, Acolhimento, e sobretudo – HUMANO!
12 de setembro de 2015
Construir casa sobre a rocha
Evangelho
(Lc 6,43-49): Naquele tempo, Jesus disse a seus discípulos: «Não existe
árvore boa que dê frutos ruins, nem árvore ruim que dê frutos bons.
Cada árvore se reconhece pelo seu fruto. Não se colhem figos de
espinheiros, nem uvas de urtigas. Quem é bom tira coisas boas do tesouro
do seu coração, que é bom; mas quem é mau tira coisas más do seu
tesouro, que é mau. Pois a boca fala daquilo de que o coração está
cheio. »Por que me chamais: Senhor! Senhor!, mas não fazeis o que vos
digo? Vou mostrar-vos com quem se parece todo aquele que vem a mim, ouve
as minhas palavras e as põe em prática. É semelhante a alguém que, para
construir uma casa, cavou fundo e firmou o alicerce sobre a rocha. Veio
a enchente, a correnteza atingiu a casa, mas não conseguiu derrubá-la,
porque estava bem construída. Aquele, porém, que ouve e não põe em
prática, é semelhante a alguém que construiu uma casa no chão, sem
alicerce. A correnteza atingiu a casa, e ela, imediatamente, desabou e
ficou totalmente destruída».
«Não existe árvore boa que
dê frutos ruins, nem árvore ruim que dê frutos bons. Cada árvore se
reconhece pelo seu fruto. Não se colhem figos de espinheiros, nem uvas
de urtigas.
Parece uma comparação lógica, mas Jesus com esta
parábola deixa claro uma coisa: se o ser humano não mudar seu interior,
não tiver dentro de si a clareza do que quer, pensa, sonha e deseja,
mesmo que seus frutos possam ser aparentemente bons, não serão os
melhores frutos a serem produzidos. Do contrário, quando o ser humano
tem dentro de si uma bússola que o guia para uma direção que seja da
justiça, do amor, do bem comum, enfim, do Reino, seus frutos serão de
boa qualidade. A boca fala do que está cheio o coração; poderíamos
dizer: as ações externas do ser humano são frutos da sua construção
interna. Construção interna frágil, comportamento frágil; construção
interna forte, comportamento sólido. Daí que emenda com o final do
evangelho, comparando com quem constrói casa sobre rocha e casa sobre
areia. Ambas as casas sofrem com as enchentes e tempestade (e isto
precisa ficar claro). No entanto, a que tem fundamento sólido passa
pelas tempestades, sofrendo, mas sem desabar. A outra desaba. Quando eu
falo
que precisa ficar claro que ambas sofrem as enchentes e
tempestades, é porque surgiu uma religiosidade hoje que dá a entender
que quem tem fé e práticas religiosas “é protegido” por Deus, “nada de
mal acontece”. Não é isto que está escrito! Jesus deixa claro que ambas
as casas sofrem intempéries. A diferença é que uma tem fundamento sólido
e a outra não. Portanto, o que difere o cristão do não cristão, não é
que o primeiro é preservado dos perigos e males; não! O que difere é a
forma, o modo, o comportamento, a reação que o cristão tem diante das
coisas e dos fatos da vida. Mas ambos (cristãos e não cristãos) sofrem
tempestades. Isto tem que ficar claro pois, num eventual entendimento
equivocado, certamente levará a pessoa, cedo ou tarde, a uma frustração
que a abalará por muito tempo. É comum ouvirmos “como isto foi acontecer
comigo, justo comigo, que faço o bem, trabalho na igreja, etc..”. É
falta de compreensão do Evangelho ou catequese equivocada! E haja
pregações induzindo a isto! Sei que estas pregações dá audiência e
público, mas não são verdadeiras... E Jesus já disse: “conhecereis a
verdade, e a verdade vos libertará! Caminhar na mentira, na ilusão, no
erro, levará a uma desilusão, cedo ou tarde.
Que Deus me
dê a graça da sabedoria para edificar meu interior, com oração,
meditação, parada, escuta de mim mesmo e do Pai, para que dentro de mim
seja construída a base das minhas ações, sabendo que isto não me
excluirá de sofrimentos, perdas e dores, mas que me conduzirá a melhor
prática humana de construção da vida – Amém!
30 de agosto de 2015
Hoje partilho a chave de leitura que recebo mensalmente do Pe.Thomas.
Este povo me honra com os lábios
Evangelho
(Mc 7,1-8.14-15.21-23): Os fariseus e alguns escribas vindos de
Jerusalém ajuntaram-se em torno de Jesus. Eles perceberam que alguns dos
seus discípulos comiam com as mãos impuras, isto é, sem lavá-las. Ora,
os fariseus e os judeus em geral, apegados à tradição dos antigos, não
comem sem terem lavado as mãos até o cotovelo. Bem assim, chegando da
praça, eles não comem nada sem a lavação ritual. E seguem ainda outros
costumes que receberam por tradição: a maneira certa de lavar copos,
jarras, vasilhas de metal, camas. Os fariseus e os escribas perguntaram a
Jesus: «Por que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos,
mas tomam a refeição com as mãos impuras?». Ele disse: «O profeta Isaías
bem profetizou a vosso respeito, hipócritas, como está escrito: 'Este
povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. É
inútil o culto que me prestam, as doutrinas que ensinam não passam de
preceitos humanos'. Vós abandonais o mandamento de Deus e vos apegais à
tradição humana». Chamando outra vez a multidão, dizia: «Escutai-me,
vós todos, e compreendei!. Nada que, de fora, entra na pessoa pode
torná-la impura. O que sai da pessoa é que a torna impura. Pois é de
dentro, do coração humano, que saem as más intenções: imoralidade
sexual, roubos, homicídios, adultérios, ambições desmedidas,
perversidades, fraude, devassidão, inveja, calúnia, orgulho e
insensatez. Todas essas coisas saem de dentro, e são elas que tornam
alguém impuro».
Mc 7, 1-8.14-15.21-23 - Este povo me honra com os lábios, mas o coração deles está longe de mim”
Para que entendamos o alcance do nosso Evangelho de hoje, é necessário
entender o contexto religioso do tempo de Jesus. Entre os elementos
chaves na prática religiosa do judaísmo daquela época, estavam os
conceitos de “puro” e “impuro”. Na nossa teologia, não é possível
cometer um pecado inconscientemente, mas, para o povo do tempo de Jesus,
o pecado tinha uma existência quase independente das pessoas. Certos
atos, certos lugares, certas profissões tornavam as pessoas impuras,
isso é, não aptas para participar do culto, sem primeiro passar pelos
ritos de purificação. A seita dos Essênios levava a preocupação com a
pureza ritual aos extremos. Também os fariseus - cujo nome vem de uma
palavra que significa “separados” - davam suma importância à pureza
ritual, assim, muitas vezes, impossibilitando o acesso do povo comum ao
culto ao Deus da vida.
Diante dessa situação, a prática de Jesus
era altamente libertadora. Sem recusar-se a participar nos ritos
tradicionais, pois era judeu piedoso e praticante, Ele entendeu que nada
que vem de fora da pessoa é capaz de deixá-la impura! Jesus recuperava a
visão dos profetas, que tradicionalmente tinham conclamado o povo para
que vivesse a justiça e a prática da vontade de Deus, em lugar de se
preocupar primariamente com rituais externos. Jesus reintegrava as
massas pobres, excluídas da vivência comunitária pelas exigências de
pureza, impossíveis de serem seguidas na prática pela maioria. Ele
voltava a atenção às disposições internas das pessoas, que realmente
podiam deixar as pessoas “impuras” diante de Deus: “as más intenções, a
imoralidade, os roubos, crimes, adultérios, ambições sem limite,
maldade, malícia, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo”
(v. 21-22).
Assim Jesus recupera o ensinamento de profetas como o
Terceiro Isaías (Is 56-66), que diante das injustiças cometidas por
pessoas que viviam na pureza ritual enquanto oprimiam os seus irmãos e
ainda esperavam a proteção de Deus, denunciava: “O jejum que eu quero é
este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr
em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida
com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir
aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente” (Is 58,
6-7).
É um desafio hoje examinarmos a realidade de nossa prática
religiosa. Sem negar a importância e o papel de celebrações, ritos,
rituais e devoções, o nosso texto exige de nós seguidores de Jesus um
sério exame
de consciência, para que verifiquemos se a nossa
prática religiosa não está frequentemente semelhante à dos fariseus -
perfeita nas expressões externas, mas vazia por dentro - ou se é como
aquela que os profetas e Jesus propõem, uma religião de prática de
solidariedade e justiça, brotando da fé, e coerente com a nossa fé no
Deus da vida, onde os ritos têm o seu lugar, mas como expressão de um
verdadeiro compromisso com o Reino de Deus. Que não se torne realidade
nossa a denúncia de Jesus diante do legalismo farisaico: “este povo me
honra com os lábios, mas o coração deles está longe de mim” (v. 6).
Pe. Tomaz Hughes SVD e-mail : thughes@netpar.com.br
Nós também prendemos e acorrentamos João Batista
29 de agosto de 2015
Evangelho
(Mc 6,17-29): Naquele tempo, Herodes tinha mandado prender João e
acorrentá-lo na prisão, por causa de Herodíades, mulher de seu irmão
Filipe, com a qual ele se tinha casado. Pois João vivia dizendo a
Herodes: «Não te é permitido ter a mulher do teu irmão». Por isso,
Herodíades lhe tinha ódio e queria matá-lo, mas não conseguia, pois
Herodes temia João, sabendo que era um homem justo e santo, e até lhe
dava proteção. Ele gostava muito de ouvi-lo, mas ficava desconcertado.
Finalmente, chegou o dia oportuno. Por ocasião de seu aniversário,
Herodes ofereceu uma festa para os proeminentes da corte, os chefes
militares e os grandes da Galiléia. A filha de Herodíades entrou e
dançou, agradando a Herodes e a seus convidados. O rei, então, disse à
moça: «Pede-me o que quiseres, e eu te darei». E fez até um juramento:
«Eu te darei qualquer coisa que me pedires, ainda que seja a metade do
meu reino». Ela saiu e perguntou à mãe: «Que devo pedir?». A mãe
respondeu: «A cabeça de João Batista». Voltando depressa para junto do
rei, a moça pediu: «Quero que me dês agora, num prato, a cabeça de João
Batista». O rei ficou muito triste, mas, por causa do juramento e dos
convidados, não quis faltar com a palavra. Imediatamente, mandou um
carrasco cortar e trazer a cabeça de João. O carrasco foi e, lá na
prisão, cortou-lhe a cabeça, trouxe-a num prato e deu à moça. E ela a
entregou à sua mãe. Quando os discípulos de João ficaram sabendo, vieram
e pegaram o corpo dele e o puseram numa sepultura.
Naquele
tempo, Herodes tinha mandado prender João e acorrentá-lo na prisão, por
causa de Herodíades, mulher de seu irmão Filipe, com a qual ele se
tinha casado. Pois João vivia dizendo a Herodes: «Não te é permitido ter
a mulher do teu irmão». Por isso, Herodíades lhe tinha ódio e queria
matá-lo, mas não conseguia, pois Herodes temia João, sabendo que era um
homem justo e santo, e até lhe dava proteção. Ele gostava muito de
ouvi-lo, mas ficava desconcertado.
Embora tenhamos várias
passagens bíblicas que são figurativas, ou seja, que narram uma coisa,
mas na verdade querem dizer outra, baseada naquela história, este trecho
do Evangelho creio que não tenha tido esta intenção: ou seja, foi
escrito para tentar narrar um fato. No entanto, vou imaginar que não é
uma cena narrativa, mas sim simbólica. E, neste simbolismo, posso
imaginar que João Batista não é uma pessoa, mas a voz
da
consciência de Herodes, o “anjo bom”, como diria Santo Inácio, onde fala
a verdade, orienta, indica, aponta caminhos, etc.. E este “anjo bom”
fala para Herodes que o que ele está fazendo não deve, não é lícito, não
faz bem. E o que Herodes faz? Herodes o prende na prisão e ainda o
acorrenta. Não é excesso de zelo? Além de colocar na prisão, ainda
acorrenta? Mas, talvez a gente faça assim quando a voz da boa
consciência nos aponta algo que devemos mudar, alterar, modificar ou
fazer ou deixar de fazer. E, não querendo ouvir esta voz, queremos
prendê-la e acorrenta-la, como se isto fosse possível, como se isto
apagasse dos meus ouvidos internos e interiores o que ela quer me dizer.
E, interessante: Herodes reconhece que a voz que lhe soa aos
ouvidos é uma voz correta, ao afirmar “sabia que era justo e gostava de
ouvi-lo”. Mas, ao mesmo tempo, confessa: “porém, ficava desconcertado ao
ouvi-lo”. Ora, e não é isto o que fazemos? Pode até ser que gostemos de
parar, rezar, meditar, contemplar, etc.. Mas, ao ouvir a voz interior
que me aponta caminho diferente do que estou fazendo ou pensando em
fazer, ficamos desconcertados, e divididos entre o que apontamos como
caminho e o que a nossa voz interior nos diz.
O resultado para
Herodes foi trágico: mandou matar João, cortando a cabeça, exatamente
tirando por onde saía as palavras – arrancar a cabeça de João é arrancar
sua boa, para não falar mais o que eu não quero ouvir. E, precisamos
tomar cuidado para não fazermos o mesmo: cortar a cabeça, a boca da
nossa voz interior, deixar de ouvi-la, para fazer o que achamos que
devemos fazer.
Frei Beto numa de suas palestras sobre oração
disse o seguinte: muita gente não vai para a oração, pois a oração,
quando bem feita, me diz as mudanças que preciso fazer... e, indisposto a
mudar alguma coisa, opto por não rezar... E ele tem razão... E optar
por não rezar é o mesmo que prender João na prisão e acorrenta-lo e
arrancar-lhe sua cabeça. Com certeza, na cena de Herodes, ao ver a
cabeça de João Batista na bandeja, na cabeça dele (e também no coração)
lhe veio claro que o que ele fez não condiz com a justiça, a verdade, o
melhor. No entanto, da mesma forma que Herodes preferiu agradar a filha
de Herodíades e a própria Herodíades e fez o que tinha certeza que não
deveria fazer, talvez também nós, seres humanos, façamos coisas que,
sabemos que não devem ser feitas, mas para agradar certos gostos, certos
desejos, fazemos... Desta forma, quantos de nós (se não nós mesmos) por
causa de um certo valor ou posição de poder, ou outra
coisa
qualquer, abrimos mão de fazer o correto, e, em nome de um “dito
projeto” agimos e fazemos o que não devemos e nem poderíamos fazer.
Prendemos João Batista na prisão e o acorrentamos. Prendemos nossa voz
interior do bem, deixamos de ouvir-nos na profundidade, largamos a
oração diária, abandonamos as boas leituras que poderíamos nos guiar...
acorrentamos João Batista... eu só espero que não tenhamos ainda
arrancado sua cabeça, para que, libertando João Batista (nossa voz
interior) da prisão, possamos ouvi-la novamente... parando, meditando,
rezando, contemplando, e também ouvindo amigos e as vozes que Deus
coloca de forma sábia a nos guiar... e assim, vivendo e agindo no mundo,
com uma bússola interior, que nos guia ao norte que nos conduz ao Pai,
ao amor e a fraternidade e a realização pessoal. Caso contrário,
estaremos servindo ao mundo, nas bandejas da hipocrisia e das mentiras, a
cabeça de João Batista, num sucesso aparente, como ocorreu com Herodes –
sucesso aparente, mas derrota interior que liquidou sua consciência...
João Batista está pronto a nos falar... mas nem sempre pronto a nos
contentar com o que nos fala; a decisão é nossa: ouvi-lo e seguir o que
ouvimos, ou, apesar de ouvi-lo, prendê-lo e acorrenta-lo... como se
pudéssemos prender e acorrentar... Mas, tanta gente vive de
aparências... uma a mais será sempre e apenas uma a mais – Amém!
Que
o Pai me dê coragem de ouvir a voz interior do bem, e que não caia na
tentação de prende-la e acorrenta-la, pois por mais desconcertante que
possa ser, sempre será a bússola interior a me conduzir... e barco sem
bússola, é vida sem rumo – Amém!
Somos todos convidados para festas
20 de agosto de 2015
Evangelho
(Mt 22,1ss): Naquele tempo, Jesus voltou a falar em parábolas aos sumos
sacerdotes e aos anciãos do povo, dizendo: «O Reino dos Céus é como um
rei que preparou a festa de casamento do seu filho. Mandou seus servos
chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram vir. Mandou
então outros servos, com esta ordem: ‘Dizei aos convidados: já preparei o
banquete, os bois e os animais cevados já foram abatidos e tudo está
pronto. Vinde para a festa!’. Mas os convidados não deram a menor
atenção: um foi para seu campo, outro para seus negócios, outros
agarraram os servos, bateram neles e os mataram.
Mandou seus
servos chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram vir.
Mandou então outros servos, com esta ordem: ‘Dizei aos convidados: já
preparei o banquete, os bois e os animais cevados já foram abatidos e
tudo está pronto. Vinde para a festa!’. Mas os convidados não deram a
menor atenção: um foi para seu campo, outro para seus negócios, outros
agarraram os servos, bateram neles e os mataram.
Não quiseram vir para festa...
Primeiro
o registro que o Reino de Deus é comparado a festa. E, que eu saiba,
festa é lugar de fartura, comida e bebida a vontade, sem preocupação
“com a conta”. Um alusão bonita do Reino, pois muitas vezes vem em nossa
cabeça que o Reino é lugar de sacrifício, exigências pessoais
intermináveis, código de conduta moral oposto à nossos sentimentos de
alegria e prazer. Uma religião assim não é a religião de Jesus que
compara Reino com festa.
Outro dado aqui: “os convidados não
quiseram vir...” Interessante “não quiseram”, ou seja, de livre e
espontânea vontade disseram “não, eu não quero...” Mais na frente o
texto dirá “quiseram tratar dos seus negócios... outros foram para seus
campos e outros resolveram matar os servos que trouxeram o convite”. O
Reino é uma proposta livre, mas, de fato, cuidar dos negócios, dos
campos, pode ser mais interessante, mais atrativo num primeiro momento.
E, desta forma, mata-se a possibilidade de uma vida plena, com sentido,
uma vida onde a alegria do Reino se faça presente. Preferível uma vida
de tristeza, preferível uma vida austera, preferível uma vida de valores
impostos pela Globo ou outra fonte poluída qualquer... A decisão é
livre e individual. Cada um faz opção que deseja. O que não se pode é
depois negar a existência da festa. Como numa música “Castelos no ar”,
se diz: “sim, a vida é assim, os sonhos se acabam antes ou depois... uma
outra é a verdade, vamos enfrenta-la todos nós... não se pode ficar de
olhos fechados... depois gritar a todos que o sol não existe...”. Há
necessidade de abrirmos nossos olhos o quanto antes, caso contrário, não
enxergamos as festas que Deus nos propõe diariamente. Sem oração, sem
paradas, sem percepção interior de si próprio, a festa passa... e não
participamos dela... e, ao final, ao olharmos nossa vida passada,
teremos a desilusão que os negócios que tiveram nossa atenção, os campos
que receberam meu tempo, não compensam a atenção que deixei de dar aos
filhos, demais familiares, aos amigos, a mim mesmo, etc..... a festa
passou... e eu, embora convidado, não adentrei nela... fiquei nos meus
negócios que se passaram... agora outros tocarão meus negócios, e eu não
participei da festa... a vida consiste na descoberta das festas que
Deus vive promovendo para eu participar... a decisão é livre, pessoal e
intransferível... Talvez as festas estejam em coisas pequenas... que
passam sem a nossa percepção, devido nossa pressa... nossa dificuldade
de paradas...
Com certeza, a oração pessoal, a espiritualidade,
consiste em identificar todas as festas que Deus nos promove e delas
participar... A vida foi feita para ser festa... Os sistemas econômicos,
políticos (e alguns religiosos também) nos apresentam uma sociedade em
que festejar é pecado... um mundo de crises, dificuldades, apertos,
carências, desesperança... Não nos
iludamos: a festa é já... não é
para depois... Se não soubermos olhar nossa vida e o mundo pelos olhos
de Deus, com certeza, as festas passarão...
Pai, que eu seja atento à todas as festas que o Senhor me propõe e que eu delas participe – amém!
Deixai vir a mim as criancinhas
17 de agosto de 2015
Na
Missa de sábado que eu fui, o Evangelho que foi lido é aquele em que os
apóstolos querem impedir as crianças de chegarem até Jesus e Jesus
“desobstrui” o caminho e afaga cada criança, uma por uma, abençoando-as e
depois despedindo-as.
Na minha cabeça ontem veio um
pensamento/moção que os apóstolos agem de forma coerente e racional, e
talvez nós fizéssemos o mesmo.
Suponho que Jesus já tinha falado
que Ele seria preso, perseguido e morto. O que colocaria na cabeça de
cada um que o tempo é escasso para fazer o que tem que ser feito. O
inimigo (ou os inimigos) se armam contra nós e nós temos que ir a muitos
lugares ainda, pregar muito, falar muito, anunciar muito, curar muito,
etc., e o tempo é curto, é pouco.
Crianças vindo na direção de
Jesus para fazer o que? Qualquer coisa que seja feita com as crianças
não ajudam no projeto. Elas não tem poder de fogo para combater o
inimigo e nem recursos financeiros para subsidiar a missão. Portanto,
entraves. Mesmo pensando na dignidade que elas possuem, na verdade, não
contribuem para o momento presente. O tempo é curto.
E daí Jesus dá uma lição que não podemos esquecer: “deixe as crianças virem a mim...”
Nem
vou citar o resto da frase (pois o Reino é delas). Ficando apenas no
início da frase, Jesus desmonta a lógica humana da eficiência,
produtividade, lucratividade do projeto, conquista de resultados, etc.,
tudo indicadores que hoje se busca com a organização social, política e
econômica da sociedade.
Aliás, pensando apenas em indicadores
sociais, políticos e econômicos da sociedade, é que se baseiam leis que
diminuem os salários dos trabalhadores quando estes se aposentam –
afinal, o que os aposentados podem fazer pela Pátria?
Leis que diminuem a maioridade penal; afinal, o que adolescentes desvirtuados podem colaborar com a Pátria?
Leis
que não dão acesso aos pobres de todos os seus direitos (saúde, escola,
etc.); afinal, o que os pobres tem a colaborar com a Pátria?
Ao
falar Pátria, entende-se aqui a economia da sociedade; os números da
balança comercial, o superávit primário, como está em moda hoje falar...
A lógica colocada pelos apóstolos é trocada por outra lógica de Jesus.
E
Jesus também tem aquele trecho onde invertendo a lógica econômica,
sacrifica dois mil porcos para salvar dois homens... e o resultado é que
Ele é convidado a retirar-se do local...
Jesus inverte lógica...
rehierarquiza os valores... coloca o ser humano sempre em primeiro
lugar; seja idoso, doente ou criança... onde há um coração humano
batendo, aí estará a prioridade de Jesus, a prioridade do Reino.
Para
saber se estamos sendo cristãos, basta olhar quais são nossas
prioridades. Se são os números econômicos/políticos, certamente a
resposta á nossa pergunta é “não”. Se a prioridade são os seres humanos,
sobretudo os fracos, indefesos, etc., então é um sinal que estamos no
caminho do Reino.
Quantos cristãos não criticam o gasto social
que se tem com presos e, consequentemente, defendem a pena de morte...
Nesta lógica está correta: matemos o criminoso, para melhorar os números
da economia do país. Na lógica de Jesus, os números que interessam é o
número de pessoas que são resgatadas pela vida e pelo amor – deixai vir a
mim as criancinhas, disse Jesus naquela época... hoje poderia dizer, as
criancinhas, os aidéticos, os presos, as prostitutas, os pobres, os
analfabetos, os doentes terminais que gastam dinheiro do SUS, os
esfomeados, os que pedem esmolas nas esquinas e enfeiam a nossa cidade,
os drogados, bêbados e outros tantos rejeitados... deixai-os vir a
Mim... Nós cristãos não só não abrimos os braços para acolher os que
Jesus quer acolher, como fazemos como os apóstolos: ainda queremos
impedir que cheguem ao verdadeiro Jesus.
Que mudemos nossa
mentalidade, nossa hierarquia interna, para que, sem desprezar as coisas
do mundo tão importantes, coloquemos o ser humano acima de quaisquer
coisas, por mais importantes que possam parecer.
Talvez este
seja um grande sinal do cristão: “perder tempo” com o que não é
lucrativo sob algum aspecto (econômico, social ou político).
Amém!
08 de agosto de 2015
Meus amigos, como o Evangelho de hoje fala de "fé", partilho reflexão do Frei Betto a respeito.
O que é ter fé – Frei Betto
Evangelho (Mt 17,14-20): Naquele tempo, alguém aproximou-se de Jesus,
caiu de joelhos e disse: «Senhor, tem compaixão do meu filho. Ele tem
crises de epilepsia e passa mal. Muitas vezes cai no fogo ou na água.
Levei-o aos teus discípulos, mas eles não conseguiram curá-lo!». Jesus
tomou a palavra: «Ó geração sem fé e perversa! Até quando vou ficar
convosco? Até quando vou suportar-vos? Trazei aqui o menino». Então
Jesus repreendeu o demônio, e este saiu do menino, que ficou curado a
partir dessa hora. Então, os discípulos aproximaram-se de Jesus e lhe
perguntaram em particular: «Por que nós não conseguimos expulsar o
demônio?». Ele respondeu: «Por causa da fraqueza de vossa fé! Em verdade
vos digo: se tiverdes fé do tamanho de um grão de mostarda, direis a
esta montanha: 'Vai daqui para lá', e ela irá. Nada vos será
impossível».
O que é ter fé: reflexão feita por Frei Betto
Criado: 03 Agosto 2015
Todos
conhecemos pessoas que frequentam a igreja e, no entanto, se comportam
de modo contrário aos valores evangélicos: tratam subalternos com
desrespeito; sonegam direitos de empregados; discriminam por razões
raciais ou sexuais. Pessoas que enchem a boca de Deus e trazem o coração
entupido de ira, inveja, soberba; são indiferentes aos direitos dos
pobres; omitem-se em situações graves que lhes exigem solidariedade.
E
temos à nossa volta, no círculo de amizades, pessoas ateias ou
agnósticas que, em suas atitudes, fazem transparecer tudo o que o
Evangelho acentua como valores: amor ao próximo, justiça aos excluídos,
solidariedade aos necessitados, etc.
O Catecismo da
Igreja Católica, aprovado por João Paulo II, em 1992, e elaborado sob a
supervisão do téologo Ratzinger, futuro papa
Bento XVI, define a
fé como “adesão pessoal do homem a Deus”. E acrescenta que é “o
assentimento livre de toda a verdade que Deus revelou.” E a portadora
dessa verdade é a Igreja.
Assim, só teria verdadeira fé
cristã quem submete seu entendimento ao que ensina a autoridade
eclesiástica (papa, bispos e pastores).
Devido a essa
maneira de entender a fé, o que se crê se tornou mais importante do que
como se vive. Criou-se uma ruptura entre fé e vida. A ponto de uma
pesquisa na França, ao indagar a diferença entre um empresário sem
religião e outro cristão, teve como resposta da maioria um detalhe: o
segundo vai à missa de vez em quando. No resto, em nada diferem...
Para
Jesus, quem tinha fé? A resposta é desconcertante. Em Mateus 8,10,
Jesus declara que o homem com mais fé que até então havia encontrado era
um oficial romano, um centurião.
Ora, como Jesus pôde
elogiar a fé de um oficial pagão? O episódio demonstra que, para Jesus, a
fé não consiste, em primeiro lugar, naquilo que se crê, e sim no modo
de proceder. Aquele pagão era um homem solidário, preocupado com o
sofrimento de um servo.
A mesma atitude de Jesus se
repete no caso da mulher cananeia, que também era pagã. A mulher pede a
Jesus que lhe cure a filha. Diante dela, Jesus reconhece: “Mulher,
grande é a sua fé!” (Mateus 15,28). Grande, não por causa da crença da
mulher, e sim por seu procedimento amoroso.
O mesmo
ocorre no caso do samaritano hanseniano, curado em companhia de nove
judeus (Lucas 17,11-19). Os judeus, segundo suas crenças religiosas, se
apresentaram aos sacerdotes, como recomendou Jesus. Já o samaritano, que
não obedecia às prescrições das autoridades religiosas e não se sentia
obrigado a submeter-se a elas, retornou para agradecer a Jesus, que lhe
exaltou a fé: “A sua fé o salvou” (Lucas 17,19).
Para
Jesus, portanto, a fé, antes de se vincular a um catálogo de crenças, a
uma doutrina, se relaciona a um modo de viver e agir. Jesus, por vezes,
duvidou da fé de quem estava mais próximo dele (Marcos 4,40). Discípulos
e apóstolos foram considerados “homens de pouca fé” (Mateus 8,26).
Jesus
fez a desconcertante afirmação de que prostitutas e cobradores de
impostos terão precedência no Reino de Deus, e não os “exemplares”
sacerdotes (Mateus 21,31).
Isso deixa claro quem Jesus
reconhecia como crente. Não propriamente quem aceita o que prega a
religião, e sim quem age por amor, solidariedade e justiça. Ter fé é,
sobretudo, viver de acordo com os valores segundo os quais vivia Jesus.
A
Igreja está em crise. Suas autoridades culpam o laicismo, o
relativismo, o hedonismo. Ora, será que as autoridades religiosas, e
nós, frades, freiras, padres e pastores, não temos culpa nisso, por
apresentar a fé cristã como verdades cristalizadas em doutrina, e não
expressada em vivência?
Artigo publicado originalmente em O Globo
Deus nos chama ao amor, e não ao sacrifício
07 de agosto de 2015
Evangelho
(Mt 16,24-28): Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: «Se alguém
quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Pois
quem quiser salvar sua vida a perderá; e quem perder sua vida por causa
de mim a encontrará. De fato, que adianta a alguém ganhar o mundo
inteiro, se perde a própria vida? Ou que poderá alguém dar em troca da
própria vida? Pois o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os
seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta. Em
verdade, vos digo: alguns dos que estão aqui não provarão a morte sem
antes terem visto o Filho do Homem vindo com o seu Reino».
Comentário: Rev. D. Pedro IGLESIAS Martínez (Rubí, Barcelona, Espanha)
«Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me»
Hoje,
o Evangelho nos coloca claramente diante do mundo. É radical na sua
abordagem, não admitindo ambigüidades: «Se alguém quer vir após mim,
renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me» (Mt 16,24). Em numerosas
ocasiões, perante o sofrimento causado por nós mesmos ou pelos outros
ouvimos: «Devemos suportar a cruz que Deus nos manda...Deus quis que
fosse assim...», e vamos acumulando sacrifícios como cupons em uma
cartela, que apresentaremos à auditoria celestial no dia que tivermos
que prestar contas. O sofrimento não tem valor algum em si mesmo.
Cristo
não era um estóico: sentia sede, fome, cansaço, não gostava de ser
deixado só, se deixava ajudar... Onde podia aliviava a dor, física e
moral. Que acontece então? Antes de carregarmos a nossa “cruz”,
primeiramente devemos seguir a Cristo. Não se sofre e depois se segue a
Cristo... Cristo se segue por
Amor, e é a partir daí que se
compreende o sacrifício, a negação pessoal: «Quem quiser salvar sua vida
a perderá; e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará» (Mt
16,25). É o amor e a misericórdia o que nos leva ao sacrifício. Todo
amor verdadeiro gera sacrifício de uma forma ou de outra, mas nem todo
sacrifício gera amor. Deus não é sacrifício; Deus é Amor, e só esta
perspectiva dá sentido à dor, ao cansaço e às cruzes de nossa existência
segundo o modelo de homem que o Pai nos revelou em Cristo. Santo
Agostinho afirmou: «Quando se ama não se sofre, e se sofre, ama-se o
sofrimento». No correr da nossa vida, não busquemos uma origem divina
para os sacrifícios e as penúrias: «Por que Deus me mandou isto?», mas
busquemos um “uso divino” para o que nos acontece: «Como posso fazer
disso, um ato de fé e de amor?». É assim que seguimos a Cristo e, como
—com certeza— seremos merecedores do olhar misericordioso do Pai. O
mesmo olhar com que contemplou o seu Filho na Cruz.
Somos chamados a caminhar sobre as águas e não a nos limitar-nos
04 de agosto de 2015
Evangelho
(Mt 14,22ss): Logo em seguida, Jesus mandou que os discípulos entrassem
no barco e fossem adiante dele para o outro lado do mar, enquanto ele
despediria as multidões. Depois de despedi-las, subiu à montanha, a sós,
para orar. Anoiteceu, e Jesus continuava lá, sozinho. O barco,
entretanto, já longe da terra, era atormentado pelas ondas, pois o vento
era contrário. Nas últimas horas da noite, Jesus veio até os
discípulos, andando sobre o mar. Quando os discípulos o viram andando
sobre o mar, ficaram apavorados e disseram: «É um fantasma». E gritaram
de medo. Mas Jesus logo lhes falou: «Coragem! Sou eu. Não tenhais
medo!». Então Pedro lhe disse: «Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu
encontro, caminhando sobre a água». Ele respondeu: «Vem!». Pedro desceu
do barco e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. Mas,
sentindo o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou:
«Senhor, salva-me!». Jesus logo estendeu a mão, segurou-o e lhe disse:
«Homem de pouca fé, por que duvidaste?». Assim que subiram no barco, o
vento cessou. Os que estavam no barco ajoelharam-se diante dele,
dizendo: «Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!».
Logo em
seguida, Jesus mandou que os discípulos entrassem no barco e fossem
adiante dele para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as
multidões.
Um líder normalmente é rodeado de “assessores” que
nem sempre o deixam ficar na intimidade com os demais. Parece que Jesus
quer também ficar numa conversa reservada com “multidões”, que são
pessoas inominadas, e eu acho que os apóstolos ficavam muito perto de
Jesus ouvindo e ainda dando palpites. Daí Jesus fala “pode ir indo,
vão...”. E Jesus fica só para estes, só para estas pessoas, sem a
interrupção e intromissão dos seus apóstolos.
Depois de despedi-las, subiu à montanha, a sós, para orar. Anoiteceu, e Jesus continuava lá, sozinho.
Um
líder também precisa ter seus momentos de intimidade consigo próprio.
Um tempo para si e um tempo para “ouvir-se”. E Jesus aproveita e assim o
faz agora. Fica a sós, após despedir as multidões.
O barco, entretanto, já longe da terra, era atormentado pelas ondas, pois o vento era contrário.
Barco
foi feito para andar nas águas. E aqui o detalhe: “já longe da terra”.
Ou seja, ao ficar longe do “porto seguro”, o barco fica atormentado, e
isto faz parte da vida do barco. Tem gente que quer que o barco nunca
fique atormentado, e o deixa sempre em terra. Nunca ficará atormentado,
mas nunca fará o que é sua essência vocacional. Cada um faz a sua opção.
Nas últimas horas da noite, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar.
Parece-me
uma linguagem figurativa, tendo em vista que naquela época se
considerava que os demônios habitavam o fundo do mar. Desta forma,
aparece alguém que os domina, pisando sobre eles, andando sobre eles. É a
força do bem vencendo a força do mal.
Quando os
discípulos o viram andando sobre o mar, ficaram apavorados e disseram:
«É um fantasma». E gritaram de medo. Mas Jesus logo lhes falou:
«Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!». Então Pedro lhe disse: «Senhor, se
és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água». Ele
respondeu: «Vem!». Pedro desceu do barco e começou a andar sobre a água,
em direção a Jesus. Mas, sentindo o vento, ficou com medo e, começando a
afundar, gritou: «Senhor, salva-me!». Jesus logo estendeu a mão,
segurou-o e lhe disse: «Homem de pouca fé, por que duvidaste?».
Jesus
diz à Pedro “venha”, e ele foi. É muita fé sair de um barco e ir
andando sobre as águas. Na verdade, dentro desta linguagem figurativa,
Pedro vai vencendo seus demônios, seus males – tanto os que estão
debaixo das águas (daí andar sobre as águas) quando os que estão dentro
dele (domínio de si). No entanto, num certo momento, a dúvida lhe
aparece, como aparece para todas as pessoas naturais e humanas: “será
que vou conseguir? Isto dará certo? Estou cansado... Já deu errado
outras vezes e agora dará errado também... Ninguém me acompanha.... E se
eu for enganado novamente?” Enfim, dúvidas humanas que ocorrem com
todos. E Pedro, que estava vencendo, passa a afundar, e Jesus lhe fala:
“por que duvidaste (de si mesmo)”? É uma frase que Jesus fala hoje para
nós: “estás afundando
porque? O que o fazes duvidar? O que te
desanimas? Os noticiários da TV/jornais? Os escândalos da Igreja ou da
sociedade? As traições dos dito amigos?” É um trecho que poderíamos
refletir mais: Jesus censura a limitação que Pedro coloca a si próprio e
todos que se limitam afundam, não conseguem vencer seus males.
Senhor,
que eu ande sobre as águas, ou seja, que eu caminhe por cima das
dificuldades, dos males, dos demônios (aqui tudo que é contra a
humanidade), e que eu não me limite – Amém!
Seja você o milagre
31 de julho de 2015
Evangelho
(Mt 13,54-58): Jesus foi para sua própria cidade e se pôs a ensinar na
sinagoga local, de modo que ficaram admirados. Diziam: «De onde lhe vêm
essa sabedoria e esses milagres? Não é ele o filho do carpinteiro? Sua
mãe não se chama Maria, e seus irmãos não são Tiago, José, Simão e
Judas? E suas irmãs não estão todas conosco? De onde, então, lhe vem
tudo isso?». E ele tornou-se para eles uma pedra de tropeço. Jesus,
porém, disse: «Um profeta só não é valorizado em sua própria cidade e na
sua própria casa!». E não fez ali muitos milagres, por causa da
incredulidade deles.
JESUS NÃO FEZ MUITOS MILAGRES ALI, POR CAUSA DA INCREDULIDADE DELES...
Interessante
esta frase – a ausência de fé das pessoas impedi a realização dos
milagres por parte de Jesus. Isto dá um sentido lógico às vezes
contrário ao que estamos acostumados a pensar: vamos atrás de Jesus para
obter os milagres... E aqui nos é relatada que Jesus não fez milagres,
porque não havia fé. Ou seja: o que provoca o milagre não é a ação de
Jesus, mas a fé das pessoas. E isto inverte totalmente um comportamento
humano dito cristão, pois muitos vão à Igreja e oram pedindo para que
Deus faça isto ou aquilo. Tem gente até que reza pedindo para que Deus
faça justiça. E, no entanto, o “milagre” só acontece à partir da fé de
cada um, ou seja, da vivência, da espiritualidade, da práxis de cada um.
Um ser humano pode viver a vida inteira fazendo milagres, tais como
amar, servir, praticar a justiça, denunciar a intolerância, por exemplo.
E, poderá também passar a vida inteira praticando o contrário e ainda
frequentando Igreja pedindo à Deus os milagres. “Seja você o milagre”,
disse o personagem “Deus” no filme “Todo Poderoso”. Neste trecho do
filme, “Deus” fala ao homem que lhe fora ter uma audiência: “todas as
vezes que você tira alguém do caminho da droga; uma mãe que acolhe o
filho da vizinha para ela ir trabalhar, etc., isto é um milagre... seja
você o milagre”. Outro dia escutei uma frase que diz: “milagre
não
é fazer coisas extraordinárias, mas milagre é fazer as coisas comuns de
forma extraordinária”. E fazer de forma extraordinária significa fazer
com sentido de vida, com profundidade, sem superficialidade, o que hoje é
tão presente na sociedade, sobretudo aos jovens, que estão cada vez
mais com imensa dificuldade de serem profundos em si mesmos. Não é a toa
que em Matheus 25 muitos ficam surpresos ao serem acolhidos por Jesus
por terem dado água a quem tem sede, pão a quem tem fome, justiça aos
oprimidos... eles faziam isto porque era sua essência de ação, e Jesus
os chama para próximo de Si dizendo “todas as vezes que fizestes isto ao
menor dos meus irmãos, foi a Mim que O fizestes”. Na verdade,
poderíamos interpretar que Jesus disse: “sua vida foi um milagre... um
milagre aos famintos, quando lhes destes comida... um milagre aos
encarcerados, quando os fostes visitar...” e assim sucessivamente. Todos
nós somos chamados a sermos pessoas de milagres – fazer o bem, amar e
praticar a justiça. Mas também existem pessoas que fazem exatamente o
contrário, e as vezes ainda rezam para que Deus faça milagres... A
estes, também em Matheus 25 existe a resposta: “não me destes de comer,
de beber, etc..”. A vida de uma pessoa deve inserir-se no contexto
social, econômico, político e cultural do seu povo. É aqui que se dá (o
início) o Reino; é aqui que se pratica (ou não) o milagre. A alienação
da realidade da vida ou o seguir o que todos seguem (muito comum hoje)
só porque todos seguem este caminho é exatamente o contrário do
Evangelho. A vida é feita de liberdade e, por consequência, de opções.
Cada um opta ou por ser milagre ou por viver escandalizando-se dos que
praticam milagres, como os nazarenos escandalizaram-se de Jesus. Que
Deus nos dê a sabedoria e graça para que possamos ser milagres para
nossos amigos, nossos filhos, nossa família, nossa comunidade, nossa
sociedade, nossa Pátria, nosso mundo – amém!
Meu fardo é leve
16 de julho de 2015
Evangelho (Mt 11,28-30): Naquele tempo, disse Jesus, «vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e sede discípulos meus, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve».
o meu jugo é suave e o meu fardo é leve...
Esta frase deveria provocar em nós uma reflexão muito séria a respeito do que é o seguimento de Jesus, o que é abraçar a missão dEle (que permanece sendo sempre dEle), o que é trilhar num caminho orientado pela ética cristã... O próprio Jesus fala: “meu jugo é suave... meu fardo é leve...”. E isto conflita com muito do que ouvimos de religião, pois normalmente, ao ouvirmos “seguir a religião”, nos vem na mente uma vida de grande austeridade, renúncias, lutas e mais lutas, cansaços intermináveis por ações e obras a serem feitas que nunca acabam... E, de fato, movidos por este pensamento, quantos de nós já não abraçamos causas e mais causas, serviços e mais serviços, responsabilidades e mais responsabilidades, dentro da sociedade, dentro da Igreja, a tal ponto que muitas vezes “nem curtimos a vida”, e quando nos deparamos, a idade chega e com ela o cansaço e o olhar para trás que nos diz que não fizemos o que deveríamos ter feito, tal como cuidar da saúde, da afetividade, da amizade, etc.. Quantos, mas quantos que, ao chegar num determinado ponto, abandonam tudo, cansados de tanta luta, tanta fadiga, para dizer “prá que valeu tudo isto?”. E, Jesus vem com a frase para dizer “meu jugo é suave... meu fardo é leve...”. Seria uma contradição ou mentira? Penso que a frase proferida por Jesus poderia ser destrinchada da seguinte maneira: “se tú realmente fizesse a experiência da minha pessoa, jamais se cansaria de estar na missão, pois o apaixonado nunca se cansa de amar; o amante nunca se cansa de caminhar; o animado nunca se cansa de
perseverar... portanto, o projeto do Reino, não é um projeto de renúncias e cansaços, mas de alegria e satisfação, pessoal e coletiva. Talvez aí esteja um sinal da nossa caminhada – sempre queremos saber se estamos no caminho “certo” ou não – basta responder a pergunta: “há satisfação pessoal no caminho que faço?” Se sim, a chance de estarmos num caminho do Reino é muito grande; do contrário, a chance de estamos fora de sintonia do projeto do Reino é muito grande. Por isso, a igreja nunca deveria ser lugar de pessoas extremamente austeras, sisudas, mal humoradas, fechadas, tristes, etc., mas lugar de alegria, festa, prazer, afetividade, perdão, paz, acolhimento, etc.. Onde estiver estes traços, aí estará a Igreja de Jesus – onde isto estiver ocorrendo, ocorrerá também o que Jesus já dissera “Eu estarei presente” – lutar e sofrer pela causa do Reino vale para causa, não pela luta e o sofrimento. A luta e o sofrimento não é o fim; o fim é o Reino, que deve ser vivido e experimentado a cada segundo da nossa caminhada – ao final, perceberemos que o que valeu foi como percorremos o caminho, o dia a dia, as grandes, mas também as pequenas coisas – a forma como vivenciamos cada momento – e veremos a grandeza da vida e a beleza do amor do Pai que sempre nos acampanhou. E, ao final da caminhada, a coroação de abraçar aquele que nos dirá “Eu não disse à você que meu fardo era leve?”
A missão é dEle – a nós cabe o posicionamento histórico
08 de julho de 2015
Evangelho
(Mt 10,1-7): Naquele tempo, chamando os doze discípulos, Jesus deu-lhes
poder para expulsar os espíritos impuros e curar todo tipo de doença e
de enfermidade. Jesus enviou esses doze, com recomendações: No vosso
caminho, proclamai: O Reino dos Céus está próximo».
Jesus chama...
Dá poder...
Envia...
Proclama: o Reino está próximo – o Reino está perto, o Reino só depende de você...
Fica
evidente que a missão é dEle. É Ele quem chama, Ele quem dá poder (ou
não), Ele que envia, e Ele que orienta o que proclamar.
Quando
perdemos esta clareza que a missão é dEle, corremos o risco de
considerar que a missão é nossa, é minha, e daí aos poucos vamos nos
afastando da origem da missão (Jesus) e aos poucos vamos fazendo ou
impondo nosso modo de ser e a minha missão. Aos poucos vamos “adaptando”
a Missão do Reino (justiça, amor, benevolência, tolerância,
acolhimento, perdão, etc.), à “minha missão” (intolerância, vingança,
exclusão, frieza, etc.). E pior, fazemos “em nome de Deus”, em nome da
missão. Neste caso, desvirtuou-se o projeto original. Em outra ponta
desta reflexão, temos também pessoas que, ao tomarem a missão para si,
passados tempos de caminhada, entram no desânimo, pois ao configurar a
missão como pessoal, também configura os possíveis resultados com seus
anseios pessoais; e, na maioria das vezes, os resultados não são os que
almejávamos. E daí vem o desânimo, e muitos abandonam a missão. Quando
percebemos que a proclamação da justiça nem sempre agrada a todos,
quando percebemos que muitos dos que estavam ao nosso lado às vezes são
os que querem puxar nosso tapete, quando vivemos numa sociedade onde a
intolerância e individualismo crescem nas pessoas que tem crucifixo
pendurado no pescoço, quando a exploração do outro produz recursos
financeiros cuja parte é colocada na
coleta da igreja, quando
vemos cristãos que, ao subirem um pouco de cargo olham de cima para
baixo os que não subiram tanto quanto ele, daí corremos o risco de
desanimar... Mas, o desânimo e o cansaço não são frutos da realidade,
mas sim frutos do desvirtuamento da origem da Missão. A Missão é de
Jesus – é a Ele que cabe a tarefa de impulsionar o mundo ao Pai; a cada
um de nós cabe ser atingido pela faísca de seu amor e ouvir o chamado,
sentir-se enviado, perceber-se no projeto dEle e atuar. Quanto aos
frutos, podem aparentemente não serem o que desejamos; mas ao final, a
história de cada um não valerá necessariamente pelos frutos produzidos,
mas sobretudo pelo lado em que esteve na história. Pois frutos
conseguidos por meios que diminuíram vidas, não fazem parte do projeto.
E, em Matheus 25, Jesus chama para si os que deram de comer a quem tinha
fome, acolheu os peregrinos, visitou os presos, foi ver os doentes,
etc.. No evangelho de Matheus 25 não está escrito: “vinde benditos que
acabaram com a fome na sociedade, que extinguiram todas as injustas
prisões, que eliminaram as doenças...” – ou seja, os famintos não
acabaram, os presos continuaram a serem injustiçados, as doenças
permaneceram atormentando, sobretudo os pobres. Mas, quem serão os
chamados? Serão aqueles que estiveram num determinado lado da história. O
lado de quem durante toda a sua vida, fez da sua trajetória, um meio de
amenizar as dores dos sofridos, angustiados, injustiçados, ao lado dos
que proclamaram justiça, ainda que não tivesse conseguido sentença justa
nos tribunais (muito comum nos dias de hoje) – a Missão é dEle –
portanto, os frutos também são de responsabilidade dEle – no entanto,
nossa liberdade permanece para escolhermos de que lado da história
queremos estar. E, a depender do lado que estivermos historicamente,
dependerá nossa última palavra da nossa trajetória. Jesus, na cruz, teve
como última palavra “Pai, em tuas mãos, entrego o teu Espírito”. Queira
Deus que assim também possamos fazer nos nossos últimos momentos (e não
arrependimentos por ter podido amar mais e não ter amado, ter praticado
a justiça e não o ter feito, etc.). O que dá sentido à vida não são os
frutos, nem as coisas, nem os reconhecimentos; o que dá sentido à vida é
a postura e o lado que cada um se coloca. Por isso, o Reino pode estar
próximo, como disse Jesus no evangelho de hoje, ou não. A posição do
Reino não muda. O que muda é a nossa posição. O Reino está à disposição.
Queira Deus que tenhamos discernimento para não sermos engolidos pela
avalanche de convites que nos levam a fonte que não saciam, mas que
nossos ouvidos
estejam afinados e sintonizados com o verdadeiro convite, que, quando aceito, dá sentido à minha vida – Amém!
A fé provoca milagres
06 de julho de 2015
Evangelho
(Mt 9,18-26): Enquanto Jesus estava falando, um chefe aproximou-se,
prostrou-se diante dele e disse: «Minha filha faleceu agora mesmo; mas
vem impor a mão sobre ela, e viverá». Jesus levantou-se e o acompanhou,
junto com os discípulos. Nisto, uma mulher que havia doze anos sofria de
hemorragias veio por trás dele e tocou na franja de seu manto. Ela
pensava consigo: «Se eu conseguir ao menos tocar no seu manto, ficarei
curada». Jesus voltou-se e, ao vê-la, disse: «Coragem, filha! A tua fé
te salvou». E a mulher ficou curada a partir daquele instante.Chegando à
casa do chefe, Jesus viu os tocadores de flauta e a multidão agitada, e
disse: «Retirai-vos! A menina não morreu; ela dorme». Mas eles zombavam
dele. Afastada a multidão, ele entrou, pegou a menina pela mão, e ela
se levantou. E a notícia disso espalhou-se por toda aquela região.
Um
chefe vem ao encontro de Jesus, deixa sua filha morta em casa, para
buscar a ressurreição de sua filha junto a um carpinteiro. Isto é sinal
de fé ou não? Resposta: fé claríssima.
Uma mulher (mulher naquela
época já era discriminada por ser mulher – mulher é impura porque solta
sangue – ao menstruar. Imagina o quanto deveria ser discriminada uma
mulher com hemorragia há doze anos ! Evidente que, aproximar-se de
Jesus, cercado de homens deveria ser algo muito difícil e extremamente
discriminatório, vexatório, humilhante. Ela enfrenta tudo isto e pensa
consigo que “se tocar apenas a franja da roupa deste carpinteiro,
ficarei curada”. Isto é fé ou não? Fé claríssima!).
Duas cenas de fé que resultam em dois resultados: a mulher se cura e a filha do chefe retorna a vida.
No evangelho de ontem diz que Jesus não pôde fazer muitos milagres em Nazaré, devido a falta de fé daquele povo...
Isto
tem uma lógica a ser entendida: os milagres " aquele rapaz que ficou no
lugar de Deus que tirara férias ficou extremamente cansado e foi ter
uma audiência com Deus reclamando que o povo lhe pedia muitos milagres,
Deus fala para ele que “todas as vezes que uma mulher fica com o filho
da vizinha
para ela poder ir trabalhar; todas as vezes que você
dá conselho a um drogado e ele muda de vida, você fez um milagre – seja
você um milagre”; e o rapaz volta para a terra compreendendo o que é um
milagre.
Pegando esta concepção de milagre, mais este trecho do
Evangelho que diz que o milagre acontece fruto da fé, logo temos uma
clareza de uma coisa: hoje falta fé!
Numa sociedade onde milhões
ralam para ter um mínimo, e numa sociedade em que os que ascenderam não
se alegram com os que podem ascender, é uma sociedade carente de
milagres. Milagre de gente que compreenda o outro, que acolha o outro,
que ajude o outro, que seja solidário ao outro, que busque a justiça,
que busque o bem comum, que não seja discriminatório nem excludente...
estes são os milagres que precisam hoje. E, como falta fé, estes
milagres não acontecem, e a sociedade vai se aprofundando num
individualismo jamais visto, numa relação fria e gélida, num
comportamento de descarte do outro, num desrespeito pelo meio ambiente,
onde o “salve-se quem puder” vai se impondo. Uma sociedade intolerante,
machista, capitalista, individualista e muitos istas mais... Há
necessidade urgente de milagres nesta sociedade.
E, considerando
que proliferam religiões, ou melhor, pseudo-religiões, onde induzem os
seus seguidores a rezarem a Deus para que Ele acabe com a pobreza e o
sofrimento do povo, onde pede à Ele milagres, evidente que a situação só
tende a piorar, pois não será Ele a fazer isto, e sim, à partir da fé
de cada um em Deus que é Pai, à partir da fé de cada um é que cada um
vai fazer o seu milagre, sendo milagre onde possa ser, onde se encontra,
onde atua, onde se faz presente, onde tem a possibilidade e a chance de
ser milagre.
O milagre é fruto da fé... “Tua fé te salvou, ou melhor: tua fé provocou este milagre”.
E
a fé pode ser pura graça ou fruto de uma intimidade (experiência) do
ser humano com Deus, que se fez humano na pessoa de Jesus de Nazaré.
Portanto,
fica fácil saber quem tem intimidade (vida de oração, por exemplo) com
Deus: quem faz milagres. E os milagres a serem feitos estão todos
descritos em Mt. 25. Fora disto, não há religião!
Meus amigos: hoje partilho a "chave de leitura" que recebo semanalmente do Pe.Thomas, que nos ajuda a "ler" melhor o Evangelho de hoje.
Evangelho (Jn 16,20-23a): «Em verdade, em verdade, vos digo: chorareis e lamentareis, mas o mundo se alegrará. Ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria. A mulher, quando vai dar à luz, fica angustiada, porque chegou a sua hora. Mas depois que a criança nasceu, já não se lembra mais das dores, na alegria de um ser humano ter vindo ao mundo. Também vós agora sentis tristeza. Mas eu vos verei novamente, e o vosso coração se alegrará, e ninguém poderá tirar a vossa alegria. Naquele dia, não me perguntareis mais nada. Em verdade, em verdade, vos digo: se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vos dará».
Na verdade estas leituras colocadas ao dia a dia são preparativos para o Pentecostes, que será celebrado pela Igreja Católica não neste domingo, mas no outro. Trata-se de uma Celebração onde recorda-se o envio do Espírito Santo sobre os apóstolos, onde os mesmos, mediante a recepção deste Espírito, ganham força e entusiasmo para a luta do dia a dia. É o que os motivará para a continuidade de suas vidas, sem a presença física de Jesus, mas com a presença interior de Jesus nos seus corações. Esta força motivacional é necessária a todos os seres humanos. Independente de como supostamente foi este cenáculo onde o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos, a verdade é que hoje, no século XXI, mais do que nunca precisamos de uma força motivadora interior para enfrentarmos os desafios colocados na atualidade. E, um dos desafios, é discernir o que é verdade e o que não é verdade nos meios de comunicação, é encontrar jóias preciosas no meio dos lodos, etc.. Que Deus nos dê este Espírito Santo para conduzirmos nossa vida, nossa caminhada, na verdade, e assim sermos livres de estarmos sendo conduzidos por meios de comunicação que, de valor humano, estão cada vez mais pobres – Amém!
Evangelho (Jn 10,11-18): «Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas. O mercenário, que não é pastor e a quem as ovelhas não pertencem, vê o lobo chegar e foge; e o lobo as ataca e as dispersa. Por ser apenas mercenário, ele não se importa com as ovelhas. Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas. »Tenho ainda outras ovelhas, que não são deste redil; também a essas devo conduzir, e elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor. É por isso que o Pai me ama: porque dou a minha vida. E assim, eu a recebo de novo. Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por própria vontade. Eu tenho poder de dá-la, como tenho poder de recebê-la de novo. Tal é o encargo que recebi do meu Pai». O mercenário, que não é pastor e a quem as ovelhas não pertencem, vê o lobo chegar e foge; e o lobo as ataca e as dispersa.
Chama atenção a frase “a quem as ovelhas NÃO pertencem”. Hoje, século XXI, tem tanto “pastor” picareta, e, embora possamos ter aparentes grandes rebanhos, Jesus deixa claro: “estas ovelhas NÃO pertencem àquele pastor...” Ou seja, as ovelhas tem uma pertença à um pastor verdadeiro, independente da consciência destas ovelhas ou não. Nós todos, a humanidade toda, tem uma pertença a um pastor, que é o próprio Deus. Acredito eu que há muita angústia no mundo vivenciada por pessoas que não se sentem “em pertença” a Alguém; e o ser humano tem esta necessidade de “pertença”. Aliás, quando duas pessoas começam a se conhecer, após apresentado o nome, talvez o endereço, talvez a profissão, a próxima pergunta é “e você, pertence a algum grupo, partido, comunidade, movimento, etc.?” E, quando a pessoa diz que “pertence” a um determinado movimento/grupo/agremiação, e isto tem alguma sintonia com o outro, normalmente a conversa flui com outra velocidade, outra facilidade. É comum ouvir-se “que legal, eu também sou deste movimento/grupo, etc.”, e daí a relação fica mais amenizada e o grau de confiança aumenta. Por que? Porque o outro tem “a mesma pertença que eu”. Portanto, esta frase é significativa: “estas ovelhas NÃO pertencem à este mercenário”. As ovelhas, todas, tem uma pertença à Alguém Superior.
Por ser apenas mercenário, ele não se importa com as ovelhas.
O que mais importa ao mercenário é qualquer coisa, menos o outro. Pode ser dinheiro, status, possibilidade de conseguir algo através do outro, e tantas outras coisas; mas, uma coisa não é de sua natureza: “importar-se com o outro”. E, neste mundo onde muita gente se diz cristão, precisamos de sinais para saber quem são, de fato, cristãos, e quem são os ‘pseudo-cristãos’. E, parece que um dos sinais está dado aqui: “importar-se com o outro”. Quem se importa com o outro, está numa similaridade com o verdadeiro Pastor; quem não se importa com o outro (egoísmo) está em similaridade com o “falso pastor”, ou seja, com o “mercenário”. Portanto, um dos sinais não é a frequência à Igreja, possuir livros religiosos, andar com a bíblia, ou ter algum cargo ou função na igreja; um dos sinais é “importar-se com o outro”. E isto vale tanto no campo pessoal quanto social. No campo social é a ação do bom samaritano – ser próximo de quem está neste momento próximo precisando de mim. E no campo social é estar engajado pela luta da justiça, do bem comum. Não dá para uma pessoa falar que não se interessa pela política, pela sociedade, pois isto é “não se importar com o outro”, o que demonstra, na prática, que não está agindo na linha do bom pastor. O bom pastor não contenta com políticas sociais que afetam negativamente a humanidade. Por exemplo, nestes últimos dias no Congresso Nacional foi votada uma lei que tira direitos dos trabalhadores, com voto favorável de pastores e católicos (alguns dito fervorosos)... Podem ter rótulos de religiosidade, mas demonstram, na prática, o distanciamento do verdadeiro pastor – consciente ou não, estão alinhados ao mercenário, e não ao pastor verdadeiro – podem até cantar, fazer show, pregações, carregar bíblias debaixo do braço, no entanto, não estão alinhados com o verdadeiro pastor, pois o verdadeiro pastor “se importa” com o outro – pessoa humana – e não com outros interesses.
Conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai.
Aqui o “conhecer” não é de ter a ficha cadastrar do outro, mas o “conhecer” é no sentido de “comungar” o outro. Saber e entender o outro de forma
profunda, amando-o. Jesus fala que “conhece” suas ovelhas, ou seja, Ele nos ama apaixonadamente, e está pronto a nos servir.
Eu dou minha vida pelas ovelhas.
Para mim não é no sentido de que Ele vai morrer na cruz, mas no sentido que sua vida é uma dedicação ao outro. Dar a vida não significa só o ato de morrer, o ato de cessar as funções biológicas do ser humano. Dar a vida é viver de tal forma que a vida é partilhada com o outro, com o próximo. Dar a vida, é dar a amizade, a presença, o amor, o afeto, o carinho... Existem muitos, mas muitos, que dão a vida pelo outro (e às vezes nem Igreja frequentam). Estes, são espelhos do verdadeiro pastor. Aliás, aqui talvez vá uma outra característica do verdadeiro pastor: “dar a vida pelo outro” – ou seja, ser disponível para o outro, ser alguém em que o outro pode contar...
Este trecho do Evangelho é muito rico... que possamos tê-lo sempre em nossas mentes e corações, para não cairmos numa tentação forte deste século XXI – entrarmos numa religião que nada tem a ver com o verdadeiro evangelho – muitas vezes para sentir-se bem, outras vezes para acalmar a consciência que exige estar num caminho religioso, sem fazer alterações do modo de ser. Uma religiosidade que une os interesses capitalistas/egoístas com uma caminhada cristã, como se pudesse misturar água com óleo. Uma religiosidade fundamentada mais num “status quo” que num projeto do Reino. Esta tentação está cada vez mais eficiente... o tempo passa, mas a mensagem é a mesma: “o bom pastor conhece as suas ovelhas e dá à vida por elas”. Ponto final. Não há variantes desta mensagem. Que Deus nos dê a graça de nos alinharmos à mensagem verdadeira – Amém!