domingo, 25 de janeiro de 2015

Gotas de Espiritualidade



28 de fevereiro de 2016
Hoje partilho a reflexão que recebo semanalmente do Pe.Thomas
Figueira estéril

Evangelho (Lc 13,1-9): Nesse momento, chegaram algumas pessoas trazendo a Jesus notícias a respeito dos galileus que Pilatos tinha matado, misturando o sangue deles com o dos sacrifícios que ofereciam. Ele lhes respondeu: «Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que qualquer outro galileu, por terem sofrido tal coisa? Digo-vos que não. Mas se vós não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo. E aqueles dezoito que morreram quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que qualquer outro morador de Jerusalém? Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo». E Jesus contou esta parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi lá procurar figos e não encontrou. Então disse ao agricultor: ‘Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Para que está ocupando inutilmente a terra? ’ Ele, porém, respondeu: ‘Senhor, deixa-a ainda este ano. Vou cavar em volta e pôr adubo. Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então a cortarás».

TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA (28.02.16)
“Se vocês não se converterem, vão morrer todos do mesmo modo”

Lucas 13, 1-9
Essa passagem somente se encontra no Evangelho de Lucas e ensina os discípulos que Jesus é compassivo com as falhas, fraquezas e limitações humanas; mas, que também tem exigências para quem quer segui-Lo. Ele nos convida à conversão, antes que seja tarde demais!
O trecho começa com o relato feito por algumas pessoas referente ao fato ocorrido em Jerusalém, quando Pilatos matou um grupo de galileus durante o sacrifício no Templo (não temos informações sobre esse acontecimento de outras fontes). Na época, sofrer desgraças como doença, pobreza ou morte prematura, era visto como castigo de Deus por ser pecador. Podemos lembrar a pergunta feita a Jesus sobre ao homem cego de nascença, no Evangelho de João: “Os discípulos perguntaram: Mestre, quem foi que pecou, para que ele nascesse cego? Foi ele ou os pais dele?” (Jo 9, 2). É a “Teologia da Retribuição”, onde Deus premia ou castiga segundo os méritos da pessoa, ou melhor, segundo o que o sistema vigente entende por mérito. Assim se anula a gratuidade e a bondade misericordiosa de Deus; e, os excluídos da sociedade são vistos como culpados do seu próprio sofrimento. Infelizmente essa teologia, tão anti-evangélica, está muito presente hoje, quando a prática religiosa, ou o dízimo, são entendidos como “investimento” para receber retornos de
Deus. É claro que também essa teologia funcionava, e funciona, em favor da elite dominante, pois a sua riqueza é explicada como proveniente da bênção de Deus, e não como, frequentemente, resultado da exploração e/ou de um sistema econômico injusto. Jesus não autoriza tal interpretação, e falando também de outro acidente em Jerusalém que matou dezoito (v. 4), mostra que Deus não castiga assim. Esses acontecimentos trágicos podem servir para que todos pensem na insegurança da vida, e na urgência de conversão, enquanto ainda há tempo! Todos nós precisamos estar preparados para enfrentar o julgamento de Deus, através de uma vida digna de discípulos.
Os versículos 6-9 formam a parábola da figueira. Muitas vezes as parábolas comportam mais do que uma explicação válida. A parábola de hoje tem dois lados - como parábola de compaixão e como parábola de crise! Na primeira interpretação, Deus sempre dá ao pecador (simbolizado no texto pela figueira que não dava fruto) mais uma chance. Assim toca em um tema central de Lucas, que é a misericórdia e a compaixão de Deus. Na segunda interpretação, mexe com os acomodados e desligados entre os discípulos, que só “esgotam a terra” (v.7), ou seja, estão na comunidade como peso morto, sem contribuir nada a ela. Tais pessoas devem converter-se para dar os frutos de uma vida do discipulado, ou correr o risco de serem cortados da vinha do Senhor!
Quaresma é um tempo oportuno para uma reflexão sobre a nossa vida cristã, tanto como indivíduos como participantes de uma sociedade, cujas estruturas muitas vezes também não estão de acordo com a vontade de Deus, destruindo a nossa “casa comum”, o nosso planeta, por exemplo. É claro que todos nós somos pecadores, e, então, em permanente necessidade de conversão. A parábola nos anima diante das nossas fraquezas, pecados e tropeços na caminhada, pois Deus é compassivo, e Jesus sempre nos convida a voltar ao bom caminho. Do outro lado, a Quaresma também deve nos estimular para que busquemos na verdade os caminhos de conversão, descobrindo onde e como somos “figueiras sem frutos”, buscando o “adubo” (v. 8) da oração, da Palavra de Deus, dos sacramentos, da Campanha da Fraternidade, para que voltemos a produzir os frutos devidos a verdadeiros/as discípulos/as de Jesus.
Pe. Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br


25 de fevereiro de 2016
Cuidemos dos Lázaros...

Evangelho (Lc 16,19ss): Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e dava festas esplêndidas todos os dias.
Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, ficava sentado no chão junto à porta do rico. Queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico, mas, em vez disso, os cães vinham lamber suas feridas.
Não quero diminuir deste evangelho a mensagem central de um apelo a justiça social que Jesus coloca claramente nesta parábola. E a justiça social que cabe aos cristãos (se vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus – Mt. 5,20), é uma exigência central, dorsal para o cristão.
Não obstante a isto, esta parábola pode também nos levar a fazer mais uma reflexão, complementar a esta, assim digamos.
É uma parábola que descreve uma pessoa que aparentemente está muito bem, cheio de coisas, banqueteando-se diariamente... e há uma outra pessoa... na porta... caído ao chão... faminto... cheio de feridas... carente...
Esta outra pessoa pode ser a própria pessoa que está se banqueteando... ou seja, pode ser que numa só pessoa convivam “o rico que se banqueteia” e o “pobre caído na porta, faminto...”.
Há necessidade de todos nós olharmos constantemente para dentro de nós para sabermos se a pessoa que existe dentro de mim é a mesma pessoa que vive socialmente.
E hoje, parece que a exigência de se viver como o rico é muito forte. Todos tem que estar bem, sorridentes, esbanjando coisas, comprando coisas da modernidade, banqueteando-se diariamente, ainda que seja a custas de
empobrecimento do seu interior. E este empobrecimento interior fica à porta do coração..., e este Lázaro vai gritando, clamando, passando fome, ferindo-se... E quanto menos damos atenção à esta realidade, mais vai aumentando o abismo que separa estas duas pessoas “o que se banqueteia” X “o que passa fome”.
Há uma pergunta séria a ser respondida: “existe um eu dentro de mim que passa fome?”. “Existe um Lázaro dentro de mim, à minha porta, carente de tudo?”. Infelizmente eu acho que na maioria das pessoas isto existe, se é que não existe em todos, em graus diferentes.
Com certeza, dentro de cada um de nós existe uma carência, um buraco, um espaço não preenchido, um Lázaro que, apesar de estar à porta, faço questão de não enxergá-lo. E, durante nossa vida, é importante pararmos, refletirmos, olharmos para dentro de nós mesmos, para dar atenção à este Lázaro, e cuidar do que é que nos falta. Pode ser que seja o amor (não recebido e/ou não doado/praticado/ofertado). Quando conseguimos “curar” nosso interior, quando dermos vazão às nossas carências, quando preenchermos nosso buraco interno, quando saciarmos nossa fome de amor, generosidade, carinho, afeto, amizade, perdão; enfim, quando nos preenchermos de Deus, quando O reencontramos e quando nos reencontramos, nossos lázaros interiores vão deixando de ser lázaros e, por consequência, os lázaros exteriores, os pobres, os injustiçados, também vão diminuindo. Podemos até afirmar que os lázaros sociais são frutos dos lázaros internos das pessoas, pois quem ama não pactua com injustiça... lembro-me da frase do Leonardo Boff: “aqueçamos nossos corações, para que não matemos de frio as pessoas”. Cuidemos dos nossos lázaros interiores, para que sejamos humanos, e, como humanos, não suportemos a fome do irmão, e ajamos na direção do Reino que não suporta lázaros, nem dentro, nem fora de ninguém – Amém!


18 de fevereiro de 2016
Pedi e vos será dado

Evangelho (Mt 7,7-12): «Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á. Porque, aquele que pede, recebe; e, o que busca, encontra; e, ao que bate, abrir-se-lhe-á. E qual de entre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? E, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente? Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem? Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas».
Pedi e vos será dado... um pai não dá uma cobra ao filho... se assim age o pai, quanto mais Deus Pai...
Jesus estabelece uma relação de confiança entre nós e o Pai. Peça... bata... solicite... aproxime-se... para pedir, dificilmente alguém grita de longe. Para resmungar, recusar, brigar, este sim, muitas vezes faz de longe, gritando... no entanto, raramente para pedirmos o fazemos de longe... pelo contrário, chegamos perto e falamos mansamente... assim funciona entre nós... assim deveria funcionar com o Pai... por isso, implícita nesta mensagem de “peça ao Pai que Ele o atenderá”, está a mensagem “chegue-se perto do Pai... fale aos seus ouvidos proximamente à Ele”. Aproximar-se de Deus... na oração, na ação, na liturgia, na celebração, pelo irmão, sobretudo, pelo amor... aproximando-se do Amor Materno Paternal de Deus, podemos cochichar nos seus ouvidos nossas necessidades... no entanto, quando realmente dEle nos aproximamos, percebemos que aquilo que achávamos necessário e fundamental, passa a ser relativo, e deixamos de pedir; ao passo que conseguimos, neste estágio, perceber o que é fundamental, essencial e crucial: a vida e o amor, e tudo que conduz a vida e ao amor... daí reiherarquizamos nossos valores interiores e encontramos a paz, pois encontramo-nos conosco mesmo e sentimo-nos em casa. Aproximar-se... talvez este seja o desafio desta

nossa quaresma. Que Deus nos conceda esta graça de dEle aproximarmo-nos – Amém!


14 de fevereiro de 2016
As tentações de Jesus

Evangelho (Lc 4,1-13): E Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto; E quarenta dias foi tentado pelo diabo, e naqueles dias não comeu coisa alguma; e, terminados eles, teve fome. E disse-lhe o diabo: «Se tu és o Filho de Deus, dize a esta pedra que se transforme em pão». E Jesus lhe respondeu, dizendo: «Está escrito que nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra de Deus». E o diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o diabo: « Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero. Portanto, se tu me adorares, tudo será teu». E Jesus, respondendo, disse-lhe: «Vai-te para trás de mim, Satanás; porque está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás». Levou-o também a Jerusalém, e pô-lo sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: «Se tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; Porque está escrito: Mandará aos seus anjos, acerca de ti, que te guardem, E que te sustenham nas mãos, Para que nunca tropeces com o teu pé em alguma pedra. E Jesus, respondendo, disse-lhe: «Dito está: Não tentarás ao Senhor teu Deus». E, acabando o diabo toda a tentação, ausentou-se dele por algum tempo.



PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA
Lucas 4,1-13.
“Você adorará o Senhor seu Deus e somente a Ele servirá”

O texto expressa a luta interna de Jesus, que na realidade se deu ao longo da sua vida pública, para discernir o caminho a seguir, depois de assumir a sua missão no batismo.
Jesus era totalmente humano e assim enfrentava sempre as tentações de seguir o caminho de um messianismo falso, que não fosse o caminho do Servo de Javé.
A experiência de Jesus é como a nossa - entre o nosso compromisso com o projeto de Deus e a sua vivência prática existem muitas tentações!
Jesus estava “repleto do Espírito Santo”, e era “conduzido pelo Espírito através do deserto”.
O Espírito Santo não o conduz à tentação, mas é a força sustentadora d’Ele durante as suas tentações.
Como o Espírito dava força a Jesus, Lucas ensina às suas comunidades que elas também poderão contar com este apoio nos momentos difíceis da vivência da sua fé!
As tentações são as mesmas que enfrentamos na nossa caminhada da fé hoje!
Primeiro Jesus é tentado para mandar que uma pedra se torne pão.
Aqui é a tentação do “prazer” - logo que enfrente sofrimento e sacrifício por causa da sua missão, Jesus é tentado a escapar dele! Uma tentação das mais comuns hoje, em um mundo que prega a satisfação imediata dos nossos desejos em uma sociedade que cria necessidades falsas através de sofisticadas campanhas de propaganda. Uma sociedade de individualismo, onde a regra é “se quiser, faça!”, onde o sacrifício, a doação e a solidariedade são considerados como ladainha dos perdedores!
Jesus é contundente: “Não só de pão vive o homem” (v. 4).
Vivemos de pão, mas, não só!
Jesus não é contra o necessário para viver dignamente.
Mas, salienta que não é somente a posse de bens que traz a felicidade, mas a busca de valores mais profundos, como a justiça, a partilha, a doação, a solidariedade com os sofredores.
Não faz contraste falso entre bens materiais e espirituais - precisa-se de ambos para que se tenha a vida plena! Jesus desautoriza tanto os que buscam a sua felicidade na simples posse de bens, como os que dispensam a luta pelo pão de cada dia para todos! Nada de materialismo e nada de uma religião que não inclui o compromisso com a solidariedade, e justiça social e uma sociedade mais fraterna, justa e igualitária.
A segunda tentação pode ser visto como a do “ter”. Algo atual! Vivemos na sociedade pós-moderna da globalização do mercado, do neo-liberalismo, do “evangelho” do mercado livre. Diariamente a televisão traz para dentro das nossas casas a mensagem de que é necessário “ter mais”, e que não importa “ser mais”!
A tentação vem em forma atraente - até a Igreja pode cair na tentação de achar que a simples posse de bens, que podem ser usados em favor da missão, garantirá uma atuação mais evangélica.
Somos tentados a não acreditar na força dos pobres, das “pessoas comuns”, dos leigos/as, dos “fracos” aos olhos da sociedade, ou seja, de não seguir o caminho do carpinteiro de Nazaré.
Jesus também enfrentou esta tentação – Ele, que veio para ser humano com a humanidade, pobre com os pobres, para mostrar o Deus que opta preferencialmente pelos marginalizados, é também tentado a confiar nas riquezas! Para o diabo - e para o nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo às custas da justiça social - Jesus afirma: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá” (v. 8).
A terceira tentação pode ser entendida como a do “poder”. Uma tentação permanente na história das Igrejas e dos cristãos. Quantas vezes as Igrejas confiavam mais no poder secular do que na fragilidade da cruz, para “evangelizar”.
Quanta aliança entre a cruz e a espada - a América Latina que o diga!
Ainda hoje enfrentamos esta tentação - não de ter poder para servir, mas de confiar no poder deste mundo, mais do que na fraqueza aparente de Deus, assim contradizendo o que Paulo afirmava: “A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1, 25) e “Deus escolheu o que é fraqueza no mundo, para confundir o que é forte” (1Cor 1, 27).
Jesus, que veio para servir e não para ser servido, que veio como o Servo de Javé e não como dominador, teve que clarear a sua vocação e despachar o diabo com a frase: “Não tentarás o Senhor seu Deus”.
Podemos agradecer o exemplo do Papa Bento XVI que soube abrir mão do poder para o bem da Igreja!
Nesse gesto profético, talvez tenha proferido sua melhor pregação – o poder existe somente para servir o bem comum!
Realmente, podemos nos encontrar nas tentações de Jesus! São as do mundo moderno - o ter, o poder e o prazer! Todas coisas são boas em si, mas altamente destrutivas quando tomam o lugar de Deus em nossas vidas!
Jesus teve que enfrentar o que nós enfrentamos - o “diabo” que está dentro de nós, o tentador que procura nos desviar da nossa vocação de discípulos/as-missionários/as.
O texto nos coloca diante da orientação básica para quem quer vencer: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá” (v. 8)


1.2.2016
Hoje partilho a reflexão que recebo diariamente do site "evangeli.net".

Evangelho (Mc 5,1-20): Jesus e os discípulos chegaram à outra margem do mar, na região dos gerasenos. Logo que Jesus desceu do barco, um homem que tinha um espírito impuro saiu do meio dos túmulos e foi a seu encontro. Ele morava nos túmulos, e ninguém conseguia amarrá-lo, nem mesmo com correntes. Muitas vezes tinha sido preso com grilhões e com correntes, mas ele arrebentava as correntes e quebrava os grilhões, e ninguém conseguia dominá-lo. Dia e noite andava entre os túmulos e pelos morros, gritando e ferindo-se com pedras. Ao ver Jesus, de longe, o homem correu, caiu de joelhos diante dele e gritou bem alto: «Que queres de mim, Jesus, Filho de Deus Altíssimo? Por Deus, não me atormentes!». Jesus, porém, disse-lhe: «Espírito impuro, sai deste homem!»- E perguntou-lhe: «Qual é o teu nome?» Ele respondeu: «Legião é meu nome, pois somos muitos». E suplicava-lhe para que não o expulsasse daquela região 
Entretanto estava pastando, no morro, uma grande manada de porcos. Os espíritos impuros suplicaram então:«Manda-nos entrar nos porcos». Jesus permitiu. Eles saíram do homem e entraram nos porcos. E os porcos, uns dois mil, se precipitaram pelo despenhadeiro no mar e foram se afogando. Os que cuidavam deles (dos porcos... tinha gente para cuidar dos porcos... não tinha ninguém para cuidar daquele ser humano...) fugiram e espalharam a notícia na cidade e no campo. As pessoas saíram para ver o que tinha acontecido. Chegaram onde estava Jesus e viram o possesso sentado, vestido e no seu perfeito juízo — aquele que tivera o Legião. E ficaram com medo. Os que tinham presenciado o fato explicavam-lhes o que havia acontecido com o possesso e com os porcos. Então, suplicaram Jesus para que fosse embora do território deles.
Enquanto Jesus entrava no barco, o homem que tinha sido possesso pediu para que o deixasse ir com ele. Jesus, porém, não permitiu, mas disse-lhe: «Vai para casa, para junto dos teus, e anuncia-lhes tudo o que o Senhor, em sua misericórdia, fez por ti». O homem foi embora e começou a anunciar, na Decápole, tudo quanto Jesus tinha feito por ele. E todos ficavam admirados. 
Comentário: Rev. D. Ramon Octavi SÁNCHEZ i Valero (Viladecans, Barcelona, Espanha)
«Espírito impuro, sai deste homem!»
Hoje encontramos um fragmento do Evangelho que pode provocar o sorriso a mais de um. Imaginar-se uns dos mil porcos precipitando-se pelo monte abaixo, não deixa de ser uma imagem um pouco cômica. Mas a verdade é que a eles não lhes fez nenhuma graça, se enfadaram muito e lhe pediram a Jesus que se fora de seu território.

A atitude deles, mesmo que humanamente poderia parecer lógica, não deixa de ser francamente recriminável:prefeririam ter salvado seus porcos antes que a cura do endemoninhado. Isto é, antes os bens materiais, que nos proporcionam dinheiro e bem estar, que a vida em dignidade de um homem que não é dos “nossos”.Porque o que estava possuído por um espírito maligno só era uma pessoa que «Sempre, dia e noite, andava pelos sepulcros e nos montes, gritando e ferindo-se com pedras» (Mc 5,5).

Nos temos muitas vezes este perigo de apegar-nos ao que é nosso, e desesperar-nos quando perdemos aquilo que só é material. Assim, por exemplo, o camponês se desespera quando perde uma colheita mesmo tendo-a assegurada, ou o jogador de bolsa faz o mesmo quando suas ações perdem parte de seu valor. Em compensação, muitos poucos se desesperam vendo a fome ou a precariedade de tantos seres humanos, alguns dos quais vivem ao nosso lado.
Jesus sempre pôs em primeiro lugar as pessoas, mesmo antes que as leis e os poderosos de seu tempo. Mas nós, muitas vezes, pensamos só em nós mesmos e naquilo que acreditamos que nos traz felicidade, mesmo o egoísmo nunca traz felicidade. Como diria o bispo brasileiro Helder Câmara: «O egoísmo é a fonte mais infalível de infelicidade para si mesmo e para os que o rodeiam».


31 de janeiro de 2016
Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria

Lucas 4,21-30

“Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria”

Não é fácil entender o desfecho da visita de Jesus a Nazaré, logo após o seu batismo. É muito violenta a mudança de atitude dos Nazarenos - da admiração à fúria. Talvez Lucas tenha unido dois acontecimentos em uma só história. Mas, seja como for, alguns pontos importantes saltam aos olhos.
Em primeiro lugar “todos aprovavam Jesus, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca” (v. 22). Com certeza, essa reação não foi causada pela oratória de Jesus, nem porque soubesse usar “artifícios para seduzir os ouvintes” (1Cor 1, 4), como fazem tantos pregadores midiáticos e políticos hoje. Não, foram palavras cheias de encanto porque brotaram da sua intimidade com o Pai, da sua espiritualidade profunda, da sua capacidade de compaixão, da coerência entre a sua fala e a sua vivência. Aqui há um desafio para todos nós - de deixar que sejamos tomados pela Palavra de Deus, de tal maneira que a nossa palavra não seja mais a nossa, mas, a manifestação do Espírito que habita em nós. Só assim as nossas palestras e pregações surtirão efeito. Ao contrário, por tão eloquente que possa ser a nossa fala, seremos “sinos ruidosos, ou símbolos estridentes” (1Cor 13, 2) - chamam a atenção, mas não deixam frutos! Como disse em uma ocasião o Papa Bento XVI, “A Igreja não vive de si, mas do Evangelho e encontra sempre e de novo sua orientação nele para o seu caminho. É algo que cada cristão tem de ter em conta e aplicar-se a si mesmo: só quem escuta a Palavra pode converter-se depois em seu anunciador. Não deve ensinar sua própria sabedoria,
mas a sabedoria de Deus, que com frequência parece estupidez aos olhos do mundo”
A reação dos vizinhos de Nazaré encontra eco muitas vezes nas comunidades de hoje. É o pobre que não acredita no pobre! Jesus é rejeitado por ser considerado o filho de José, um simples carpinteiro de Nazaré. Quantas vezes, hoje, acontece que, em lugar de incentivar as nossas lideranças das bases, os próprios companheiros de comunidade os rejeitamos por não serem “doutores”, por não saberem “falar bonito”, como sabem muito bem os nossos exploradores! Parece às vezes que há gente que sente prazer em destruir as lideranças. Mas, as coisas vão mudar só quando o pobre começar a acreditar no pobre!
Outro motivo para tal reação, com certeza, era o fato de Jesus desafiar os preconceitos e comodismo da comunidade nazarena, usando os exemplos da ação de Deus em favor de um estrangeiro (Naaman, o sírio) e uma estrangeira (a viúva de Sarepta). Pois, Jesus era um profeta e o profeta sempre incomoda, pois nos desafia a sair de nossas fronteiras, e olhar o mundo como Deus o vê. É difícil que alguém goste de ser incomodado, e por isso preferimos com frequência criar uma religião de ritos e rituais, com certezas absolutas que nos confirmam na nossa visão do mundo. Mas, a verdadeira religião não é só de ritos (embora esses tenham grande importância na celebração da nossa fé). É o seguimento de Jesus, que veio “para que todos/as tenham a vida e a vida plenamente” (Jo 10, 10), vivenciando a solidariedade e a fraternidade entre todas as pessoas, sem preconceitos nem exclusões. É triste ver em tantos lugares hoje que a maior preocupação de muitas Igrejas parece ser com as minúcias rituais, com um número cada vez maior de normas, decretos e rubricas, enquanto se ignoram as grandes questões da humanidade, como a violência, a exploração, a destruição da natureza, o extermínio de indígenas, e assim por diante. Dificilmente se pode imaginar Jesus de Nazaré agindo assim. Por isso, talvez se fale tanto nos programas religiosos dos meios de comunicação só do Cristo glorificado, e tão pouco de Jesus de Nazaré, profeta perseguido por causa das suas opções concretas em favor dos sofredores, sem levar em conta a sua raça, religião ou situação social.
Jesus nos dá o exemplo de como enfrentar estes problemas, diante de críticas e rejeição, quando realmente tentamos ser coerentes com o Profeta de Nazaré . Ele “continuou o seu caminho” (Lc 4, 20). É isso mesmo - apesar das críticas, da não-aceitação, das gozações, o cristão tem que “continuar o seu caminho”. Jesus sofreu com isso, mas não se abalou, pois a sua convicção não se baseava na opinião, aprovação e aceitação dos outros, mas na oração, na interiorização da Palavra. Oxalá todos nós cresçamos neste sentido, seguindo o exemplo do Mestre! Como recomenda a Carta aos Hebreus: “Para que vocês não se cansem e não percam o ânimo, pensem atentamente em Jesus, que suportou contra si tão grande hostilidade por parte dos pecadores.”(Hb 12, 3)


29 de janeiro de 2016
Não adianta querer impedir o Reino... a terra produz fruto por si mesma


Evangelho (Mc 4,26ss):Jesus dizia-lhes: «O Reino de Deus é como quando alguém lança a semente na terra. Quer ele esteja dormindo ou acordado, de dia ou de noite, a semente germina e cresce, sem que ele saiba como. A terra produz o fruto por si mesma: primeiro aparecem as folhas, depois a espiga e, finalmente, os grãos que enchem a espiga. Ora, logo que o fruto está maduro, mete-se a foice, pois o tempo da colheita chegou».

A terra produz o fruto por si mesma...

Aqui para mim soa como uma frase de esperança e esperança concreta. Registro isto porque geralmente nós somos teleguiados por emissoras globais que tentam nos impor um mundo de tristeza, desânimo, medo, apreensão, etc.. E parece que esta onda vai pegando todo mundo, entrando inclusive dentro da Igreja, inclusive dentro de algumas lamentáveis pregações/homilias. No entanto, esta frase “A terra produz o fruto por si mesma” pode nos dizer que devemos continuar no caminho indicado pelo Pai, e com relação às forças contrárias, e fortes, não se preocupe... independente das ações dos poderosos/opressores, a terra produz o fruto por si mesma, ou seja, não adianta quererem barrar o Reino... ele cresce, expande, chega até onde tem que chegar, e fica disponível a todos... mesmo com toda aldeia global televisiva, somada com mídia impressa e redes sociais nefastas... são forças poderosas, não tenhamos dúvida... mas a força do Reino é maior... Por mais que se preguem o individualismo, a fraternidade sempre existirá... por mais que preguem a meritocracia, sempre a bondade e misericórdia e a partilha existirá... existem pessoas (e a gente conhece gente assim), que nunca se cansam de fazer o bem, nunca se cansam de amar, nunca se cansam de se doar... sacerdotes, pastores, leigos, e pessoas nem ligadas a religião... não são poucos os que, independente da “onda”, seguem amando, servindo, e sobretudo, “sendo”, e não “tendo”. Estes são os profetas do século XXI... e talvez à este profetismo é que somos
todos chamados. Ilude-se quem acha que tudo está perdido, que caminhamos numa estrada cujo fim está próximo, que não há elementos para se esperançar na humanidade... pura ilusão... o Reino cresce por si mesmo... basta acreditarmos e permanecermos nos firmes princípios que nos nortearam no início da nossa conversão... basta relembrarmos das experiências profundas que já tivemos e nelas permanecermos como âncoras de nossa caminhada... independente da ação de cada um, “a terra produz os seus frutos”... o que valerá ao final de tudo é saber se vivenciamos esta realidade, ajudando na terra e na produção destes frutos ou se ficamos lamentando e nos desesperançando... no entanto, independente da minha posição, a terra produz os frutos, o Reino se expande, cresce e segue... que Deus nos dê a graça de jamais desanimarmos, e ficarmos firmes, sempre firmes, nos valores do Reino, e, ao final de tudo, percebermos que estivemos do lado certo da história, do lado onde Jesus nos chamará para adentrar definitivamente no Reino, pois “Ele teve fome... e demos de comer...” – Amém!


25 de janeiro de 2016
Eis os sinais dos que creem


Evangelho (Mc 16,15-18): Naquele tempo, Jesus apareceu aos onze e disse-lhes: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda criatura! Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado. Eis os sinais que acompanharão aqueles que crerem: expulsarão demônios em meu nome; falarão novas línguas; se pegarem em serpentes e beberem veneno mortal, não lhes fará mal algum; e quando impuserem as mãos sobre os doentes, estes ficarão curados».


Eis os sinais que acompanharão aqueles que crerem: expulsarão demônios em meu nome; falarão novas línguas; se pegarem em serpentes e beberem veneno mortal, não lhes fará mal algum; e quando impuserem as mãos sobre os doentes, estes ficarão curados».

Eis os sinais. Se não temos estes sinais, logo não cremos...
Expulsar os demônios da indiferença, do ódio, da intolerância, da injustiça, do desamor, do “olho por olho/dente por dente”, e assim vai. Há muitos demônios a serem expulsos no século XXI.
Falar novas línguas de esperança, de acolhimento, de ternura e compreensão. Esta nova linguagem está em falta atualmente numa sociedade individualista, o linguagem do afeto compartilhado, da compaixão e da misericórdia... linguagem pouco utilizada hoje.
Pegar em serpentes e beberem veneno mortal, sem fazer-lhe mal... mergulhar nos mundos subalternos da pobreza e envolver-se com os excluídos, marginalizados, criminosos... entrar nos submundos dos consumidores de droga, dos apartados... envolver-se no campo político tão manchado pelas “vantagens pessoais” que a norteia, e fazer deste poderoso instrumento político um meio de libertação dos
pobres, de melhoria da qualidade de vida das pessoas... Talvez isto seja pegar em cobras e tomar venenos, sem fazer-nos mal.
E quando impuserem as mãos sobre os doentes, estes ficarão curados – talvez hoje pudéssemos traduzir de outra forma: “e diante das pessoas que choram, oferecer os ombros para recostarem suas lágrimas e oferecer os ouvidos para ouvir seus histórias, desabafos e dores... e assim, curá-los de seu coração ferido/maltratado.
Eis os sinais dos que creem – se estes sinais existem, cremos... caso contrário...



24 de janeiro de 2016

Abaixo transcrevo o evangelho de hoje e a reflexão do Pe.Thomas

Evangelho (Lc 1,1-4;4,14-21): Muitos tentaram escrever a história dos fatos ocorridos entre nós, assim como nos transmitiram aqueles que, desde o início, foram testemunhas oculares e, depois, se tornaram ministros da palavra. Diante disso, decidi também eu, caríssimo Teófilo, redigir para ti um relato ordenado, depois de ter investigado tudo cuidadosamente desde as origens, para que conheças a solidez dos ensinamentos que recebeste.

Jesus voltou para a Galileia, com a força do Espírito, e sua fama se espalhou por toda a região. Ele ensinava nas sinagogas deles, e todos o elogiavam. Foi então a Nazaré, onde se tinha criado. Conforme seu costume, no dia de sábado, foi à sinagoga e levantou-se para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, encontrou o lugar onde está escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Nova aos pobres: enviou-me para proclamar a libertação aos presos e, aos cegos, a recuperação da vista; para dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça da parte do Senhor». Depois, fechou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Os olhos de todos, na sinagoga, estavam fixos nele. Então, começou a dizer-lhes: «Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir».
TERCEIRO DOMINGO COMUM (24.01.16)
“O Espírito do Senhor está sobre mim”
Lc 1, 1-4; 4,14-21
                          O texto relata a primeira experiência da Vida Pública de Jesus. Deu-se na sua terra de criação - Nazaré.
Na linguagem de hoje, Jesus foi para a capela da comunidade e foi convidado a fazer parte da equipe litúrgica, para fazer a segunda leitura! Naquela época, o culto da sinagoga tinha duas leituras - a primeira tirada da Lei, a segunda dos Profetas. Jesus, abrindo o livro do Profeta Isaías, encontrou a passagem que diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me consagrou para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano da graça do Senhor” (4, 18-19).
Não que Ele encontrasse esta passagem por acaso! Pelo contrário - Jesus procurou até achar, pois Ele identificava a sua missão com aquela descrita pelo profeta.
Por isso, na hora da homilia, começou com a frase chocante: “Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura, que vocês acabam de ouvir” (4, 21).
Jesus identificou a sua missão com a do Capítulo 61 de Isaías. Nós, como discípulos d’Ele, temos a mesma missão.
Olhemos os elementos:
a) “Anunciar a Boa Notícia aos pobres”: O evangelho é “Boa-Notícia” - não uma série de leis, nem uma lista de práticas rituais, nem uma moral (embora tenha todos estes elementos), mas uma experiência de Deus que traz alegria, felicidade, - especialmente para os pobres!
Portanto, Ele toma posição - o que é boa notícia para uns, é má-notícia para outros! O que é boa notícia para o oprimido, é má notícia para o opressor, a não ser que mude de vida! Não existe uma Boa-Notícia neutra, igualmente boa para todos! E não devemos diluí-lo a termo “pobre” - aqui não é o pobre de espírito, nem de coração, nem de fé... é o pobre mesmo, aquele/a que não tem o necessário para uma vida digna (Lucas usa o termo grego “ptochois”, que significa mais ou menos “indigentes”). Com certeza, na nossa sociedade inclui todos os excluídos.
 b) “Proclamar a libertação aos presos”: Não só aos na cadeia, mas que estão sem a liberdade dos filhos de Deus - presos hoje pelas consequências do neo-liberalismo, do desemprego, do salário mínimo; pelas correntes de racismo, machismo, clericalismo, e tudo que oprime! Também aos presos no seu próprio egoísmo, pois o assumir dos valores evangélicos vai libertá-los. Porém, esta libertação passa pela mudança radical na sua maneira de viver.
c) “Aos cegos a recuperação da vista”: Quanta gente cega hoje! E não por doença dos olhos, mas cegada pela ideologia dominante que não deixa ver a realidade do mundo e dos sofridos; pelas falsas utopias alienantes e pela manipulação de informação pelos meios de comunicação, dominados pela elite, que “fazem a cabeça”; quantos cegos diante da possibilidade de mudança através da força histórica dos oprimidos! Vale a pena notar que o texto enfatiza a “recuperação” da vista - não a doação dela. Ou seja, trata-se de ajudar os/as que uma vez viram a realidade com os olhos de Deus, mas foram cegados pela ideologia dominante ao ponto de não enxergarem mais a verdade.
d) “Libertar os oprimidos”: Aqui há o eixo fundamental de toda a Bíblia - o Êxodo, como processo permanente. No livro de Êxodo, Deus se identificou como o Deus que liberta os oprimidos (Êx 3, 76-10). Jesus se coloca - e coloca todos os seus seguidores - neste mesmo compromisso. Hoje a época é diferente, mas a opressão continua, e Deus nos conclama para que todos nós nos empenhemos nesta luta para concretizar a libertação dos oprimidos.
e) “Proclamar o ano de graça do Senhor”: O Ano da Graça - o Ano Jubilar! Memória da proposta do Lv 25, o ano do perdão das dívidas, da libertação dos escravos, da devolução das terras aos seus donos originais!
Como concretizar, na realidade do Brasil de hoje, esta visão? O que significa hoje o perdão das dívidas, a libertação dos escravos e a devolução das terras? Questões evangélicas da fé, que têm fortes consequências políticas e econômicas e desafiam a tendência à uma religião intimista, individualista e desencarnada da realidade.
Pois júbilo, alegria, não pode ser decretado - tem que brotar de algum motivo profundo.

Aqui o próprio Jesus fala da sua missão, que é também a nossa. Pois, fomos todos “consagrados com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres, para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar o ano da graça do Senhor” (4, 18-21).


23 de janeiro de 2016
Ele está ficando louco...



Evangelho (Mc 3,20-21): Jesus voltou para casa, e outra vez se ajuntou tanta gente que eles nem mesmo podiam se alimentar. Quando seus familiares souberam disso, vieram para detê-lo, pois diziam: «Está ficando louco».


Jesus volta para sua casa – acho que voltou para Nazaré. Cidade pequena, e sua fama já tinha chegado por lá. Portanto, várias pessoas vão a sua procura, e Ele fica sem tempo até para comer. Seus parentes tentam detê-lo, pensando que ele está ficando “louco”. Quando imaginamos que alguém está ficando louco? Quando seu comportamento foge a regra, foge a normalidade, quando seu jeito e modo de ser extrapolam os manuais de comportamentos sociais... Este é Jesus. Pela forma que está escrito este evangelho (não tinham tempo para comer) dá-se impressão de um Jesus totalmente dedicado ao outro, ao próximo, a causa. Dedicação tão forte que não lhe permite suprir as necessidades básicas (alimentação). Não se trata de fazer hoje esta imitação, pois como diz Frei Beto: existe o militante e o militonto. Militonto é o que vai fazendo tanta coisa, que quando vê, já esqueceu seus princípios. É verdade que Jesus aqui é tido como louco porque não pára e fica todo para o próximo; mas também é verdade que, em outros trechos, Jesus retira-se para rezar, para ficar a sós com o Pai e consigo mesmo. Portanto, não é um militonto. E nem devemos ser militontos. O mundo precisa de militantes, como Jesus – pessoa que se dedica totalmente ao outro, mas que sabe também afastar-se do outro para recompor-se e sintonizar-se com o Pai.
Que “as loucuras” do nosso dia a dia não nos desviem do caminho original que um dia dissemos “sim” – Amém!


15 de janeiro de 2016 

Ser perdoado dos pecados e voltar a andar


Evangelho (Mc 2,1-12): Alguns dias depois, Jesus passou novamente por Cafarnaum, e espalhou-se a notícia de que ele estava em casa. Ajuntou-se tanta gente que já não havia mais lugar, nem mesmo à porta. E Jesus dirigia-lhes a palavra. Trouxeram-lhe um paralítico, carregado por quatro homens. Como não conseguiam apresentá-lo a ele, por causa da multidão, abriram o teto, bem em cima do lugar onde ele estava e, pelo buraco, desceram a maca em que o paralítico estava deitado. Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico: «Filho, os teus pecados são perdoados». Estavam ali sentados alguns escribas, que no seu coração pensavam: «Como pode ele falar deste modo? Está blasfemando. Só Deus pode perdoar pecados»! Pelo seu espírito, Jesus logo percebeu que eles assim pensavam e disse-lhes: «Por que pensais essas coisas no vosso coração? Que é mais fácil, dizer ao paralítico: ‘Os teus pecados são perdoados’, ou: ‘Levanta-te, pega a tua maca e anda’? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar pecados — disse ao paralítico — eu te digo: levanta-te, pega a tua maca, e vai para casa!» O paralítico se levantou e, à vista de todos, saiu carregando a maca. Todos ficaram admirados e louvavam a Deus dizendo: «Nunca vimos coisa igual!».



Fiz vários cursos, e sempre fiquei atento aos professores quando falavam “tal cena não deve ter acontecido... tal acontecimento não é histórico...” e assim sucessivamente. Nunca ouvi que esta cena não teria acontecido. Pode até ser que não ocorrera, mas nunca ouvi de alguém que foi uma criação literária de um evangelista para levar alguma mensagem à comunidade. Portanto, a princípio, penso que esta cena ocorreu, tal como está descrita. Até porque, para criar uma cena para uma determinada mensagem, acho que não inspiraria o que foi escrito aqui, pois é quase inimaginável que quatro pessoas desçam um paralítico pelo telhado. Portanto, ao julgar que a cena está tal como teria ocorrido, podemos perceber a lógica de Jesus: perdoa os pecados... em seguida, o paralítico anda... Não somente o seu efeito físico, que em si já é grande, mas
o seu efeito religioso, espiritual, pedagógico e psicológico é muito grande. O homem não andava e precisava ser carregado por outros. A partir do momento que ele tem os seus pecados perdoados, ele passa a andar, e a maca que o carregava, passa a ser carregado por ele, invertendo a lógica da dependência material. Isto dá uma reflexão muito tentadora: somos pecadores, e isto ninguém tem dúvida. Um dos problemas do pecado, é que aos poucos ele vai nos paralisando. Paralisando o coração que vai amando cada vez menos e endurecendo... paralisando nosso afeto, sensibilidade, fraternidade e senso de justiça, deixando-nos cada vez mais egoísta, frio, insensível e buscando não a justiça, mas o que me favorece... isto vai me deixando cada vez menos humano. Isto vai, na verdade, nos paralisando... e vai nos colocando numa dependência (ser carregado na maca) e sem percebermos vamos perdendo a vida, e entrando numa lógica material/capitalista, e às vezes até continuando a frequentar Igreja, buscando um Deus que autentique esta minha lógica. Na verdade, estamos paralisados, humanamente falando. Podemos ser tudo – rico, patrimonialista, ter “sucesso”, “status”, etc., mas não somos humanos mais... paralisou-se a humanidade dentro de nós. Então, no encontro pessoal com Jesus, ele perdoa os pecados, e isto faz com que o que me deixava paralisado, saia e eu volte a caminhar, ou seja, volte a não mais depender da maca e passe a andar e inverter a lógica (agora eu é que carrego a maca). O dinheiro me carrega ou eu que o carrego? Uma pessoa que faz o encontro pessoal com Jesus inverte sua lógica, hierarquiza-se interiormente de outra forma, colocando em primeiro lugar o que de fato interessa a vida, e em segundo lugar o que pode ser útil a vida, e por último lugar o que atrapalha a vida (ódio, vingança, etc). O paralítico, perdoado, voltou a andar e carregou a maca que o carregava. Que eu tenha esta graça de, todas as vezes que perceber que estou sendo carregado pela maca (e pode ser tanta coisa que me carrega – hoje, por exemplo, a TV carrega muita gente...)... que eu não seja carregado por nada, mas que eu possa andar com minhas próprias pernas, que eu seja humano e que aquilo que me carregava, passe a ser carregado por mim, como sinal de “adulto livre”. Amém!


14 de janeiro de 2016
Tocar o intocável – eis o cristianism


Evangelho (Mc 1,40-45): - Um leproso aproximou-se de Jesus e, de joelhos, suplicava-lhe: «Se queres, tens o poder de purificar-me!». Jesus encheu-se de compaixão, e estendendo a mão sobre ele, o tocou, dizendo: «Eu quero, fica purificado». Imediatamente a lepra desapareceu, e ele ficou purificado. Jesus, com severidade, despediu-o e recomendou-lhe: «Não contes nada a ninguém! Mas vai mostrar-te ao sacerdote e apresenta, por tua purificação, a oferenda prescrita por Moisés. Isso lhes servirá de testemunho”. Ele, porém, assim que partiu, começou a proclamar e a divulgar muito este acontecimento, de modo que Jesus já não podia entrar, publicamente, na cidade. Ele ficava fora, em lugares desertos, mas de toda parte vinham a ele».

O Evangelho de hoje me faz lembrar a homilia do padre feita no retiro que participei na semana passada, onde era este mesmo evangelho, e ele dizia que em levítico existe um trecho que ele tem vergonha de, ao ler, dizer “palavra do senhor”, tal é a exclusão social que o texto impõe. Diz ele que o texto de levítico que fala do leproso, o trata como um pecador, que deveria se cobrir e se afastar da comunidade, e viver em lugares próprios e, quando alguém se aproximar dele, ele deveria gritar “impuro, impuro”. E mais: era considerado que a lepra que ele recebeu era um castigo de Deus por algum pecado que ele teria feito. Portanto, o leproso sofria pela doença em si, sofria por ser um impuro (imagine isto na auto-estima dele), e sofria por não poder conviver com demais pessoas. E, também era obrigado a, quando alguém se aproximar, auto-declarar-se “impuro”. Ou seja, além de sua auto-estima estar lá no fundo do poço, ainda tinha que ser público! E esta cena chamava atenção do padre, quando dizia que o leproso aproximou-se se Jesus. Ora, ou ele sabia quem era Jesus ou ele foi ousado por não aguentar mais seu sofrimento. O que chama atenção é o que Jesus faz. Jesus não somente o cura, mas Jesus o toca e o declara
“purificado”. Isto faz uma mudança na vida daquela pessoa inimaginável para os tempos de hoje. E Jesus então com isto não respeita o que consta em levítico, pois se alguém leproso nem poderia se aproximar de outra pessoa sã, muito menos alguém tocá-lo. Jesus quebra este escrito. No entanto, Jesus respeita o escrito quando fala para ele ir se aproximar aos sacerdotes, pois era assim que deveria fazer quando alguém se percebesse curado: apresentar-se a sociedade. Interessante que quem o declarava impuro, na época, era a Igreja. Temos passados também houve um bispo que declaro pecado uma pessoa portadora do vírus HIV. Continuando a homilia, para o padre esta passagem deixa claro o que é o cristianismo: tocar o intocável... fora disto, não é cristianismo. A Igreja, os cristãos, são pessoas que tratam todas as demais pessoas com dignidade, independente de sua aparência, classe social, capacidade econômica; e, fora disto, não é cristianismo. A Igreja tem a missão de proclamar o cristianismo, de proclamar Jesus, e não se auto-proclamar. A Instituição tem que estar a serviço de Deus, e não o contrário. Dizia também que, na Índia, por questões financeiras, os doentes em fases terminais eram retirados dos hospitais e depositados nas calçadas, para morrerem, visto que, como nada mais havia a ser feito, não tinham como ficar ocupando leitos, em prejuízo de outros e com gastos insuportáveis. Madre Teresa de Calcutá percebeu isto e foi tocada a fazer uma casa de acolhimento, e começou a levar para ela os doentes, em fases terminais depositados em calçadas, para dar-lhes um tratamento digno nesta fase da vida dela. Dar dignidade a pessoa, tratar com dignidade a pessoa, seja quem for, é condição sine qua non do cristianismo. Fora disto, não existe cristianismo. Esta foi a homilia, que deve servir-nos para termos como bússola da direção dos nossos comportamentos, já que nos dizemos “cristãos”.
Amém!


06 de Janeiro de 2016 

Ajoelhando-se diante dEle, abriram seus cofres...




Evangelho (Mt 2,1-12): Depois que Jesus nasceu na cidade de Belém da Judéia, na época do rei Herodes, alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, perguntando: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo». Ao saber disso, o rei Herodes ficou alarmado, assim como toda a cidade de Jerusalém. Ele reuniu todos os sumos sacerdotes e os escribas do povo, para perguntar-lhes onde o Cristo deveria nascer. Responderam: «Em Belém da Judéia, pois assim escreveu o profeta: «E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um príncipe que será o pastor do meu povo, Israel». Então Herodes chamou, em segredo, os magos e procurou saber deles a data exata em que a estrela tinha aparecido. Depois, enviou-os a Belém, dizendo: «Ide e procurai obter informações exatas sobre o menino. E, quando o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo». Depois que ouviram o rei, partiram. E a estrela que tinham visto no Oriente ia à frente deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino. Ao observarem a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande. Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, passando por outro caminho.




Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes...

Esta cena, descrita em Mateus, independente de ter acontecido ou não, é cheia de significados que podem nos trazer uma mensagem interessante.
Para mim, é significativo que os magos (não reis, e nem três; mas magos), entrem na casa de Maria de José (casa ?) e vejam o Menino recém-nascido e ajoelhem diante dele. Quem eles viram? Não viram uma criança num presépio bonito, cheio de luzes, como representamos em nossas casas, nem uma bela árvore de Natal enfeitada... imagino uma cena de muita simplicidade: um casal e um recém-nascido. Todos nós já vimos recém-nascidos e percebemos que é um "toquinho" de gente. Até falamos "que bonito... parece com fulano...". Na verdade são expressões comuns, mas não refletem a realidade, pois recém-nascido é recém-nascido - pequenas criaturas humanas que mal se comunicam com o meio externo (salvo com dor ou fome). No entanto, estes magos, ao verem uma simples criança numa simples casa, com um simples casal, o que fazem? "Ajoelham-se". Talvez aqui esteja um segredo da humanidade: "ajoelhar-se diante do simples, de uma cena que em si é pobre materialmente. Hoje ajoelhamos diante de fortunas, shoppings,
vitrines..., mas pouco ajoelhamos diante de aparências de baixo esplendor visual. E é isto que os Magos fazem: viajam tanto, procuram tanto, e não se frustram com o que vêem: "ajoelham-se". Quantas vezes vamos numa Celebração e queremos isto e mais aquilo, exigimos tanta coisa, e quanto não tem, voltamos frustrados... Raramente nos ajoelhamos para coisas e cenas simples, mas que podem nos dizer muito. Uma enorme fila para jogar numa mega sena de milhões, não é ajoelhar-se? E tantas outras cenas poderíamos lembrar aqui de como nos ajoelhamos a cenários que não nos alimenta no coração; e talvez deixemos de ajoelhar diante do que realmente importa.
E o que ocorre com os magos, após ajoelharem-se? Diz o texto: "abriram seus cofres...". O que é cofre? Cofre é um lugar difícil de abrir, que precisa saber o segredo para que o mesmo se abra. E eles descobriam o segredo para abrir seus cofres: o encontro com Jesus. Acredito eu que a maioria da humanidade passa a vida toda ajoelhando-se onde nunca deveriam se curvar e mantendo seus cofres permanentemente fechados. E assim, o cofre da solidariedade, justiça, amor, afetividade, amizade, bondade, vida plena, permanecem fechados e vivemos uma vida preocupada com o futuro, sem nunca viver o presente, tentando viver como se nunca fossemos morrer e morrendo sem nunca ter vivido. Como disse Frei Beto em uma palestra: "no jazigo de muita gente deveria estar escrito 'eis aquele que morreu sem nunca ter sido o que poderia ter sido'". Cofres fechados... O que temos fechado dentro de nós que precisamos abrir? A necessidade de abertura dos nossos corações, verdadeiros cofres do amor infinito, é de todos nós. O segredo para abri-lo é ajoelhar-se... mas não basta ajoelhar-se... é necessário ajoelhar-se diante dAquele que tem o segredo do cofre, e não diante do que nossa imaginação capitalista acredita que resolverá. Os Magos encontraram um recém-nascido e, apesar de todas as aparências contrárias, eles O adoraram, e com isto, abriram seus cofres... que Deus nos dê a sabedoria e humildade de reconhecermo-nos necessitados dEle e O busquemos, como os Magos, e que nos dê a graça de abrir-nos aos outros, ao mundo, a mim mesmo, enfim, a vida: talvez este seja o grande segredo que muitos buscam em lugares que jamais encontrarão... não está nas Jerusaléns lindas e maravilhosas... está nas grutas simples... mas que abrem nossos cofres... amém!



29 de dezembro de 2015 

Reerguer os caídos...




Evangelho (Lc 2,22-35): E quando se completaram os dias da purificação, segundo a lei de Moisés, levaram o menino a Jerusalém para apresentá-lo ao Senhor, conforme está escrito na Lei do Senhor: «Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor”. Para tanto, deviam oferecer em sacrifício um par de rolas ou dois pombinhos, como está escrito na Lei do Senhor.
Ora, em Jerusalém vivia um homem piedoso e justo, chamado Simeão, que esperava a consolação de Israel. O Espírito do Senhor estava com ele. Pelo próprio Espírito Santo, ele teve uma revelação divina de que não morreria sem ver o Ungido do Senhor. Movido pelo Espírito, foi ao templo. Quando os pais levaram o menino Jesus ao templo para cumprirem as disposições da Lei, Simeão tomou-o nos braços e louvou a Deus, dizendo: «Agora, Senhor, segundo a tua promessa, deixas teu servo ir em paz, porque meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória de Israel, teu povo». O pai e a mãe ficavam admirados com aquilo que diziam do menino. Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe: «Este menino será causa de queda e de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição — e a ti, uma espada traspassará tua alma! — e assim serão revelados os pensamentos de muitos corações».




«Este menino será causa de queda e de reerguimento para muitos..."

Interessante esta frase colocada por Lucas na boca de Simeão. Maria ouve e talvez não entenda o que queria dizer isto: "alguns serão reerguidos e outros terão queda?".
Se a palavra usada é "reerguido" é porque ele já estava numa posição e caiu e agora vai se "reerguer". Não é elevação, mas reerguimento. Elevação é quando alguém está na posição correta e sobe; reerguimento é quando a pessoa que estava na posição correta, por algum motivo caiu, e agora vai ser reerguida, ou seja, recolocada na posição original.
Acredito eu que o evangelista esteja dizendo que Deus, na pessoa de Jesus, vem para restabelecer as pessoas na posição que ele nunca deveriam ter saído: a posição de ser "ser humano", ser cidadão de direitos e deveres, não ser subalterno ou escravo de nada, de ninguém. Com certeza,na época de
Jesus, havia poderes civis, políticos e eclesiásticos que oprimiam o povo mais simples, mais pobre, menos culto, imputando-lhes uma vida pequena, como se fossem seres inferiores à outros. Tanto que as doenças eram vistas como "castigo de Deus por pecados cometidos", e as transgressões às mais de 400 regras existentes pela Igreja, também tornava as pessoas menores. E, como não sabiam ler, ainda que quisessem cumprir as regras, lhes era impossível, pois não tinham o acesso às mesmas, como os outros (alguns) tinham. A escassez financeira também fazia das pessoas seres inferiores a outros. E, talvez Simeão venha dizer: "estas pessoas que foram rebaixadas, serão reerguidas, pois o mundo não foi feito por Deus para que alguns estejam por cima de outros... - portanto, serão reerguidas!" .
E, por outro lado, Simeão também diz: "queda de muitos". Queda é voltar a ser o que era, cair de um patamar mais elevado para ficar no patamar que lhe é devido.
Entre tantos trechos do evangelho que esta frase é real, lembro-me daquela em que Jesus descendo do barco para uma comunidade, um homem "possuído pelo demônio, que vivia entre os túmulos, vem até Jesus, que expulsa os demônios, manda-os para os porcos (que morrem) e o homem fica são e a comunidade pede que Jesus vá embora". Esta cena é típida de reerguimento de uns e queda de outros. O "endemoninhado" foi reerguido à sua posição de ser humano - voltou a ser normal... Mas, aqueles que viviam da exploração, mantendo porcos (especulação) a custas de pobreza alheia, estes tiveram queda (literalmente, os porcos caíram...). A queda dos porcos era a quebra do sistema econômico opressor e excludente daquela comunidade que vivia bem com a economia apresentando bons números (porcos em grande quantidade), ainda que tivesse pessoas vivendo nos túmulos (como mortos). Aqui, nesta cena, como em tantas outras, Jesus reergue um ser humano e provoca a queda de alguns privilegiados.
Bem, o tem passou e estamos em 2015, quase 2016. Aos cristãos cabe a tarefa de continuar o que Jesus fez. E a realidade sócio/economica/política/eclesial de hoje não nos parece muito diferente da do tempo de Jesus. O problema não é que nem sempre nós cristãos não fazemos o que Jesus fez... o problema é maior quando nós, ditos cristãos, somos os protagonistas de um sistema injusto, e, pior, quando estamos "mais alto" e jamais permitimos nossa queda para o reerguimento de outros... isto pode ser tudo, menos cristianismo. Cristianismo eleva os que estão abaixo, mas para que isto possa ocorrer, não bastam discursos,
homilias e pregações... há necessidade de queda de alguns... e nem sempre estamos dispostos a isto...

Que Deus nos abra os olhos, como abriu os de Simeão, para vermos o que precisamos enxergar e fazermos o que precisa ser feito - só assim podemos dizer que o "reino está no meio de nós" - amém"


28 de dezembro de 2015 


Todos os dias eu recebo um comentário do evangelho, do site "evangeli.net". O de hoje me chamou atenção e partilho com todos.

A saída noturna de José - decisões que nos interpelam (evangeli.net)



Evangelho (Mt 2,13-18): Depois que os magos se retiraram, o anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo». José levantou-se, de noite, com o menino e a mãe, e retirou-se para o Egito; e lá ficou até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: «Do Egito chamei o meu filho». Quando Herodes percebeu que os magos o tinham enganado, ficou furioso. Mandou matar todos os meninos de Belém e de todo o território vizinho, de dois anos para baixo, de acordo com o tempo indicado pelos magos. Assim se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias: «Ouviu-se um grito em Ramá, choro e grande lamento: é Raquel que chora seus filhos e não quer ser consolada, pois não existem mais».

Comentário: Rev. D. Joan Pere PULIDO i Gutiérrez (Sant Feliu de Llobregat, Espanha)«José levantou-se, de noite, com o menino e a mãe, e retirou-se para o Egito »
Fonte: evangeli.net

Hoje celebramos a festa dos Santos Inocentes, mártires. Introduzidos nas celebrações de Natal, não podemos ignorar a mensagem que a liturgia quer nos transmitir para definir, ainda mais, a Boa Nova do nascimento de Jesus, com dois acentos bem claros.
Em primeiro lugar, a predisposição de São José no desígnio salvador de Deus, aceitando sua vontade. E, por sua vez, o mal, a injustiça que freqüentemente encontramos em nossa vida, concretizada na morte martirial das crianças Inocentes. Tudo isso pede-nos uma atitude e uma resposta pessoal e social. São José nos oferece um testemunho bem claro de resposta decidida perante o chamado de Deus. Nele nos sentimos identificados quando devemos tomar decisões nos momentos difíceis de nossa vida e de nossa fé: «Levantou-se de noite, com o menino e a mãe, e retirou-se para Egito» (Mt 2,14). Nossa fé em Deus implica a nossa vida.
Faz que nos levantemos, quer dizer faz nos estar atentos às coisas que acontecem em nosso redor, porque —freqüentemente— é o lugar onde Deus fala.
Faz nos tomar ao Menino com sua mãe, quer dizer, Deus faz se nos próximo, companheiro de caminho, reforçando a nossa fé, esperança e caridade.
E faz nos sair de noite para Egito, isto é, convida-nos a não ter medo perante nossa própria vida, que com freqüência enche-se de noites difíceis de iluminar.
Estas crianças mártires, também hoje, têm nomes concretos em crianças, jovens, casais, pessoas idosas, imigrantes, doentes... que pedem a resposta de nossa caridade.
Assim nos o diz João Paulo II: «Em efeito, são muitas, em nosso tempo, as necessidades que interpelam à sensibilidade cristã.
É hora de uma nova imaginação da caridade, que se desdobre não só na eficácia da ajuda emprestada, mas também na capacidade de nos fazer próximos e solidários com o que sofre». Que a nova luz, clara e forte de Deus feito Menino encha nossas vidas e consolide nossa fé, nossa esperança e nossa caridade.



24 de novembro de 2015 

Partilho a reflexão que recebo mensalmente do Pe.Thomas, feita do evangelho da liturgia católica de domingo passado, onde trazia Jesus como Rei do Universo.
Uma reflexão muito interessante e questionadora.

JESUS CRISTO - REI DO UNIVERSO

FESTA DO NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO (22.11.15) Jo 18, 33b-37

“Todo aquele que é da verdade, escuta a minha voz”

Na Igreja Católica, hoje, último domingo do Ano Litúrgico, celebra-se a festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. A festa foi estabelecida na época dos governos totalitários nazistas, fascistas e comunistas, nos anos antes da Segunda Guerra, para enfatizar que o único poder absoluto é de Deus. Nos dias de hoje, em que milhões padecem as consequências de um novo tipo de totalitarismo disfarçado, o do poder econômico inescrupuloso, torna-se atual a inspiração original da festa – que Deus é o único Absoluto. Em um mundo que não ateu mas idolátrico, pois presta culto ao lucro, a festa de hoje nos desafia para que revejamos as nossas atitudes e ações concretas – para descobrir o que é para nós, na verdade, o valor absoluto das nossas vidas.
O texto é tirado da paixão segundo João – o diálogo entre Jesus e Pilatos sobre a verdadeira identidade de Jesus. Com a ironia que lhe é típico, João faz com que Pilatos – o representante do poder absoluto da época, o Império Romano - apresenta Jesus como Rei, o que ele é na verdade, mas não da maneira que Pilatos pudesse entender. O Reino de Jesus é o oposto do Reino do Império Romano – não é opressor, nem injusto, nem idolátrico, mas o Reino da justiça, fraternidade, solidariedade e partilha, o Reino do Deus da Vida.
É exatamente por pregar e semear este Reino que Jesus deve morrer – aliás não morrer mas ser matado, o que é diferente. Pilatos demonstra isso quando ele deixa claro quem entregou Jesus, pedindo a sua morte. Não foi o povo, mas os sumos sacerdotes que o entregaram (v. 35). É importante entender o que isso significa, pois se Jesus foi matado, houve
algum motivo e houve alguém que o matasse. Os sumos sacerdotes eram, no tempo de Jesus, todos nomeados pelos romanos, dentro do partido dos saduceus, o partido da elite jerosalemita, donos de terras e do comércio, e chefes do Templo. O Templo funcionava como “Banco Central”, centro de arrecadação de impostos e lugar de câmbio monetário, uma vez que não se aceitava nele a moeda corrente. Jesus, portanto, foi assassinado pelo poder político, econômico e religioso, coniventes com o poder imperialista, representado por Pilatos. Pois o Reino de Deus se opõe frontalmente a qualquer reino opressor, como era o de Roma.

A realidade vivida por Jesus continua hoje. O seguimento de Jesus, na construção dum Reino de justiça e paz, do shalôm de Deus, necessariamente vai entrar em conflito com os reinos que dependem da exploração e da injustiça. Normalmente, esses poderes primeiro vão tentar cooptar a igreja, para que, em lugar de ser voz profética diante das injustiças, torne-se porta-voz dos valores desses reinos. E não faltarão incentivos, monetários e outros, para que as igrejas caiem nesta cilada. Por isso, como nos advertiram os textos nos últimos domingos, é necessário que fiquemos sempre vigilantes para verificarmos se a nossa vida prática está mais de acordo com o Reino de Deus ou o reino de Pilatos.
Para João, Jesus provoca a grande crise da história. Diante da verdade, que é Ele, todos têm que se posicionar. Ele, como todo profeta, não causa a divisão, mas desmascara a divisão que existe dentro da sociedade, a divisão entre o bem e o mal, entre um projeto da morte e um projeto da vida, uma divisão que permeia todos os elementos da sociedade. Diante dele, não há lugar para meio-termo - todos têm que optar. Por isso, a nossa festa de hoje, longe de ser algo triunfalista, nos desafia para que façamos um exame de consciência – tanto individual como eclesial e comunitário - para verificar se o nosso Rei é realmente Jesus, ou se, mesmo duma maneira disfarçada, continua sendo Pilatos!


4 de novembro de 2015 
Hierarquia do amor


Evangelho (Lc 14,25ss): Grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-se, ele lhes disse: Se alguém vem a mim, mas não me prefere a seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs, e até à sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega sua cruz e não caminha após mim, não pode ser meu discípulo.


Existem trechos do evangelho que são perigosos para um leigo interpretar exegeticamente e também perigosos para teólogos genéricos pronunciarem. Pode, à partir deste trecho, termos mensagens, na minha opinião, equivocadas, a respeito de desprezo pela vida, pelas pessoas, etc., levando uma pessoa a um fanatismo que não seria o objetivo deste Evangelho. Quantas pessoas não deixam de viver sua vida para se entregarem a atividades na Igreja, e ficam sem tempo para sua família, amigos, prazeres, etc.. O tempo passará e depois, caso "a ficha caia", será tarde demais. Frei Vittório disse na semana passada para mim: "Deus perdoa sempre - os homens de vez em quando; mas a natureza, NUNCA". Ou seja, o que deixou de ser feito no seu devido tempo não tem perdão. O tempo passa e não há reparos. Quem não viu seus filhos crescerem, quem não beijou seus pais, quem não quem não brincou com as crianças, quem não estudou nas devidas épocas, quem deixou o cavalo passar, não tem como retornar, refazer, reconstituir... a natureza nada perdoa - fez, está feito - ou, não fez, não está feito! Daí que este trecho do evangelho, se mal interpretado, pode dar problemas graves a muitas pessoas. Claro que, se o passado não pode ser mudado, um novo futuro pode ser construído, à partir do aprendizado do passado - isto sim - e Deus renova todas as coisas - neste sentido sim. Portanto, neste momento que nos deparamos com este trecho do evangelho, duas coisas acredito que tenho que pedir, como graça: a humildade de me ver impotente para compreender por si o que o texto me diz e sabedoria para, também pela graça, apreciá-lo dentro do que seria o objetivo de Jesus. De qualquer forma, pensando que os
seguidores de Jesus caminhavam com ele com certa ilusão que Jesus seria um Rei e que seus seguidores seriam seus ministros, pode ser que Jesus teria falado o que falou, para que se desfizesse na cabeça dos seguidores este pensamento de poder dominante, com o objetivo de deixar claro que o Reino é um poder de serviço. Não é dominar, mas servir. E, considerando que a natureza humana busca tudo para si (pecado original), pode ser que Jesus estivesse propondo uma outra forma de viver (graça original) onde cada um abrace o essencial, o absoluto, e viva de forma relativo com o que é relativo. Pode ser. De qualquer forma, não acredito que Jesus estivesse falando no sentido negativo de não amar amigos, pais e a própria vida. Talvez o que Ele tenha nos ensinado é que, amando primeiramente à Ele, todo o amor humano se redimensiona, amplia, dilata e poderemos amar a todos, com um amor sem egoísmo, sem desejo de reter o objeto amado, com ampla liberdade. Amor perfeito impõe liberdade, e isto não é fácil de praticar, apesar de ser fácil de falar. Liberdade para que o amado/a tenha a última palavra dele/a e não a minha. Um amor assim não é fácil, pois nosso amor tende a querer exclusividade, preferências, etc.. E os pais, com relação aos filhos, mais difícil ainda: saber compreender até onde vai minha linha de obrigação de interferência na vida do filho, sem ser omisso e onde cruza a linha da liberdade que tenho que respeitar meu filho, sem fazer dele minha marionete. Talvez possamos refletir neste texto a necessidade que temos de dobrarmos nossos joelhos frente a Deus e dizer-Lhe com humildade: "eu não sei amar - ensina-me". E, pela graça, possamos amar de forma plena, humana e divina, e hierarquizarmos interiormente nossos valores - isto talvez seja a conquista da liberdade humana, que nos dá sentido à vida e a própria existência. Se for isto, que Deus me conceda esta graça - Amém!


22 de outubro de 2015 

Jesus veio trazer espada e fogo, e não o conformismo.


Evangelho (Lc 12,49-53): Naquele tempo, o Senhor disse aos seus discípulos: O servo que, conhecendo a vontade do senhor, nada preparou, nem agiu conforme a sua vontade, será chicoteado muitas vezes. O servo, porém, que não conhecendo essa vontade fez coisas que merecem castigo, será chicoteado poucas vezes. Portanto, todo aquele a quem muito foi dado, muito lhe será pedido; a quem muito foi confiado, dele será exigido muito mais! Fogo eu vim lançar sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso! Um batismo eu devo receber, e como estou ansioso até que isto se cumpra! Pensais que eu vim trazer a paz à terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer a divisão. Pois daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas e duas contra três; ficarão divididos: pai contra filho e filho contra pai; mãe contra filha e filha contra mãe; sogra conta nora e nora contra sogra.


Para mim este Evangelho contrasta contra todos aqueles que insistem em apresentar um Jesus “bonzinho”, um modelo que não existiu, mas que seria interessante que as pessoas acreditassem que existira, para fins de manipulação e controle social. Desta forma, é interessante para alguns que haja uma sociedade onde os pobres, os oprimidos e os excluídos acreditem que serem cordeiros, pacientes, aceitarem a humilhação, a exploração (sendo que o que importa é ser bonzinho, agradar os que nos agridem, não protestar), creiam que diante dos sofrimentos terrenos ganharão um céu eterno. Enfim, todas estas teologias capitalistas (que o Papa Francisco tão bem combate e denuncia), não resistem neste evangelho de Jesus que fala claramente que veio trazer divisões, fogo, desentendimentos..., e numa sociedade “acalmada” pela anestesia de um ópio de uma religiosidade medíocre, ao conhecer verdadeiramente Jesus, não viverá mais em paz, pois os do andar de baixo perceberão que tem direito ao andar de cima; os da senzala percebem que tem direito à Casa Grande; os empobrecidos perceberão que tem direito ao bem produzido, e que o mundo não foi feito para que alguns tenham tudo e a maioria tenha pouco. No entanto, enquanto este Evangelho não for proclamado, não chegar da forma tal como foi concebido, a sociedade permanecerá em paz... numa paz de cemitério, numa paz não de presença de amor e fraternidade, mas de ausência de guerra... ausência momentânea, pois um dia a represa estoura, e se o silêncio permanecer, as pedras gritarão. O Evangelho não é conciliável com o engano, a manipulação, a mentira, a injustiça, a exploração...
Talvez por isso se tenham produzido “outros evangelhos”, cujos anunciantes (alguns padres, pastores e lideranças religiosas e políticas) apesar de pregarem a escassez, o sacrifício, a dificuldade, vivem nos maiores castelos luxuosos de incontáveis bens materiais. Não ficará pedra sobre pedra, no dia em que o Evangelho for descoberto tal como Jesus o proferiu. E, neste dia, cantaremos a libertação. Amém!

2 de novembro de 2015 
Dia de Todos os Santos - reflexão Pe. Thomas



Evangelho (Mt 5,1-12a): Naquele tempo, Vendo as multidões, Jesus subiu à montanha e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e ele começou a ensinar: Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Felizes os que choram, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque receberão a terra em herança. Felizes os que têm fome e sede da justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Felizes sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus. Pois foi deste modo que perseguiram os profetas que vieram antes de vós.



PE.THOMAS
“Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa nos céus”

Esses primeiros versículos de Cap. 5 servem ao mesmo tempo como introdução e resumo do Sermão da Montanha. Nos apresentam um retrato das qualidades do verdadeiro discípulo(a), daquele que, no seguimento de Jesus, procura viver os valores do Reino de Deus. Basta uma leitura superficial para ver que a proposta de Jesus está na contramão da proposta da sociedade vigente – tanta a do tempo de Jesus, como de hoje. Embora de uma forma menos contundente do que Lucas (cf. Lc 6, 20-26), o texto de Mateus deixa claro que o seguimento de Jesus exige uma mudança radical na nossa maneira de pensar e viver.

Um primeiro elemento que chama a atenção é o fato de que a primeira e a última bem-aventurança estão com o verbo no presente – o Reino já é dos pobres em espírito e dos perseguidos por causa da justiça – na verdade, as mesmas pessoas, pois os que buscam a justiça são “pobres em espírito”. Eles já vivem a dependência total de Deus, pois só com Ele esses valores podem vigorar. Mas quem luta pela justiça será perseguido – e quem não se empenha nessa luta jamais poderá ser “pobre em espírito”.
As outras bem-aventuranças traçam as características de quem é pobre em espírito. É aflito, por causa das injustiças e do sofrimento dos outros, causados por uma sociedade materialista e consumista. É manso, não no sentido de ser passivo, mas porque não é movido pelo ódio e pela violência que marcam a ganância e a truculência dos que dominam, “amansando” os pobres e fracos.
Tem fome da justiça do Reino, não a dos homens, que tantas vezes não passa de uma legitimação oficial da exploração e privilégio. Tem coração compassivo, como o próprio Pai do Céu, e é “puro de coração”, sem ídolos e falsos valores. Promove a paz, não “a paz que o mundo dá” (cf. Jo 14, 27), mas o “shalom”, a paz que nasce do projeto de Deus, quando existe a justiça do Reino. Cumpre lembrar a frase famosa do Papa Paulo VI: “Justiça é o novo nome da paz!”
Mas Jesus deixa claro qual é a consequência de assumir esse projeto de vida – a perseguição! Pois um sistema baseado em valores antievangélicos não pode aguentar quem a contesta e questiona, algo que a história dos mártires do nosso continente testemunha muita bem. Qualquer igreja cristã que é bem aceita e elogiada pelo sistema hegemônica precisaria se questionar sobre a sua fidelidade à vivência das bem-aventuranças do Sermão da Montanha. O martírio, (que na sua raiz significa “testemunho”) é a pedra-de-toque dessa fidelidade. O martírio nem sempre se dá pela morte física, mas muitas vezes pela morte lenta ao egoísmo e às ideologias de dominação, em uma vivência fiel da luta pela justiça do Reino de Deus. É a concretização da declaração de Jesus: “quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, e me siga” (Mt 16,24)
A festa de hoje não é tanto para recordamos os nomes e façanhas dos grandes Santos/as conhecidos/as mas mais para que lembremos de tantos milhões de pessoas, de todas as raças, culturas e religiões, que viviam a santidade no anonimato das suas vidas diárias, vivenda na fidelidade aos valores do Reino. O grande milagre que mostra a santidade é a vivência fiel em busca do bem, na dedicação à família, à comunidade e à sociedade, sempre procurando cumprir a vontade de Deus, seja qual for a nossa experiência dele. Se examinarmos as nossas vidas veremos que já
conhecíamos muitas pessoas santas, cujos nomes jamais serão conhecidos mundialmente, mas que serviram como exemplo dos verdadeiros valores evangélicos para nós. Que a celebração nos anime na busca da vivência fiel dos valores do Evangelho, não em grandes milagres, mas no dia a dia da nossa vocação, seja ela o que for

19 de outubro de 2015 

Hoje


Evangelho (Lc 12,13-21): Alguém do meio da multidão disse a Jesus: Mestre, diz ao meu irmão que reparta a herança comigo. Ele respondeu: Homem, quem me encarregou de ser juiz ou árbitro entre vós?. E disse-lhes: Atenção! Guardai-vos de todo tipo de ganância, pois mesmo que se tenha muitas coisas, a vida não consiste na abundância de bens. E contou-lhes uma parábola: A terra de um homem rico deu uma grande colheita. Ele pensava consigo mesmo: Que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita. Então resolveu: Já sei o que fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir maiores; neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, goza a vida! Mas Deus lhe diz: Tolo! Ainda nesta noite, tua vida te será retirada. E para quem ficará o que acumulaste? Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não se torna rico diante de Deus.


...descansa, come, bebe, goza a vida...
Parece-me que este é uma orientação de vida que Jesus dá para os seres humanos: descansar... alimentar-se... beber... gozar a vida. Gozar a vida em todos os sentidos... curtir amizades, família, alegrias, confraternizações, etc.. E, parece-me tudo isto muito bom. O que Jesus chama atenção é que tudo isto tem que ser feito JÁ! E nós, insensatos, muitas vezes guardamos isto para um “futuro “ que não sabemos quando acontecerá. E mais: este futuro pode não chegar, como não chegou na parábola. Deixar para amanhã o beijo nos pais, o carinho nos filhos, o curtir com os amigos, a visita ao companheiro, a convivência em passeios, o descansar adequadamente, o alimentar-se dignamente, o celebrar profundamente, etc., etc., pode ser tarde. Muitos que deixaram isto para “depois” este “depois” nunca ocorreu. E, nesta parábola, o homem já era rico, poderia fazer tudo isto; no entanto, visto que sua colheita foi muito boa, resolveu então construir silos e mais silos, para encher de coisas e mais coisas, para depois gozar a vida... mas, não deu tempo... após os silos estarem cheios, a vida dele terminou, e os silos cheios ficaram para outras pessoas, e de nada adiantou à ele.
A grandeza da vida é para já. Não é para amanhã.
Por isso, os bens materiais são necessários sim, mas não podem ser condições imprescindíveis para eu curtir o que já posso curtir hoje. Não podem me impedir de viver o que já posso viver hoje. Não podem ser obstáculo para desfocar-me do que possuo e tenho hoje, do que posso e devo fazer hoje.
No Calvário, Jesus disse ao bom ladrão: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. É interessante a palavra “hoje”. “Hoje” a salvação entrou nesta casa, disse à Zaqueu. O hoje para Jesus é hoje mesmo.... Hoje... porque amanhã, pode ser tarde demais...


15 de outubro de 2015 
Construir túmulos aos profetas

Evangelho (Lc 11,47-54): Naquele tempo, o Senhor disse: «Ai de vós, porque construís os túmulos dos profetas! No entanto, foram vossos pais que os mataram. Com isso, sois testemunhas e aprovais as ações de vossos pais, pois eles mataram os profetas e vós construís os túmulos. É por isso que a sabedoria de Deus afirmou: Eu lhes enviarei profetas e apóstolos, e a alguns, eles matarão ou perseguirão; por isso se pedirá conta a esta geração do sangue de todos os profetas derramado desde a criação do mundo, desde o sangue de Abel até o sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar e o Santuário. Sim, eu vos digo: esta geração terá de prestar conta disso. Ai de vós, doutores da Lei, porque ficastes com a chave da ciência!: vós mesmos não entrastes, e ainda impedistes os que queriam entrar». Quando Jesus saiu de lá, os escribas e os fariseus começaram a importuná-lo e a provocá-lo em muitos pontos, armando ciladas para apanhá-lo em suas próprias palavras.

Comentário: Rev. D. Pedro-José YNARAJA i Díaz (El Montanyà, Barcelona, Espanha)
«Construís os túmulos dos profetas! No entanto, foram vossos pais que os mataram»
Hoje o Evangelho nos fala do sentido, aceitação e trato dado aos profetas: «Eu lhes enviarei profetas e apóstolos, e a alguns, eles matarão ou perseguirão» (Lc 11,49). São pessoas de diferente condição social ou religiosa, que tem recebido a mensagem divina e tem se impregnado dela; impulsionadas pelo Espírito, o expressam com signos ou palavras compreensíveis para seu tempo. É uma mensagem transmitida através de discursos, nunca lisonjeiros, ou ações, quase sempre difíceis de aceitar. Uma característica da profecia é sua incomodidade. O dom resulta incômodo para aquele que o recebe, o esfolia internamente e, é molesto para seu entorno, que hoje, graças à Internet ou aos satélites, pode se estender ao mundo todo. Os contemporâneos do profeta pretendem o condenar ao silêncio, o
caluniam, o desacreditam, assim até que morre. Chega então o momento de lhe erigir o sepulcro e, de lhe organizar homenagens, quando já não incomoda. Não faltam atualmente profetas que gozam de fama universal. A Madre Teresa, João XXIII, Monsenhor Romero... lembramo-nos daquilo que nos reclamavam e nos exigiam? Aplicamos o que nos fizeram ver? A nossa geração se lhe pedirá contas sob a capa de ozônio que destruiu, da desertificação que nossa dilapidação de água causou, mas também do ostracismo que temos reduzido aos nossos profetas Ainda há pessoas que se reservam para elas o direito de saber em exclusiva, que o compartilham “no melhor dos casos” com os seus, com aqueles que lhe permitem continuar no colo dos seus sucessos e da fama. Pessoas que fecham o passo aos que tentam entrar nos âmbitos do conhecimento, não seja que talvez saibam tanto quanto eles e os ultrapassem: «Ai de vós, doutores da Lei, porque ficastes com a chave da ciência! Vós mesmos não entrastes, e ainda impedistes os que queriam entrar». Agora, como nos tempos de Jesus, muitos analisam frases e estudam textos para desacreditar aos que incomodam com suas palavras: É esse nosso agir? «Não há nada mais perigoso que julgar as coisas de Deus com os discursos humanos» (São João Crisóstomo).


30 de setembro de 2015 

Por onde mandares, eu irei


Evangelho (Lc 9,57-62): Enquanto estavam a caminho, alguém disse a Jesus: «Eu te seguirei aonde quer que tu vás». Jesus respondeu: «As raposas têm tocas e os pássaros do céu têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça». Então disse a outro: «Segue-me». Este respondeu: «Permite-me primeiro ir enterrar meu pai». Jesus respondeu: «Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai e anuncia o Reino de Deus». Um outro ainda lhe disse: «Eu te seguirei, Senhor, mas deixa-me primeiro despedir-me dos de minha casa». Jesus, porém, respondeu-lhe: «Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deus».

O que leva uma pessoa dizer a outra: “eu e seguirei, onde quer que tú vás”? Para uma pessoa falar isto a outra, há necessidade de algumas coisas terem ocorrido, e não são difíceis de imaginar. Primeiro que Jesus deve ter conquistado corações e mentes, pelo seu jeito, forma, e sobretudo, coerência entre o que fala e o que faz. Jesus despertou uma liderança que envolve os liderados, que conquista as pessoas, não pelo medo ou coerção, mas pela liberdade de cada um optar por aquilo que ele acredita. Portanto, Jesus é uma pessoa que passou credibilidade humana. A pessoa que disse que queria segui-lo para ir onde quer que Ele fosse, é uma pessoa humana comum, com desejo humano de fazer algo que dê sentido à vida dela; e encontrou, em Jesus, o sentido para sua caminhada. Vale a pena deixar tudo, alterar seus projetos e valores, para seguir aquele Homem. Hoje, quantos cristãos atraem seguidores? Há uma carência de lideranças, pessoas que despertem no outro o desejo de segui-los, que geram expectativa de uma nova vida. Hoje, muitas pessoas ao dizerem que querem seguir alguém, querem saber o que vão ganhar, o que vão receber. Também temos aí a mesquinhez e egoísmo de muitos que dizem querer seguir um caminho, mas querem antes saber o que receberão em troca para sua vantagem pessoal. Portanto, temos ausência de lideranças que encantam outras pessoas, e ausência de pessoas que se deixam encantar por motivos nobres, e não materiais. Mas, para representar este segundo grupo de pessoas que até dizem topar uma proposta, desde que algumas prévias condições materiais sejam resolvidas, o Evangelho narra duas outras experiências: a de uma pessoa que recebe o convite de Jesus e diz que antes tem quer ir enterrar o seu pai e o de outro que disse que quer segui-Lo, mas antes quer despedir dos de sua casa. Qual o significado de “ir enterrar o pai”. Pai pode ser aquele que manda nele, e, neste caso, se ele quer ir enterrá-lo, é porque está morto. Portanto, existe um “sem vida “ que manda na vida daquela pessoa. E disse que quer ir sepultá-lo. Já deveria ter sepultado. Um morto que manda em mim não pode me permitir liberdade, abraço de nobres valores, abertura ao próximo. “Deixa-me primeiro enterrar meu pai” –
hoje o que nos impede de um seguimento radical de Jesus? Qual é o “pai morto” que eu ainda não enterrei? E, neste campo de reflexão, existem muitos pais mortos que ainda não foram enterrados. Pode ser uma frustração que ainda persiste na minha vida; pode ser uma preocupação excessiva que me domina; pode ser um problema de perdão não resolvido; pode ser uma confusão interna que não me acalma... enfim, pais mortos que são verdadeiros pesos que nos prendem, nos fazem caminhar em marcha lenta, quando fomos feitos para uma velocidade maior. Preocupações com coisas pequenas, falta de superação, ausência de dedicação... pais mortos... já deveriam estar enterrados faz tempo. E Jesus fala: “deixe os mortos enterrarem seus mortos”. Ou seja, quem tem coisa morta não enterrada, também está morto. E muita gente está morta, sem saber, apesar do coração ainda bater. Gente morta para uma esperança, morta para uma nova vida, morta porque está ocupada com morto. A vida humana é uma só, e tem limite de tempo, e é pouco. E o tempo é igual para todos. Portanto, ficar focado em coisas mortas, com certeza, também me matará. Daí que Jesus fala “deixe os mortos enterrarem seus mortos...”. No segundo episódio deste evangelho, a pessoa disse que quer primeiro ir despedir dos de sua casa. Não vou imaginar um conjunto de familiares que despedem alguém quando este alguém vai para um lugar longe ou viagem, etc.. Vou imagem o que são estes “de sua casa”? Pensando em casa como cada um de nós, o que, dentro daquela pessoa, precisaria ainda ser despedida? Por que não os despediu já? Quanta coisa parada, morta, pesando dentro da pessoa, e ainda não os despediu? A pessoa, neste caso, percebe que tem que ir despedir “dos de sua casa”. E Jesus fala “quem põe a mão no arado e olha para trás, não consegue me seguir, não está apto”. O cristianismo é uma proposta de uma vida plena, que não admite presença de interferências materiais ou não, que segurem o ser humano. Uma pessoa que está cheio de coisas para serem despedidas, não está apto ao Reino. Daí nos remete ao primeiro que chegou até Jesus “vou onde Tú fores...”. Este já não tem nada morto para ser enterrado, e nada para ser despedido – já enterrou o que tinha que ser enterrado e está livre para uma nova vida. Portanto, tentar unir valores antagônicos para fazer um seguimento, não é possível. E, cada um tem sua liberdade de escolha. Ao escolher o caminho, definimos o ponto que queremos chegar. Que Deus nos ilumine e nos dê sabedoria para fazermos uma caminhada onde nada morto se impõe a mim e dentro da minha casa (minha vida) nada há que precise ficar me despedindo. E, de coração livre, possa entregar-me ao Grande Amor, para preencher-me dEle e quem saber dizer “vou onde Tú queres que eu vá” – Amém!


29 de setembro de 2015 
Antes que viesses até a Mim, Eu já o procurava


Evangelho (Jn 1,47-ss): Naquele tempo, Jesus viu Natanael que vinha ao seu encontro e declarou a respeito dele: Este é um verdadeiro israelita, no qual não há falsidade! Natanael disse-lhe: De onde me conheces? Jesus respondeu: Antes que Filipe te chamasse, quando estavas debaixo da figueira, eu te vi.


Jesus viu Natanael que vinha ao seu encontro e declarou a respeito dele: Este é um verdadeiro israelita, no qual não há falsidade! Natanael disse-lhe: De onde me conheces? Jesus respondeu: Antes que Filipe te chamasse, quando estavas debaixo da figueira, eu te vi.

Neste pequeno trecho, o verbo ver aparece duas vezes. No início, diz que Jesus VIU Natanael que vinha ao seu encontro; e ao final Jesus diz que quando ele estava debaixo da figueira Ele o VIU.
Jesus fala: “antes que Filipe te chamasse, quando estavas debaixo da figueira, Eu e Vi”.
Realmente uma pessoa para conhecer o Amor, conhecer Deus, muitas vezes precisa ser chamado por alguém. Estes “alguéns” que nos chamam, nos conduzem, nos levam a conhecer o Pai, são verdadeiros anjos que nos abrem caminhos, nos apresentam caminhos, mudam nossas vidas; são as chamadas “figuras de transição” – pessoas que, tendo passado em nossa vida, transforma-nos. No entanto, mesmo com a importância destes “anjos” na nossa vida, Jesus fala “antes que Filipe (o anjo dele, neste caso) te chamasse, Eu já o tinha visto”. Ou seja, não obstante a essencial ação do anjo na nossa vida (neste caso Filipe, no nosso caso pode ser um padre, um catequista, um professor, um amigo, um familiar, um pobre, enfim, alguém que por nós passou e mudou a nossa vida), mas como estava dizendo, não obstante a essencial ação deste(s) anjo(s), Jesus fala que antes já tinha visto. Antes já tinha prestado atenção em mim. Antes já tinha seu foco na minha pessoa. Antes já me observava amorosamente. No caso de Natanael, Jesus fala “debaixo da figueira”. Interessante que Jesus não fala “na sinagoga, na Igreja, no Templo”, lugares onde se convencionou a achar que são os únicos
lugares de encontro com Deus. Não! Jesus fala que via Natanael debaixo de uma figueira, num momento “normal” de sua vida, num ponto cotidiano da história daquele homem. Como hoje, Jesus também pode nos dizer que nos vê no trabalho, nos estudos, no sono, num passeio, num leito de dor, num momento de tristeza, num momento de alegria, num baile, numa viagem, num momento mais cotidiano e corriqueiro da minha vida. Em qualquer situação da minha história pessoal, Jesus pode estar me vendo, me observando, não como na catequese antiga, que se pensava que Deus fazia isto para anotar num caderninho meus erros para me cobrar no juízo final; mas como alguém apaixonado por outro que observa o outro, fita o olhar no amado, pensa no amado, tem sua atenção no amado, independente do amado perceber ou não. Até que um dia, alguém toca no nosso braço e diz “você ainda não percebeu que aquela pessoa está em atenção profunda contigo?” Ou não foi assim em muitas vezes o início de um relacionamento amoroso entre duas pessoas? Quantas vezes alguém precisou dar um “toque” no outro(a) para que este outro(a) percebesse que alguém estava interessado nele(a)? É um relacionamento humano amoroso normal, que compreendemos muito bem; pois também temos que perceber um relacionamento amoroso entre Alguém que nos ama e a mim. Neste caso, foi Filipe quem deu um “toque” a Natanael, e Natanael foi ao encontro do Amado, e ouviu dele “antes que você me procurasse, eu já o procurava, já tinha minha afeição à você”. Também hoje, podemos ter certeza que ouviremos do Pai “antes que você me procurasse, eu já o procurava ansiosamente... debaixo da figueira, quando estava estudando... quando estava trabalhando... quando estavas triste...”, enfim, no seu dia a dia, que, por mais simples e rotineiro que possa ser, sempre serão pontos de encontro com o Amor, com o Pai. Nosso dia a dia, podem ser (e são) altares de encontros entre um Deus que nos ama e um ser humano desejoso de amor. No evangelho fala-se em figueira... cada um de nós temos nossas figueiras, nossos lugares que parecem simples, e no entanto, são lugares e momentos onde Deus continua a nos procurar, nos olhar, nos afeiçoar.
Que eu tenha sensibilidade de perceber este Amor e ter esta experiência de ouvir dEle: “antes... Eu já o procurava... vamos!”.


27 de setembro de 2015 
Abrir mão do essencial para alcançar o fundamental



Evangelho (Mc 9,38-43.45.47-48): João disse a Jesus: Mestre, vimos alguém expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não andava conosco. Jesus, porém, disse: Não o proibais, pois ninguém que faz milagres em meu nome poderá logo depois falar mal de mim. Quem não é contra nós, está a nosso favor. Quem vos der um copo de água para beber porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa. E quem provocar a queda um só destes pequenos que crêem em mim, melhor seria que lhe amarrassem uma grande pedra de moinho ao pescoço e o lançassem no mar. Se tua mão te leva à queda, corta-a! É melhor entrares na vida tendo só uma das mãos do que, tendo as duas, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga. Se teu pé te leva à queda, corta-o! É melhor entrar na vida tendo só um dos pés do que, tendo os dois, ser lançado ao inferno. Se teu olho te leva à queda, arranca-o! É melhor entrar no Reino de Deus tendo um olho só do que, tendo os dois, ir para o inferno, onde o verme deles não morre e o fogo nunca se apaga.



Mc 9, 38-43.45.47-48 - “Quem não está contra nós está a nosso favor”

O texto de hoje nos coloca mais uma vez no contexto do ensinamento de Jesus aos seus discípulos, enquanto caminhavam para Jerusalém. Já vimos que a partir da “crise galilaica”, Jesus mudou a sua estratégia, afastou-se das multidões e dedicou-se à formação mais intensa dos seus discípulos, pois estes se mostravam incapazes de acolher a novidade do Evangelho, com a mudança radical de atitudes que ele implicava.
A primeira atitude a ser corrigida, nos versículos de hoje, é a de querer reservar o Espírito de Jesus como propriedade da comunidade. João se queixa que um homem que não os seguia estava expulsando demônios em nome de Jesus. Atitude mesquinha, de querer dominar o Espírito de Deus, sequestrar o poder divino! Mas, infelizmente, uma atitude bastante prevalecente em certos setores mais retrógrados das Igrejas ainda hoje, que acham que toda a riqueza do mistério de Deus possa caber dentro das margens estreitas das suas definições dogmáticas! Hoje, Jesus nos ensina a verdadeira atitude de um
discípulo: “Não lhe proíbam, pois... quem não está contra nós, está a nosso favor” (v. 40). Temos que aprender a acolher as manifestações verdadeiras do Espírito de Deus em todas as religiões e culturas, e estar alertas para que nós mesmos não O escondamos ou deturpemos! Discernimento deve ser uma atitude permanente de vida!
A segunda parte do trecho nos coloca diante do problema do escândalo aos pequenos na comunidade. Aqui cumpre ressaltar que “os pequenos” neste texto não são as crianças, mas os humildes e pobres da comunidade cristã. É bom lembrar o sentido original da palavra “escândalo”. Vem de um termo grego que significa “pedra de tropeço”. Então se trata de uma situação em que os pequenos da comunidade “tropeçam”, isso é, não conseguem manter-se em pé ou se afastam, por causa de certas atitudes dos dirigentes comunitários (é bom notar que o discurso e as advertências se dirigem aos discípulos, e não aos de fora). Deve ter sido um problema comum, pois o Discurso Eclesiológico (isto é, da Igreja) no Evangelho de Mateus trata do mesmo assunto (Mt 18, 6-14). Usa imagens e linguagem tipicamente semitas: Jesus manda cortar e jogar fora “a mão, o pé, e o olho”, que causam escândalos aos pequenos. Obviamente não se propõe aqui uma mutilação física, mesmo se, ao longo da história, houvesse quem assim o entendesse - por exemplo, Orígenes. “Mão” significa a nossa maneira de agir, “pé” o modo de caminhar na vida e “olho” o jeito de ver e julgar as coisas, ou até, a nossa ideologia. Então o texto convida os dirigentes das comunidades cristãs (hoje bispos, padres, pastores, irmãs, ministros etc.) a reverem o seu modo de agir, pensar e julgar, para averiguar se não estão causando a queda dos pequenos e humildes. Se descobrirmos que assim esteja acontecendo, então devemos “cortar e jogar fora” - ou seja, mudar o que causa o problema. Caso contrário, não experimentaremos na comunidade a presença do Reino de Deus - a vivência dos valores do Evangelho, que Jesus deu a vida para estabelecer.
A caminhada para Jerusalém, no Evangelho de Marcos, é um grande ensinamento de Jesus para quem quer segui-Lo como discípulo. Trecho por trecho, ele vai desafiando a mentalidade dos discípulos, tão marcada pelos valores da sociedade vigente, e semeando os valores do Reino. Hoje, Ele nos desafia a praticarmos um verdadeiro ecumenismo e diálogo inter-religioso, e a revermos os nossos modos de agir e pensar, para que a experiência cristã de comunidade seja uma amostra real dos valores do Reino de Deus. O Papa Francisco nos dá o exemplo, enraizado como está no espírito de Jesus e na Palavra. Que tenhamos a abertura e a coragem de praticar o que ele nos ensina.
Comentário: Rev. D. Valentí ALONSO i Roig (Barcelona, Espanha)
Possivelmente, este Evangelho nos leva a refletir para descobrir o quê temos, por muito nosso que seja, que não nos permite ir a Deus, e ainda mais, que nos distancia dele.



21 de setembro de 2015 

Sentados, somos chamados a se levantar.


Evangelho (Mt 9,9-13): Ao passar, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: «Segue-me!». Ele se levantou e seguiu-o. Depois, enquanto estava à mesa na casa de Mateus, vieram muitos publicanos e pecadores e sentaram-se à mesa, junto com Jesus e seus discípulos. Alguns fariseus viram isso e disseram aos discípulos: «Por que vosso mestre come com os publicanos e pecadores?». Tendo ouvido a pergunta, Jesus disse: «Não são as pessoas com saúde que precisam de médico, mas as doentes. Ide, pois, aprender o que significa: Misericórdia eu quero, não sacrifícios. De fato, não é a justos que vim chamar, mas a pecadores».


Ao passar, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: «Segue-me!». Ele se levantou e seguiu-o.

Interessante as palavras que sempre aparecem no evangelho ao descrever uma cena de mudança de vida na história de alguém. Aqui Mateus está sentado e Jesus passa, faz-lhe o convite, e ele se levanta. O cego de Jericó está sentado e ao ouvir Jesus passando, ele se levanta. No Evangelho de hoje Jesus passa e muda a vida de alguém que está sentado. No episódio do cego de Jericó, Jesus passa e muda a vida daquele cego que está sentado. O paralítico levado até Jesus ouve dEle: “levanta-te”, e ele, em pé, fica curado. Seriam meras posições físicas, coincidências, ou seria mesmo uma mensagem, apontando um tipo de vida, um estilo de vida, uma história de vida, que se representa na posição sentada, e outra história que se representa na posição em pé? Eu acredito que não seja coincidência. O que está sentado aguarda os outros virem até ele... o que está em pé vai ao encontro de outras pessoas. O que está sentado fica num local só; o que está em pé, tramita por vários locais. O que está sentado indica uma posição de comodidade, parado, imóvel, sem necessidade de mudança. O que está sem
pé está em movimento, mudando sua posição geográfica constantemente. A proposta do Reino, o convite de Jesus, não é para fazer as pessoas se sentarem, mas é para os sentados se levantarem... E tem gente que imagina uma religião da comidade, uma espiritualidade que lhe dê sossego, um Evangelho que lhe dê segurança, tranquilidade, prosperidade, bem estar, etc.., ou seja, é uma leitura, uma interpretação, totalmente adversa do que aponta a Palavra. A Palavra não faz ninguém sentar-se, nem permanecer sentado; mas é para os sentados se levantarem. Como fez Irmã Dulce, Gandhi, Dom Luciano, e tantos outros que nunca ficaram sentados esperando outros virem até ele, mas em pé, fizeram a história de vida que se nos apresenta hoje como exemplo. A oração, a espiritualidade, não é para deixar as pessoas cômodas (como imaginam algns), mas é para nos levantar. Frei Betto disse que tem gente que não vai para a oração por medo de perceber as mudanças que tem que serem feitas e, não querendo fazer mudanças, então não param para rezar. De fato, quem quer sentar-se ou permanecer sentado, não deve procurar a vida de oração (ao menos a vida correta de oração), nem mesmo a espiritualidade (a espiritualidade correta), pois pode ser que o sossego lhe seja tirado. Alguém poderia perguntar: então não vale a pensa a espiritualidade, a oração... vale a pena ficar sentado. Seria a mesma coisa que imaginar um barco que fica somente no porto, para não correr risco. Um avião que jamais decolou, por medo de cair. Um carro que nunca andou, para evitar acidente. Realmente, podemos permanecer a vida toda sentado, e ao chegar ao final dela, não ter resposta para a seguinte pergunta “de que valeu a minha vida?” Não ter resposta para outra pergunta “quantas pessoas melhoraram de vida porque eu existi?”. Ou ainda tem gente que se ilude, achando que ao chegar ao final da vida lhe trará conforto ao coração a resposta que “sentado, enriqueci-me... sentado, acumulei... sentado, todos vieram me servir...”. Bela história esta! Pena que não é um legado a ser deixado, nem uma mensagem a constar no epitáfio “eis aqui um sentado que nunca se levantou, um barco que nunca navegou, uma vida que nunca desabrochou – eis aqui uma pessoa pessoa que nunca foi o que podia ter sido”.
Independente se é Mateus que está sentado ou o cego na beira do caminho, hoje Jesus também passa e faz o mesmo convite a todos nós, e peço a Deus que a “classe média que anda sentada” não me iluda e que eu tenha coragem de levantar-me, que eu tenha coragem de ter minha oração diária, minha espiritualidade, para eu levantar-me, e, em pé, servir, amar e construir o Reino – Amém!

13 de setembro de 2015
Deus Humano que precisa ouvir de mim que Ele faz parte da minha vida


Evangelho (Mc 8,27ss): Jesus e seus discípulos partiram para os povoados de Cesaréia de Filipe. No caminho, ele perguntou aos discípulos: «Quem dizem as pessoas que eu sou?». Eles responderam: «Uns dizem João Batista; outros, Elias; outros ainda, um dos profetas». Jesus, então, perguntou: «E vós, quem dizeis que eu sou?». Pedro respondeu: «Tu és o Cristo».


A leitura do Evangelho nos ressoa internamente a partir de como eu estou, das minhas disposições interiores, dos meus conceitos pré-concebidos, etc.. Desta forma, se na nossa catequese sempre ouvimos falar de um Deus austero e um Jesus sério, que raramente ou nunca deu uma sorriso, certamente este trecho do evangelho será lido como uma narrativa seca e até mesmo de cobrança por parte de Jesus para com seus apóstolos. No entanto, se eu mudar meu conceito anterior, e imaginar que Deus é um Pai extremamente apaixonado por mim e que Jesus veio até nós para nos provar este amor, para diminuir toda e qualquer barreira, para olhar nos meus olhos e dizer-me: “acredite, eu Te amo”, então este trecho do evangelho pode ter outra conotação. Jesus um dia disse aos seus amigos próximos: “vamos para um lugar deserto, comigo, descansar”. É um convite a intimidade com Ele, partindo dEle o desejo. Agora, parece que Jesus também caminha numa intimidade com os apóstolos, e no meio do caminho, longe da multidão, sem plateia, parece que Jesus dá mais uma prova de sua plena humanidade. Todo ser humano apaixonado por outra pessoa, quer saber qual o grau de importância que a outra pessoa lhe dá. E mesmo que este grau de importância seja pequeno, raramente muda o seu comportamento em relação ao outro devido a resposta. A pergunta “o que eu significo para você” é para por um desejo humano de saber do outro(a) que “eu faço parte da vida dele(a)”. É um sentimento humano, natural e comum a todos. E
Jesus olha para os apóstolos, seus amigos mais próximos e lhes pergunta “o que eu significo para vocês?”. Dentro de uma hierarquia emocional, em que lugar eu me encontro dentro de você? Volto a pensar que, a depender da catequese que tivemos, pode ser que na nossa cabeça Deus exista numa certa distância, e eu deva, com esforço, tentar me aproximar dEle o mais possível, sabendo que sempre existirá uma distância instransponível. Se for esta a nossa catequese, então é importante alterar este conceito, e mudar por outro, e retirar da idéia de um Deus distante, mas sim de um Deus que se aproxima sempre, que me busca, que é o pastor que vai atrás da ovelha, o Pai que espera o filho na estrada e corre ao filho quando o vê, para abraça-lo e beija-lo... um Deus que, apesar de me conhecer internamente, deseja ouvir de mim, da minha boca, com minhas palavras, que Ele é significativo para mim, que Ele ocupa um lugar dentro da minha vida, que eu O aceito que Ele faça parte da minha história, da minha caminhada. “Eis que estou a porta e bato... se você abrir, é Meu desejo entrar”. Parece loucura, mas Deus humano em Jesus, plenamente humano, é aquele que pediu água paa samaritana... e hoje me pede uma consideração por Ele... Fica difícil saber aqui, dentro deste contexto, quem precisa de quem... Sempre aprendi que era eu que necessitava dEle, e agora parece que é Ele que necessita de mim. Não dá, na verdade, para dizer quem necessita mais do outro; mas dá para afirmar que ambos carecem de um abraço, um trocar de olhares, uma frase “você é importante para mim”. Ambos... Talvez hoje seja o dia de contemplarmos uma caminhada minha, numa estrada, como os discípulos de Emaús, e Ele, comigo, na intimidade, falar para mim “diga-Me que sou importante para Mim... isto é importante para Mim...”. E percebermos que os papéis se inverteram... e que cai da minha cabeça a idéia de Deus longe, distante, severo e bravo... e que entre na minha mente e no meu coração, o verdadeiro Deus Pai, Amor, Bondade, Misericórida, Acolhimento, e sobretudo – HUMANO!

12 de setembro de 2015 

Construir casa sobre a rocha


Evangelho (Lc 6,43-49): Naquele tempo, Jesus disse a seus discípulos: «Não existe árvore boa que dê frutos ruins, nem árvore ruim que dê frutos bons. Cada árvore se reconhece pelo seu fruto. Não se colhem figos de espinheiros, nem uvas de urtigas. Quem é bom tira coisas boas do tesouro do seu coração, que é bom; mas quem é mau tira coisas más do seu tesouro, que é mau. Pois a boca fala daquilo de que o coração está cheio. »Por que me chamais: Senhor! Senhor!, mas não fazeis o que vos digo? Vou mostrar-vos com quem se parece todo aquele que vem a mim, ouve as minhas palavras e as põe em prática. É semelhante a alguém que, para construir uma casa, cavou fundo e firmou o alicerce sobre a rocha. Veio a enchente, a correnteza atingiu a casa, mas não conseguiu derrubá-la, porque estava bem construída. Aquele, porém, que ouve e não põe em prática, é semelhante a alguém que construiu uma casa no chão, sem alicerce. A correnteza atingiu a casa, e ela, imediatamente, desabou e ficou totalmente destruída».

«Não existe árvore boa que dê frutos ruins, nem árvore ruim que dê frutos bons. Cada árvore se reconhece pelo seu fruto. Não se colhem figos de espinheiros, nem uvas de urtigas.
Parece uma comparação lógica, mas Jesus com esta parábola deixa claro uma coisa: se o ser humano não mudar seu interior, não tiver dentro de si a clareza do que quer, pensa, sonha e deseja, mesmo que seus frutos possam ser aparentemente bons, não serão os melhores frutos a serem produzidos. Do contrário, quando o ser humano tem dentro de si uma bússola que o guia para uma direção que seja da justiça, do amor, do bem comum, enfim, do Reino, seus frutos serão de boa qualidade. A boca fala do que está cheio o coração; poderíamos dizer: as ações externas do ser humano são frutos da sua construção interna. Construção interna frágil, comportamento frágil; construção interna forte, comportamento sólido. Daí que emenda com o final do evangelho, comparando com quem constrói casa sobre rocha e casa sobre areia. Ambas as casas sofrem com as enchentes e tempestade (e isto precisa ficar claro). No entanto, a que tem fundamento sólido passa pelas tempestades, sofrendo, mas sem desabar. A outra desaba. Quando eu falo
que precisa ficar claro que ambas sofrem as enchentes e tempestades, é porque surgiu uma religiosidade hoje que dá a entender que quem tem fé e práticas religiosas “é protegido” por Deus, “nada de mal acontece”. Não é isto que está escrito! Jesus deixa claro que ambas as casas sofrem intempéries. A diferença é que uma tem fundamento sólido e a outra não. Portanto, o que difere o cristão do não cristão, não é que o primeiro é preservado dos perigos e males; não! O que difere é a forma, o modo, o comportamento, a reação que o cristão tem diante das coisas e dos fatos da vida. Mas ambos (cristãos e não cristãos) sofrem tempestades. Isto tem que ficar claro pois, num eventual entendimento equivocado, certamente levará a pessoa, cedo ou tarde, a uma frustração que a abalará por muito tempo. É comum ouvirmos “como isto foi acontecer comigo, justo comigo, que faço o bem, trabalho na igreja, etc..”. É falta de compreensão do Evangelho ou catequese equivocada! E haja pregações induzindo a isto! Sei que estas pregações dá audiência e público, mas não são verdadeiras... E Jesus já disse: “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará! Caminhar na mentira, na ilusão, no erro, levará a uma desilusão, cedo ou tarde.

Que Deus me dê a graça da sabedoria para edificar meu interior, com oração, meditação, parada, escuta de mim mesmo e do Pai, para que dentro de mim seja construída a base das minhas ações, sabendo que isto não me excluirá de sofrimentos, perdas e dores, mas que me conduzirá a melhor prática humana de construção da vida – Amém!


30 de agosto de 2015 
Hoje partilho a chave de leitura que recebo mensalmente do Pe.Thomas.
Este povo me honra com os lábios  


Evangelho (Mc 7,1-8.14-15.21-23): Os fariseus e alguns escribas vindos de Jerusalém ajuntaram-se em torno de Jesus. Eles perceberam que alguns dos seus discípulos comiam com as mãos impuras, isto é, sem lavá-las. Ora, os fariseus e os judeus em geral, apegados à tradição dos antigos, não comem sem terem lavado as mãos até o cotovelo. Bem assim, chegando da praça, eles não comem nada sem a lavação ritual. E seguem ainda outros costumes que receberam por tradição: a maneira certa de lavar copos, jarras, vasilhas de metal, camas. Os fariseus e os escribas perguntaram a Jesus: «Por que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos, mas tomam a refeição com as mãos impuras?». Ele disse: «O profeta Isaías bem profetizou a vosso respeito, hipócritas, como está escrito: 'Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. É inútil o culto que me prestam, as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos'. Vós abandonais o mandamento de Deus e vos apegais à tradição humana». Chamando outra vez a multidão, dizia: «Escutai-me, vós todos, e compreendei!. Nada que, de fora, entra na pessoa pode torná-la impura. O que sai da pessoa é que a torna impura. Pois é de dentro, do coração humano, que saem as más intenções: imoralidade sexual, roubos, homicídios, adultérios, ambições desmedidas, perversidades, fraude, devassidão, inveja, calúnia, orgulho e insensatez. Todas essas coisas saem de dentro, e são elas que tornam alguém impuro».



Mc 7, 1-8.14-15.21-23 - Este povo me honra com os lábios, mas o coração deles está longe de mim”

Para que entendamos o alcance do nosso Evangelho de hoje, é necessário entender o contexto religioso do tempo de Jesus. Entre os elementos chaves na prática religiosa do judaísmo daquela época, estavam os conceitos de “puro” e “impuro”. Na nossa teologia, não é possível cometer um pecado inconscientemente, mas, para o povo do tempo de Jesus, o pecado tinha uma existência quase independente das pessoas. Certos atos, certos lugares, certas profissões tornavam as pessoas impuras, isso é, não aptas para participar do culto, sem primeiro passar pelos ritos de purificação. A seita dos Essênios levava a preocupação com a pureza ritual aos extremos. Também os fariseus - cujo nome vem de uma palavra que significa “separados” - davam suma importância à pureza ritual, assim, muitas vezes, impossibilitando o acesso do povo comum ao culto ao Deus da vida.
Diante dessa situação, a prática de Jesus era altamente libertadora. Sem recusar-se a participar nos ritos tradicionais, pois era judeu piedoso e praticante, Ele entendeu que nada que vem de fora da pessoa é capaz de deixá-la impura! Jesus recuperava a visão dos profetas, que tradicionalmente tinham conclamado o povo para que vivesse a justiça e a prática da vontade de Deus, em lugar de se preocupar primariamente com rituais externos. Jesus reintegrava as massas pobres, excluídas da vivência comunitária pelas exigências de pureza, impossíveis de serem seguidas na prática pela maioria. Ele voltava a atenção às disposições internas das pessoas, que realmente podiam deixar as pessoas “impuras” diante de Deus: “as más intenções, a imoralidade, os roubos, crimes, adultérios, ambições sem limite, maldade, malícia, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo” (v. 21-22).
Assim Jesus recupera o ensinamento de profetas como o Terceiro Isaías (Is 56-66), que diante das injustiças cometidas por pessoas que viviam na pureza ritual enquanto oprimiam os seus irmãos e ainda esperavam a proteção de Deus, denunciava: “O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente” (Is 58, 6-7).
É um desafio hoje examinarmos a realidade de nossa prática religiosa. Sem negar a importância e o papel de celebrações, ritos, rituais e devoções, o nosso texto exige de nós seguidores de Jesus um sério exame
de consciência, para que verifiquemos se a nossa prática religiosa não está frequentemente semelhante à dos fariseus - perfeita nas expressões externas, mas vazia por dentro - ou se é como aquela que os profetas e Jesus propõem, uma religião de prática de solidariedade e justiça, brotando da fé, e coerente com a nossa fé no Deus da vida, onde os ritos têm o seu lugar, mas como expressão de um verdadeiro compromisso com o Reino de Deus. Que não se torne realidade nossa a denúncia de Jesus diante do legalismo farisaico: “este povo me honra com os lábios, mas o coração deles está longe de mim” (v. 6).

Pe. Tomaz Hughes SVD e-mail : thughes@netpar.com.br


Nós também prendemos e acorrentamos João Batista
29 de agosto de 2015 



Evangelho (Mc 6,17-29): Naquele tempo, Herodes tinha mandado prender João e acorrentá-lo na prisão, por causa de Herodíades, mulher de seu irmão Filipe, com a qual ele se tinha casado. Pois João vivia dizendo a Herodes: «Não te é permitido ter a mulher do teu irmão». Por isso, Herodíades lhe tinha ódio e queria matá-lo, mas não conseguia, pois Herodes temia João, sabendo que era um homem justo e santo, e até lhe dava proteção. Ele gostava muito de ouvi-lo, mas ficava desconcertado. Finalmente, chegou o dia oportuno. Por ocasião de seu aniversário, Herodes ofereceu uma festa para os proeminentes da corte, os chefes militares e os grandes da Galiléia. A filha de Herodíades entrou e dançou, agradando a Herodes e a seus convidados. O rei, então, disse à moça: «Pede-me o que quiseres, e eu te darei». E fez até um juramento: «Eu te darei qualquer coisa que me pedires, ainda que seja a metade do meu reino». Ela saiu e perguntou à mãe: «Que devo pedir?». A mãe respondeu: «A cabeça de João Batista». Voltando depressa para junto do rei, a moça pediu: «Quero que me dês agora, num prato, a cabeça de João Batista». O rei ficou muito triste, mas, por causa do juramento e dos convidados, não quis faltar com a palavra. Imediatamente, mandou um carrasco cortar e trazer a cabeça de João. O carrasco foi e, lá na prisão, cortou-lhe a cabeça, trouxe-a num prato e deu à moça. E ela a entregou à sua mãe. Quando os discípulos de João ficaram sabendo, vieram e pegaram o corpo dele e o puseram numa sepultura.

Naquele tempo, Herodes tinha mandado prender João e acorrentá-lo na prisão, por causa de Herodíades, mulher de seu irmão Filipe, com a qual ele se tinha casado. Pois João vivia dizendo a Herodes: «Não te é permitido ter a mulher do teu irmão». Por isso, Herodíades lhe tinha ódio e queria matá-lo, mas não conseguia, pois Herodes temia João, sabendo que era um homem justo e santo, e até lhe dava proteção. Ele gostava muito de ouvi-lo, mas ficava desconcertado.

Embora tenhamos várias passagens bíblicas que são figurativas, ou seja, que narram uma coisa, mas na verdade querem dizer outra, baseada naquela história, este trecho do Evangelho creio que não tenha tido esta intenção: ou seja, foi escrito para tentar narrar um fato. No entanto, vou imaginar que não é uma cena narrativa, mas sim simbólica. E, neste simbolismo, posso imaginar que João Batista não é uma pessoa, mas a voz
da consciência de Herodes, o “anjo bom”, como diria Santo Inácio, onde fala a verdade, orienta, indica, aponta caminhos, etc.. E este “anjo bom” fala para Herodes que o que ele está fazendo não deve, não é lícito, não faz bem. E o que Herodes faz? Herodes o prende na prisão e ainda o acorrenta. Não é excesso de zelo? Além de colocar na prisão, ainda acorrenta? Mas, talvez a gente faça assim quando a voz da boa consciência nos aponta algo que devemos mudar, alterar, modificar ou fazer ou deixar de fazer. E, não querendo ouvir esta voz, queremos prendê-la e acorrenta-la, como se isto fosse possível, como se isto apagasse dos meus ouvidos internos e interiores o que ela quer me dizer.
E, interessante: Herodes reconhece que a voz que lhe soa aos ouvidos é uma voz correta, ao afirmar “sabia que era justo e gostava de ouvi-lo”. Mas, ao mesmo tempo, confessa: “porém, ficava desconcertado ao ouvi-lo”. Ora, e não é isto o que fazemos? Pode até ser que gostemos de parar, rezar, meditar, contemplar, etc.. Mas, ao ouvir a voz interior que me aponta caminho diferente do que estou fazendo ou pensando em fazer, ficamos desconcertados, e divididos entre o que apontamos como caminho e o que a nossa voz interior nos diz.
O resultado para Herodes foi trágico: mandou matar João, cortando a cabeça, exatamente tirando por onde saía as palavras – arrancar a cabeça de João é arrancar sua boa, para não falar mais o que eu não quero ouvir. E, precisamos tomar cuidado para não fazermos o mesmo: cortar a cabeça, a boca da nossa voz interior, deixar de ouvi-la, para fazer o que achamos que devemos fazer.
Frei Beto numa de suas palestras sobre oração disse o seguinte: muita gente não vai para a oração, pois a oração, quando bem feita, me diz as mudanças que preciso fazer... e, indisposto a mudar alguma coisa, opto por não rezar... E ele tem razão... E optar por não rezar é o mesmo que prender João na prisão e acorrenta-lo e arrancar-lhe sua cabeça. Com certeza, na cena de Herodes, ao ver a cabeça de João Batista na bandeja, na cabeça dele (e também no coração) lhe veio claro que o que ele fez não condiz com a justiça, a verdade, o melhor. No entanto, da mesma forma que Herodes preferiu agradar a filha de Herodíades e a própria Herodíades e fez o que tinha certeza que não deveria fazer, talvez também nós, seres humanos, façamos coisas que, sabemos que não devem ser feitas, mas para agradar certos gostos, certos desejos, fazemos... Desta forma, quantos de nós (se não nós mesmos) por causa de um certo valor ou posição de poder, ou outra
coisa qualquer, abrimos mão de fazer o correto, e, em nome de um “dito projeto” agimos e fazemos o que não devemos e nem poderíamos fazer. Prendemos João Batista na prisão e o acorrentamos. Prendemos nossa voz interior do bem, deixamos de ouvir-nos na profundidade, largamos a oração diária, abandonamos as boas leituras que poderíamos nos guiar... acorrentamos João Batista... eu só espero que não tenhamos ainda arrancado sua cabeça, para que, libertando João Batista (nossa voz interior) da prisão, possamos ouvi-la novamente... parando, meditando, rezando, contemplando, e também ouvindo amigos e as vozes que Deus coloca de forma sábia a nos guiar... e assim, vivendo e agindo no mundo, com uma bússola interior, que nos guia ao norte que nos conduz ao Pai, ao amor e a fraternidade e a realização pessoal. Caso contrário, estaremos servindo ao mundo, nas bandejas da hipocrisia e das mentiras, a cabeça de João Batista, num sucesso aparente, como ocorreu com Herodes – sucesso aparente, mas derrota interior que liquidou sua consciência... João Batista está pronto a nos falar... mas nem sempre pronto a nos contentar com o que nos fala; a decisão é nossa: ouvi-lo e seguir o que ouvimos, ou, apesar de ouvi-lo, prendê-lo e acorrenta-lo... como se pudéssemos prender e acorrentar... Mas, tanta gente vive de aparências... uma a mais será sempre e apenas uma a mais – Amém!

Que o Pai me dê coragem de ouvir a voz interior do bem, e que não caia na tentação de prende-la e acorrenta-la, pois por mais desconcertante que possa ser, sempre será a bússola interior a me conduzir... e barco sem bússola, é vida sem rumo – Amém!


Somos todos convidados para festas
20 de agosto de 2015 



Evangelho (Mt 22,1ss): Naquele tempo, Jesus voltou a falar em parábolas aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo, dizendo: «O Reino dos Céus é como um rei que preparou a festa de casamento do seu filho. Mandou seus servos chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram vir. Mandou então outros servos, com esta ordem: ‘Dizei aos convidados: já preparei o banquete, os bois e os animais cevados já foram abatidos e tudo está pronto. Vinde para a festa!’. Mas os convidados não deram a menor atenção: um foi para seu campo, outro para seus negócios, outros agarraram os servos, bateram neles e os mataram.
Mandou seus servos chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram vir. Mandou então outros servos, com esta ordem: ‘Dizei aos convidados: já preparei o banquete, os bois e os animais cevados já foram abatidos e tudo está pronto. Vinde para a festa!’. Mas os convidados não deram a menor atenção: um foi para seu campo, outro para seus negócios, outros agarraram os servos, bateram neles e os mataram.

Não quiseram vir para festa...
Primeiro o registro que o Reino de Deus é comparado a festa. E, que eu saiba, festa é lugar de fartura, comida e bebida a vontade, sem preocupação “com a conta”. Um alusão bonita do Reino, pois muitas vezes vem em nossa cabeça que o Reino é lugar de sacrifício, exigências pessoais intermináveis, código de conduta moral oposto à nossos sentimentos de alegria e prazer. Uma religião assim não é a religião de Jesus que compara Reino com festa.
Outro dado aqui: “os convidados não quiseram vir...” Interessante “não quiseram”, ou seja, de livre e espontânea vontade disseram “não, eu não quero...” Mais na frente o texto dirá “quiseram tratar dos seus negócios... outros foram para seus campos e outros resolveram matar os servos que trouxeram o convite”. O Reino é uma proposta livre, mas, de fato, cuidar dos negócios, dos campos, pode ser mais interessante, mais atrativo num primeiro momento. E, desta forma, mata-se a possibilidade de uma vida plena, com sentido, uma vida onde a alegria do Reino se faça presente. Preferível uma vida de tristeza, preferível uma vida austera, preferível uma vida de valores impostos pela Globo ou outra fonte poluída qualquer... A decisão é livre e individual. Cada um faz opção que deseja. O que não se pode é depois negar a existência da festa. Como numa música “Castelos no ar”, se diz: “sim, a vida é assim, os sonhos se acabam antes ou depois... uma outra é a verdade, vamos enfrenta-la todos nós... não se pode ficar de olhos fechados... depois gritar a todos que o sol não existe...”. Há necessidade de abrirmos nossos olhos o quanto antes, caso contrário, não enxergamos as festas que Deus nos propõe diariamente. Sem oração, sem paradas, sem percepção interior de si próprio, a festa passa... e não participamos dela... e, ao final, ao olharmos nossa vida passada, teremos a desilusão que os negócios que tiveram nossa atenção, os campos que receberam meu tempo, não compensam a atenção que deixei de dar aos filhos, demais familiares, aos amigos, a mim mesmo, etc..... a festa passou... e eu, embora convidado, não adentrei nela... fiquei nos meus negócios que se passaram... agora outros tocarão meus negócios, e eu não participei da festa... a vida consiste na descoberta das festas que Deus vive promovendo para eu participar... a decisão é livre, pessoal e intransferível... Talvez as festas estejam em coisas pequenas... que passam sem a nossa percepção, devido nossa pressa... nossa dificuldade de paradas...
Com certeza, a oração pessoal, a espiritualidade, consiste em identificar todas as festas que Deus nos promove e delas participar... A vida foi feita para ser festa... Os sistemas econômicos, políticos (e alguns religiosos também) nos apresentam uma sociedade em que festejar é pecado... um mundo de crises, dificuldades, apertos, carências, desesperança... Não nos
iludamos: a festa é já... não é para depois... Se não soubermos olhar nossa vida e o mundo pelos olhos de Deus, com certeza, as festas passarão...
Pai, que eu seja atento à todas as festas que o Senhor me propõe e que eu delas participe – amém!


Deixai vir a mim as criancinhas
17 de agosto de 2015


Na Missa de sábado que eu fui, o Evangelho que foi lido é aquele em que os apóstolos querem impedir as crianças de chegarem até Jesus e Jesus “desobstrui” o caminho e afaga cada criança, uma por uma, abençoando-as e depois despedindo-as.
Na minha cabeça ontem veio um pensamento/moção que os apóstolos agem de forma coerente e racional, e talvez nós fizéssemos o mesmo.
Suponho que Jesus já tinha falado que Ele seria preso, perseguido e morto. O que colocaria na cabeça de cada um que o tempo é escasso para fazer o que tem que ser feito. O inimigo (ou os inimigos) se armam contra nós e nós temos que ir a muitos lugares ainda, pregar muito, falar muito, anunciar muito, curar muito, etc., e o tempo é curto, é pouco.
Crianças vindo na direção de Jesus para fazer o que? Qualquer coisa que seja feita com as crianças não ajudam no projeto. Elas não tem poder de fogo para combater o inimigo e nem recursos financeiros para subsidiar a missão. Portanto, entraves. Mesmo pensando na dignidade que elas possuem, na verdade, não contribuem para o momento presente. O tempo é curto.
E daí Jesus dá uma lição que não podemos esquecer: “deixe as crianças virem a mim...”
Nem vou citar o resto da frase (pois o Reino é delas). Ficando apenas no início da frase, Jesus desmonta a lógica humana da eficiência, produtividade, lucratividade do projeto, conquista de resultados, etc., tudo indicadores que hoje se busca com a organização social, política e econômica da sociedade.
Aliás, pensando apenas em indicadores sociais, políticos e econômicos da sociedade, é que se baseiam leis que diminuem os salários dos trabalhadores quando estes se aposentam – afinal, o que os aposentados podem fazer pela Pátria?
Leis que diminuem a maioridade penal; afinal, o que adolescentes desvirtuados podem colaborar com a Pátria?
Leis que não dão acesso aos pobres de todos os seus direitos (saúde, escola, etc.); afinal, o que os pobres tem a colaborar com a Pátria?
Ao falar Pátria, entende-se aqui a economia da sociedade; os números da balança comercial, o superávit primário, como está em moda hoje falar...
A lógica colocada pelos apóstolos é trocada por outra lógica de Jesus.
E Jesus também tem aquele trecho onde invertendo a lógica econômica, sacrifica dois mil porcos para salvar dois homens... e o resultado é que Ele é convidado a retirar-se do local...
Jesus inverte lógica... rehierarquiza os valores... coloca o ser humano sempre em primeiro lugar; seja idoso, doente ou criança... onde há um coração humano batendo, aí estará a prioridade de Jesus, a prioridade do Reino.
Para saber se estamos sendo cristãos, basta olhar quais são nossas prioridades. Se são os números econômicos/políticos, certamente a resposta á nossa pergunta é “não”. Se a prioridade são os seres humanos, sobretudo os fracos, indefesos, etc., então é um sinal que estamos no caminho do Reino.
Quantos cristãos não criticam o gasto social que se tem com presos e, consequentemente, defendem a pena de morte... Nesta lógica está correta: matemos o criminoso, para melhorar os números da economia do país. Na lógica de Jesus, os números que interessam é o número de pessoas que são resgatadas pela vida e pelo amor – deixai vir a mim as criancinhas, disse Jesus naquela época... hoje poderia dizer, as criancinhas, os aidéticos, os presos, as prostitutas, os pobres, os analfabetos, os doentes terminais que gastam dinheiro do SUS, os esfomeados, os que pedem esmolas nas esquinas e enfeiam a nossa cidade, os drogados, bêbados e outros tantos rejeitados... deixai-os vir a Mim... Nós cristãos não só não abrimos os braços para acolher os que Jesus quer acolher, como fazemos como os apóstolos: ainda queremos impedir que cheguem ao verdadeiro Jesus.
Que mudemos nossa mentalidade, nossa hierarquia interna, para que, sem desprezar as coisas do mundo tão importantes, coloquemos o ser humano acima de quaisquer coisas, por mais importantes que possam parecer.
Talvez este seja um grande sinal do cristão: “perder tempo” com o que não é lucrativo sob algum aspecto (econômico, social ou político).
Amém!


08 de agosto de 2015
Meus amigos, como o Evangelho de hoje fala de "fé", partilho reflexão do Frei Betto a respeito.
O que é ter fé – Frei Betto

Evangelho (Mt 17,14-20): Naquele tempo, alguém aproximou-se de Jesus, caiu de joelhos e disse: «Senhor, tem compaixão do meu filho. Ele tem crises de epilepsia e passa mal. Muitas vezes cai no fogo ou na água. Levei-o aos teus discípulos, mas eles não conseguiram curá-lo!». Jesus tomou a palavra: «Ó geração sem fé e perversa! Até quando vou ficar convosco? Até quando vou suportar-vos? Trazei aqui o menino». Então Jesus repreendeu o demônio, e este saiu do menino, que ficou curado a partir dessa hora. Então, os discípulos aproximaram-se de Jesus e lhe perguntaram em particular: «Por que nós não conseguimos expulsar o demônio?». Ele respondeu: «Por causa da fraqueza de vossa fé! Em verdade vos digo: se tiverdes fé do tamanho de um grão de mostarda, direis a esta montanha: 'Vai daqui para lá', e ela irá. Nada vos será impossível».


O que é ter fé: reflexão feita por Frei Betto
Criado: 03 Agosto 2015


Todos conhecemos pessoas que frequentam a igreja e, no entanto, se comportam de modo contrário aos valores evangélicos: tratam subalternos com desrespeito; sonegam direitos de empregados; discriminam por razões raciais ou sexuais. Pessoas que enchem a boca de Deus e trazem o coração entupido de ira, inveja, soberba; são indiferentes aos direitos dos pobres; omitem-se em situações graves que lhes exigem solidariedade.

E temos à nossa volta, no círculo de amizades, pessoas ateias ou agnósticas que, em suas atitudes, fazem transparecer tudo o que o Evangelho acentua como valores: amor ao próximo, justiça aos excluídos, solidariedade aos necessitados, etc.

O Catecismo da Igreja Católica, aprovado por João Paulo II, em 1992, e elaborado sob a supervisão do téologo Ratzinger, futuro papa
Bento XVI, define a fé como “adesão pessoal do homem a Deus”. E acrescenta que é “o assentimento livre de toda a verdade que Deus revelou.” E a portadora dessa verdade é a Igreja.

Assim, só teria verdadeira fé cristã quem submete seu entendimento ao que ensina a autoridade eclesiástica (papa, bispos e pastores).

Devido a essa maneira de entender a fé, o que se crê se tornou mais importante do que como se vive. Criou-se uma ruptura entre fé e vida. A ponto de uma pesquisa na França, ao indagar a diferença entre um empresário sem religião e outro cristão, teve como resposta da maioria um detalhe: o segundo vai à missa de vez em quando. No resto, em nada diferem...

Para Jesus, quem tinha fé? A resposta é desconcertante. Em Mateus 8,10, Jesus declara que o homem com mais fé que até então havia encontrado era um oficial romano, um centurião.

Ora, como Jesus pôde elogiar a fé de um oficial pagão? O episódio demonstra que, para Jesus, a fé não consiste, em primeiro lugar, naquilo que se crê, e sim no modo de proceder. Aquele pagão era um homem solidário, preocupado com o sofrimento de um servo.

A mesma atitude de Jesus se repete no caso da mulher cananeia, que também era pagã. A mulher pede a Jesus que lhe cure a filha. Diante dela, Jesus reconhece: “Mulher, grande é a sua fé!” (Mateus 15,28). Grande, não por causa da crença da mulher, e sim por seu procedimento amoroso.

O mesmo ocorre no caso do samaritano hanseniano, curado em companhia de nove judeus (Lucas 17,11-19). Os judeus, segundo suas crenças religiosas, se apresentaram aos sacerdotes, como recomendou Jesus. Já o samaritano, que não obedecia às prescrições das autoridades religiosas e não se sentia obrigado a submeter-se a elas, retornou para agradecer a Jesus, que lhe exaltou a fé: “A sua fé o salvou” (Lucas 17,19).

Para Jesus, portanto, a fé, antes de se vincular a um catálogo de crenças, a uma doutrina, se relaciona a um modo de viver e agir. Jesus, por vezes, duvidou da fé de quem estava mais próximo dele (Marcos 4,40). Discípulos e apóstolos foram considerados “homens de pouca fé” (Mateus 8,26).

Jesus fez a desconcertante afirmação de que prostitutas e cobradores de impostos terão precedência no Reino de Deus, e não os “exemplares” sacerdotes (Mateus 21,31).

Isso deixa claro quem Jesus reconhecia como crente. Não propriamente quem aceita o que prega a religião, e sim quem age por amor, solidariedade e justiça. Ter fé é, sobretudo, viver de acordo com os valores segundo os quais vivia Jesus.

A Igreja está em crise. Suas autoridades culpam o laicismo, o relativismo, o hedonismo. Ora, será que as autoridades religiosas, e nós, frades, freiras, padres e pastores, não temos culpa nisso, por apresentar a fé cristã como verdades cristalizadas em doutrina, e não expressada em vivência?
Artigo publicado originalmente em O Globo


Deus nos chama ao amor, e não ao sacrifício
07 de agosto de 2015 


Evangelho (Mt 16,24-28): Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: «Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar sua vida a perderá; e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará. De fato, que adianta a alguém ganhar o mundo inteiro, se perde a própria vida? Ou que poderá alguém dar em troca da própria vida? Pois o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta. Em verdade, vos digo: alguns dos que estão aqui não provarão a morte sem antes terem visto o Filho do Homem vindo com o seu Reino».



Comentário: Rev. D. Pedro IGLESIAS Martínez (Rubí, Barcelona, Espanha)
«Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me»
Hoje, o Evangelho nos coloca claramente diante do mundo. É radical na sua abordagem, não admitindo ambigüidades: «Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me» (Mt 16,24). Em numerosas ocasiões, perante o sofrimento causado por nós mesmos ou pelos outros ouvimos: «Devemos suportar a cruz que Deus nos manda...Deus quis que fosse assim...», e vamos acumulando sacrifícios como cupons em uma cartela, que apresentaremos à auditoria celestial no dia que tivermos que prestar contas. O sofrimento não tem valor algum em si mesmo.
Cristo não era um estóico: sentia sede, fome, cansaço, não gostava de ser deixado só, se deixava ajudar... Onde podia aliviava a dor, física e moral. Que acontece então? Antes de carregarmos a nossa “cruz”, primeiramente devemos seguir a Cristo. Não se sofre e depois se segue a Cristo... Cristo se segue por
Amor, e é a partir daí que se compreende o sacrifício, a negação pessoal: «Quem quiser salvar sua vida a perderá; e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará» (Mt 16,25). É o amor e a misericórdia o que nos leva ao sacrifício. Todo amor verdadeiro gera sacrifício de uma forma ou de outra, mas nem todo sacrifício gera amor. Deus não é sacrifício; Deus é Amor, e só esta perspectiva dá sentido à dor, ao cansaço e às cruzes de nossa existência segundo o modelo de homem que o Pai nos revelou em Cristo. Santo Agostinho afirmou: «Quando se ama não se sofre, e se sofre, ama-se o sofrimento». No correr da nossa vida, não busquemos uma origem divina para os sacrifícios e as penúrias: «Por que Deus me mandou isto?», mas busquemos um “uso divino” para o que nos acontece: «Como posso fazer disso, um ato de fé e de amor?». É assim que seguimos a Cristo e, como —com certeza— seremos merecedores do olhar misericordioso do Pai. O mesmo olhar com que contemplou o seu Filho na Cruz.

Somos chamados a caminhar sobre as águas e não a nos limitar-nos 
04 de agosto de 2015 


Evangelho (Mt 14,22ss): Logo em seguida, Jesus mandou que os discípulos entrassem no barco e fossem adiante dele para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões. Depois de despedi-las, subiu à montanha, a sós, para orar. Anoiteceu, e Jesus continuava lá, sozinho. O barco, entretanto, já longe da terra, era atormentado pelas ondas, pois o vento era contrário. Nas últimas horas da noite, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar. Quando os discípulos o viram andando sobre o mar, ficaram apavorados e disseram: «É um fantasma». E gritaram de medo. Mas Jesus logo lhes falou: «Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!». Então Pedro lhe disse: «Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água». Ele respondeu: «Vem!». Pedro desceu do barco e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. Mas, sentindo o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: «Senhor, salva-me!». Jesus logo estendeu a mão, segurou-o e lhe disse: «Homem de pouca fé, por que duvidaste?». Assim que subiram no barco, o vento cessou. Os que estavam no barco ajoelharam-se diante dele, dizendo: «Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!».
Logo em seguida, Jesus mandou que os discípulos entrassem no barco e fossem adiante dele para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões.
Um líder normalmente é rodeado de “assessores” que nem sempre o deixam ficar na intimidade com os demais. Parece que Jesus quer também ficar numa conversa reservada com “multidões”, que são pessoas inominadas, e eu acho que os apóstolos ficavam muito perto de Jesus ouvindo e ainda dando palpites. Daí Jesus fala “pode ir indo, vão...”. E Jesus fica só para estes, só para estas pessoas, sem a interrupção e intromissão dos seus apóstolos.


Depois de despedi-las, subiu à montanha, a sós, para orar. Anoiteceu, e Jesus continuava lá, sozinho.
Um líder também precisa ter seus momentos de intimidade consigo próprio. Um tempo para si e um tempo para “ouvir-se”. E Jesus aproveita e assim o faz agora. Fica a sós, após despedir as multidões.


O barco, entretanto, já longe da terra, era atormentado pelas ondas, pois o vento era contrário.
Barco foi feito para andar nas águas. E aqui o detalhe: “já longe da terra”. Ou seja, ao ficar longe do “porto seguro”, o barco fica atormentado, e isto faz parte da vida do barco. Tem gente que quer que o barco nunca fique atormentado, e o deixa sempre em terra. Nunca ficará atormentado, mas nunca fará o que é sua essência vocacional. Cada um faz a sua opção.


Nas últimas horas da noite, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar.
Parece-me uma linguagem figurativa, tendo em vista que naquela época se considerava que os demônios habitavam o fundo do mar. Desta forma, aparece alguém que os domina, pisando sobre eles, andando sobre eles. É a força do bem vencendo a força do mal.


Quando os discípulos o viram andando sobre o mar, ficaram apavorados e disseram: «É um fantasma». E gritaram de medo. Mas Jesus logo lhes falou: «Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!». Então Pedro lhe disse: «Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água». Ele respondeu: «Vem!». Pedro desceu do barco e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. Mas, sentindo o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: «Senhor, salva-me!». Jesus logo estendeu a mão, segurou-o e lhe disse: «Homem de pouca fé, por que duvidaste?».
Jesus diz à Pedro “venha”, e ele foi. É muita fé sair de um barco e ir andando sobre as águas. Na verdade, dentro desta linguagem figurativa, Pedro vai vencendo seus demônios, seus males – tanto os que estão debaixo das águas (daí andar sobre as águas) quando os que estão dentro dele (domínio de si). No entanto, num certo momento, a dúvida lhe aparece, como aparece para todas as pessoas naturais e humanas: “será que vou conseguir? Isto dará certo? Estou cansado... Já deu errado outras vezes e agora dará errado também... Ninguém me acompanha.... E se eu for enganado novamente?” Enfim, dúvidas humanas que ocorrem com todos. E Pedro, que estava vencendo, passa a afundar, e Jesus lhe fala: “por que duvidaste (de si mesmo)”? É uma frase que Jesus fala hoje para nós: “estás afundando
porque? O que o fazes duvidar? O que te desanimas? Os noticiários da TV/jornais? Os escândalos da Igreja ou da sociedade? As traições dos dito amigos?” É um trecho que poderíamos refletir mais: Jesus censura a limitação que Pedro coloca a si próprio e todos que se limitam afundam, não conseguem vencer seus males.

Senhor, que eu ande sobre as águas, ou seja, que eu caminhe por cima das dificuldades, dos males, dos demônios (aqui tudo que é contra a humanidade), e que eu não me limite – Amém!

Seja você o milagre
31 de julho de 2015 


Evangelho (Mt 13,54-58): Jesus foi para sua própria cidade e se pôs a ensinar na sinagoga local, de modo que ficaram admirados. Diziam: «De onde lhe vêm essa sabedoria e esses milagres? Não é ele o filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria, e seus irmãos não são Tiago, José, Simão e Judas? E suas irmãs não estão todas conosco? De onde, então, lhe vem tudo isso?». E ele tornou-se para eles uma pedra de tropeço. Jesus, porém, disse: «Um profeta só não é valorizado em sua própria cidade e na sua própria casa!». E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles.


JESUS NÃO FEZ MUITOS MILAGRES ALI, POR CAUSA DA INCREDULIDADE DELES...
Interessante esta frase – a ausência de fé das pessoas impedi a realização dos milagres por parte de Jesus. Isto dá um sentido lógico às vezes contrário ao que estamos acostumados a pensar: vamos atrás de Jesus para obter os milagres... E aqui nos é relatada que Jesus não fez milagres, porque não havia fé. Ou seja: o que provoca o milagre não é a ação de Jesus, mas a fé das pessoas. E isto inverte totalmente um comportamento humano dito cristão, pois muitos vão à Igreja e oram pedindo para que Deus faça isto ou aquilo. Tem gente até que reza pedindo para que Deus faça justiça. E, no entanto, o “milagre” só acontece à partir da fé de cada um, ou seja, da vivência, da espiritualidade, da práxis de cada um. Um ser humano pode viver a vida inteira fazendo milagres, tais como amar, servir, praticar a justiça, denunciar a intolerância, por exemplo. E, poderá também passar a vida inteira praticando o contrário e ainda frequentando Igreja pedindo à Deus os milagres. “Seja você o milagre”, disse o personagem “Deus” no filme “Todo Poderoso”. Neste trecho do filme, “Deus” fala ao homem que lhe fora ter uma audiência: “todas as vezes que você tira alguém do caminho da droga; uma mãe que acolhe o filho da vizinha para ela ir trabalhar, etc., isto é um milagre... seja você o milagre”. Outro dia escutei uma frase que diz: “milagre
não é fazer coisas extraordinárias, mas milagre é fazer as coisas comuns de forma extraordinária”. E fazer de forma extraordinária significa fazer com sentido de vida, com profundidade, sem superficialidade, o que hoje é tão presente na sociedade, sobretudo aos jovens, que estão cada vez mais com imensa dificuldade de serem profundos em si mesmos. Não é a toa que em Matheus 25 muitos ficam surpresos ao serem acolhidos por Jesus por terem dado água a quem tem sede, pão a quem tem fome, justiça aos oprimidos... eles faziam isto porque era sua essência de ação, e Jesus os chama para próximo de Si dizendo “todas as vezes que fizestes isto ao menor dos meus irmãos, foi a Mim que O fizestes”. Na verdade, poderíamos interpretar que Jesus disse: “sua vida foi um milagre... um milagre aos famintos, quando lhes destes comida... um milagre aos encarcerados, quando os fostes visitar...” e assim sucessivamente. Todos nós somos chamados a sermos pessoas de milagres – fazer o bem, amar e praticar a justiça. Mas também existem pessoas que fazem exatamente o contrário, e as vezes ainda rezam para que Deus faça milagres... A estes, também em Matheus 25 existe a resposta: “não me destes de comer, de beber, etc..”. A vida de uma pessoa deve inserir-se no contexto social, econômico, político e cultural do seu povo. É aqui que se dá (o início) o Reino; é aqui que se pratica (ou não) o milagre. A alienação da realidade da vida ou o seguir o que todos seguem (muito comum hoje) só porque todos seguem este caminho é exatamente o contrário do Evangelho. A vida é feita de liberdade e, por consequência, de opções. Cada um opta ou por ser milagre ou por viver escandalizando-se dos que praticam milagres, como os nazarenos escandalizaram-se de Jesus. Que Deus nos dê a sabedoria e graça para que possamos ser milagres para nossos amigos, nossos filhos, nossa família, nossa comunidade, nossa sociedade, nossa Pátria, nosso mundo – amém!

Meu fardo é leve
16 de julho de 2015


Evangelho (Mt 11,28-30): Naquele tempo, disse Jesus, «vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e sede discípulos meus, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve».

o meu jugo é suave e o meu fardo é leve...
Esta frase deveria provocar em nós uma reflexão muito séria a respeito do que é o seguimento de Jesus, o que é abraçar a missão dEle (que permanece sendo sempre dEle), o que é trilhar num caminho orientado pela ética cristã... O próprio Jesus fala: “meu jugo é suave... meu fardo é leve...”. E isto conflita com muito do que ouvimos de religião, pois normalmente, ao ouvirmos “seguir a religião”, nos vem na mente uma vida de grande austeridade, renúncias, lutas e mais lutas, cansaços intermináveis por ações e obras a serem feitas que nunca acabam... E, de fato, movidos por este pensamento, quantos de nós já não abraçamos causas e mais causas, serviços e mais serviços, responsabilidades e mais responsabilidades, dentro da sociedade, dentro da Igreja, a tal ponto que muitas vezes “nem curtimos a vida”, e quando nos deparamos, a idade chega e com ela o cansaço e o olhar para trás que nos diz que não fizemos o que deveríamos ter feito, tal como cuidar da saúde, da afetividade, da amizade, etc.. Quantos, mas quantos que, ao chegar num determinado ponto, abandonam tudo, cansados de tanta luta, tanta fadiga, para dizer “prá que valeu tudo isto?”. E, Jesus vem com a frase para dizer “meu jugo é suave... meu fardo é leve...”. Seria uma contradição ou mentira? Penso que a frase proferida por Jesus poderia ser destrinchada da seguinte maneira: “se tú realmente fizesse a experiência da minha pessoa, jamais se cansaria de estar na missão, pois o apaixonado nunca se cansa de amar; o amante nunca se cansa de caminhar; o animado nunca se cansa de
perseverar... portanto, o projeto do Reino, não é um projeto de renúncias e cansaços, mas de alegria e satisfação, pessoal e coletiva. Talvez aí esteja um sinal da nossa caminhada – sempre queremos saber se estamos no caminho “certo” ou não – basta responder a pergunta: “há satisfação pessoal no caminho que faço?” Se sim, a chance de estarmos num caminho do Reino é muito grande; do contrário, a chance de estamos fora de sintonia do projeto do Reino é muito grande. Por isso, a igreja nunca deveria ser lugar de pessoas extremamente austeras, sisudas, mal humoradas, fechadas, tristes, etc., mas lugar de alegria, festa, prazer, afetividade, perdão, paz, acolhimento, etc.. Onde estiver estes traços, aí estará a Igreja de Jesus – onde isto estiver ocorrendo, ocorrerá também o que Jesus já dissera “Eu estarei presente” – lutar e sofrer pela causa do Reino vale para causa, não pela luta e o sofrimento. A luta e o sofrimento não é o fim; o fim é o Reino, que deve ser vivido e experimentado a cada segundo da nossa caminhada – ao final, perceberemos que o que valeu foi como percorremos o caminho, o dia a dia, as grandes, mas também as pequenas coisas – a forma como vivenciamos cada momento – e veremos a grandeza da vida e a beleza do amor do Pai que sempre nos acampanhou. E, ao final da caminhada, a coroação de abraçar aquele que nos dirá “Eu não disse à você que meu fardo era leve?”

A missão é dEle – a nós cabe o posicionamento histórico
08 de julho de 2015

Evangelho (Mt 10,1-7): Naquele tempo, chamando os doze discípulos, Jesus deu-lhes poder para expulsar os espíritos impuros e curar todo tipo de doença e de enfermidade. Jesus enviou esses doze, com recomendações: No vosso caminho, proclamai: O Reino dos Céus está próximo».

Jesus chama...
Dá poder...
Envia...
Proclama: o Reino está próximo – o Reino está perto, o Reino só depende de você...
Fica evidente que a missão é dEle. É Ele quem chama, Ele quem dá poder (ou não), Ele que envia, e Ele que orienta o que proclamar.
Quando perdemos esta clareza que a missão é dEle, corremos o risco de considerar que a missão é nossa, é minha, e daí aos poucos vamos nos afastando da origem da missão (Jesus) e aos poucos vamos fazendo ou impondo nosso modo de ser e a minha missão. Aos poucos vamos “adaptando” a Missão do Reino (justiça, amor, benevolência, tolerância, acolhimento, perdão, etc.), à “minha missão” (intolerância, vingança, exclusão, frieza, etc.). E pior, fazemos “em nome de Deus”, em nome da missão. Neste caso, desvirtuou-se o projeto original. Em outra ponta desta reflexão, temos também pessoas que, ao tomarem a missão para si, passados tempos de caminhada, entram no desânimo, pois ao configurar a missão como pessoal, também configura os possíveis resultados com seus anseios pessoais; e, na maioria das vezes, os resultados não são os que almejávamos. E daí vem o desânimo, e muitos abandonam a missão. Quando percebemos que a proclamação da justiça nem sempre agrada a todos, quando percebemos que muitos dos que estavam ao nosso lado às vezes são os que querem puxar nosso tapete, quando vivemos numa sociedade onde a intolerância e individualismo crescem nas pessoas que tem crucifixo pendurado no pescoço, quando a exploração do outro produz recursos financeiros cuja parte é colocada na
coleta da igreja, quando vemos cristãos que, ao subirem um pouco de cargo olham de cima para baixo os que não subiram tanto quanto ele, daí corremos o risco de desanimar... Mas, o desânimo e o cansaço não são frutos da realidade, mas sim frutos do desvirtuamento da origem da Missão. A Missão é de Jesus – é a Ele que cabe a tarefa de impulsionar o mundo ao Pai; a cada um de nós cabe ser atingido pela faísca de seu amor e ouvir o chamado, sentir-se enviado, perceber-se no projeto dEle e atuar. Quanto aos frutos, podem aparentemente não serem o que desejamos; mas ao final, a história de cada um não valerá necessariamente pelos frutos produzidos, mas sobretudo pelo lado em que esteve na história. Pois frutos conseguidos por meios que diminuíram vidas, não fazem parte do projeto. E, em Matheus 25, Jesus chama para si os que deram de comer a quem tinha fome, acolheu os peregrinos, visitou os presos, foi ver os doentes, etc.. No evangelho de Matheus 25 não está escrito: “vinde benditos que acabaram com a fome na sociedade, que extinguiram todas as injustas prisões, que eliminaram as doenças...” – ou seja, os famintos não acabaram, os presos continuaram a serem injustiçados, as doenças permaneceram atormentando, sobretudo os pobres. Mas, quem serão os chamados? Serão aqueles que estiveram num determinado lado da história. O lado de quem durante toda a sua vida, fez da sua trajetória, um meio de amenizar as dores dos sofridos, angustiados, injustiçados, ao lado dos que proclamaram justiça, ainda que não tivesse conseguido sentença justa nos tribunais (muito comum nos dias de hoje) – a Missão é dEle – portanto, os frutos também são de responsabilidade dEle – no entanto, nossa liberdade permanece para escolhermos de que lado da história queremos estar. E, a depender do lado que estivermos historicamente, dependerá nossa última palavra da nossa trajetória. Jesus, na cruz, teve como última palavra “Pai, em tuas mãos, entrego o teu Espírito”. Queira Deus que assim também possamos fazer nos nossos últimos momentos (e não arrependimentos por ter podido amar mais e não ter amado, ter praticado a justiça e não o ter feito, etc.). O que dá sentido à vida não são os frutos, nem as coisas, nem os reconhecimentos; o que dá sentido à vida é a postura e o lado que cada um se coloca. Por isso, o Reino pode estar próximo, como disse Jesus no evangelho de hoje, ou não. A posição do Reino não muda. O que muda é a nossa posição. O Reino está à disposição. Queira Deus que tenhamos discernimento para não sermos engolidos pela avalanche de convites que nos levam a fonte que não saciam, mas que nossos ouvidos
estejam afinados e sintonizados com o verdadeiro convite, que, quando aceito, dá sentido à minha vida – Amém!

A fé provoca milagres
06 de julho de 2015


Evangelho (Mt 9,18-26): Enquanto Jesus estava falando, um chefe aproximou-se, prostrou-se diante dele e disse: «Minha filha faleceu agora mesmo; mas vem impor a mão sobre ela, e viverá». Jesus levantou-se e o acompanhou, junto com os discípulos. Nisto, uma mulher que havia doze anos sofria de hemorragias veio por trás dele e tocou na franja de seu manto. Ela pensava consigo: «Se eu conseguir ao menos tocar no seu manto, ficarei curada». Jesus voltou-se e, ao vê-la, disse: «Coragem, filha! A tua fé te salvou». E a mulher ficou curada a partir daquele instante.Chegando à casa do chefe, Jesus viu os tocadores de flauta e a multidão agitada, e disse: «Retirai-vos! A menina não morreu; ela dorme». Mas eles zombavam dele. Afastada a multidão, ele entrou, pegou a menina pela mão, e ela se levantou. E a notícia disso espalhou-se por toda aquela região.


Um chefe vem ao encontro de Jesus, deixa sua filha morta em casa, para buscar a ressurreição de sua filha junto a um carpinteiro. Isto é sinal de fé ou não? Resposta: fé claríssima.
Uma mulher (mulher naquela época já era discriminada por ser mulher – mulher é impura porque solta sangue – ao menstruar. Imagina o quanto deveria ser discriminada uma mulher com hemorragia há doze anos ! Evidente que, aproximar-se de Jesus, cercado de homens deveria ser algo muito difícil e extremamente discriminatório, vexatório, humilhante. Ela enfrenta tudo isto e pensa consigo que “se tocar apenas a franja da roupa deste carpinteiro, ficarei curada”. Isto é fé ou não? Fé claríssima!).
Duas cenas de fé que resultam em dois resultados: a mulher se cura e a filha do chefe retorna a vida.
No evangelho de ontem diz que Jesus não pôde fazer muitos milagres em Nazaré, devido a falta de fé daquele povo...
Isto tem uma lógica a ser entendida: os milagres " aquele rapaz que ficou no lugar de Deus que tirara férias ficou extremamente cansado e foi ter uma audiência com Deus reclamando que o povo lhe pedia muitos milagres, Deus fala para ele que “todas as vezes que uma mulher fica com o filho da vizinha
para ela poder ir trabalhar; todas as vezes que você dá conselho a um drogado e ele muda de vida, você fez um milagre – seja você um milagre”; e o rapaz volta para a terra compreendendo o que é um milagre.
Pegando esta concepção de milagre, mais este trecho do Evangelho que diz que o milagre acontece fruto da fé, logo temos uma clareza de uma coisa: hoje falta fé!
Numa sociedade onde milhões ralam para ter um mínimo, e numa sociedade em que os que ascenderam não se alegram com os que podem ascender, é uma sociedade carente de milagres. Milagre de gente que compreenda o outro, que acolha o outro, que ajude o outro, que seja solidário ao outro, que busque a justiça, que busque o bem comum, que não seja discriminatório nem excludente... estes são os milagres que precisam hoje. E, como falta fé, estes milagres não acontecem, e a sociedade vai se aprofundando num individualismo jamais visto, numa relação fria e gélida, num comportamento de descarte do outro, num desrespeito pelo meio ambiente, onde o “salve-se quem puder” vai se impondo. Uma sociedade intolerante, machista, capitalista, individualista e muitos istas mais... Há necessidade urgente de milagres nesta sociedade.
E, considerando que proliferam religiões, ou melhor, pseudo-religiões, onde induzem os seus seguidores a rezarem a Deus para que Ele acabe com a pobreza e o sofrimento do povo, onde pede à Ele milagres, evidente que a situação só tende a piorar, pois não será Ele a fazer isto, e sim, à partir da fé de cada um em Deus que é Pai, à partir da fé de cada um é que cada um vai fazer o seu milagre, sendo milagre onde possa ser, onde se encontra, onde atua, onde se faz presente, onde tem a possibilidade e a chance de ser milagre.
O milagre é fruto da fé... “Tua fé te salvou, ou melhor: tua fé provocou este milagre”.
E a fé pode ser pura graça ou fruto de uma intimidade (experiência) do ser humano com Deus, que se fez humano na pessoa de Jesus de Nazaré.
Portanto, fica fácil saber quem tem intimidade (vida de oração, por exemplo) com Deus: quem faz milagres. E os milagres a serem feitos estão todos descritos em Mt. 25. Fora disto, não há religião!


Meus amigos: hoje partilho a "chave de leitura" que recebo semanalmente do Pe.Thomas, que nos ajuda a "ler" melhor o Evangelho de hoje.

E Jesus não “pôde” fazer ali muitos milagres...
05.07.15

Evangelho (Mc 6,1-6): Naquele tempo Jesus foi para sua própria terra. Seus discípulos o acompanhavam. No sábado, ele começou a ensinar na sinagoga, e muitos dos que o ouviam se admiravam. «De onde lhe vem isso?», diziam. «Que sabedoria é esta que lhe foi dada? E esses milagres realizados por suas mãos? Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, Joset, Judas e Simão? E suas irmãs não estão aqui conosco?». E ele se tornou para eles uma pedra de tropeço. Jesus, então, dizia-lhes: «Um profeta só não é valorizado na sua própria terra, entre os parentes e na própria casa». E não pôde fazer ali nenhum milagre, a não ser impor as mãos a uns poucos doentes. Ele se admirava da incredulidade deles. E percorria os povoados da região, ensinando.
Décimo Quarto Domingo Comum (05.07.15)
Mc 6, 1-6
“Jesus não pode fazer milagres em Nazaré”

 O texto de hoje encerra o segundo bloco da primeira parte do Evangelho de Marcos - que trata da cegueira dos familiares de Jesus.
O primeiro bloco (1,14-3, 6) mostrou a cegueira das autoridades, e o próximo bloco mostrará a cegueira dos discípulos.
Assim, Marcos gradativamente aumenta a tensão entre o que Jesus é e a incompreensão dos que o conhecem: autoridades, familiares e discípulos.
Tudo para poder lançar como questão fundamental do seu Evangelho a pergunta: “E vocês, quem dizem que eu sou?” (Mc 8, 29).
De uma maneira indireta, Marcos aqui toca em um dos problemas fundamentais dos cristãos - o escândalo da encarnação.
Frequentemente não temos tanta dificuldade em assumir a realidade da divindade de Jesus, mas sim, a sua humanidade!
Até hoje, quantas hipóteses esdrúxulas sobre onde Jesus teria passado os primeiros trinta anos da sua vida, quando a realidade é que Ele os passou como qualquer outro rapaz da sua geração – em uma família e comunidade do interior, trabalhando com as mãos e partilhando a dura sorte do seu
povo, com uma fé profunda na presença de Javé no seu meio - uma fé alimentada pelas Escrituras.
Frequentemente relutamos para não enxergar a opção real de Deus pelos marginalizados através da realidade da encarnação, pois essa verdade nos incomoda e exige mudanças em nossa maneira de ver o mundo e a Igreja e mudanças em nosso agir !
Os seus próprios parentes também não queriam aceitar a pessoa e a missão de Jesus.
Marcos não esconde a dureza das críticas: “Esse homem não é o carpinteiro, o filho de Maria?” (v. 3). Se fosse um fariseu, ou um “doutor”, ele teria sido aceito! Quanta coisa semelhante hoje - quando preferimos acreditar nas palavras e retórica dos “doutores” e desprezamos a sabedoria popular dos que lutam no meio do povo para um mundo mais justo!
Marcos retoma aqui o tema da primeira parte do Evangelho - que o caminho para conhecer Jesus não é através de uma corrida atrás de milagres. Pois os Nazarenos conheciam bem os milagres de Jesus: “E esses milagres que são realizados pelas mãos d’Ele?” (v. 2).
Aqui tocamos no cerne da questão: em Marcos,
Jesus nunca faz um milagre para despertar a fé em alguém. Pelo contrário, é a fé das pessoas que causa os milagres da parte de Jesus.
Por isso, é importante notar o verbo que Marcos usa: “E Jesus não pôde fazer milagres em Nazaré!” (v. 5). Não foi que não quisesse, nem que não fizesse milagres, mas que Ele não pôde fazer! Por quê? Por causa da falta da fé deles!
O texto nos desafia para que nos questionemos sobre o Jesus em quem acreditamos!
Conseguimos vê-Lo nos pequenos e humildes e nas pequenas ações em favor do Reino? Ou O buscamos em ditos “milagres” e coisas estrondosas, que muitas vezes podem mascarar uma relutância em assumir o caminho da Cruz?
Marcos quer suscitar uma desconfiança na sua comunidade - se nem as autoridades e nem os parentes de Jesus o compreenderam, será que nós O compreendemos?
Devagarzinho chegaremos ao Capítulo 8, o pivô de Marcos, onde seremos convidados a responder a pergunta fundamental da nossa fé: quem é Jesus para mim, para nós, hoje?

 

Tomé sou eu – experimentar a Deus

03 de julho de 2015


Evangelho (Jo 20,24-29): Tomé, chamado Gêmeo, que era um dos Doze, não estava com eles quando Jesus veio. Os outros discípulos contaram-lhe: «Nós vimos o Senhor!». Mas Tomé disse: «Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos, se eu não puser a mão no seu lado, não acreditarei». Oito dias depois, os discípulos encontravam-se reunidos na casa, e Tomé estava com eles. Estando as portas fechadas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». Depois disse a Tomé: «Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado e não sejas incrédulo, mas crê!». Tomé respondeu: «Meu Senhor e meu Deus!». Jesus lhe disse: «Creste porque me viste? Bem-aventurados os que não viram, e creram!».

Hoje a Igreja Celebra o dia de São Tomé. Por muitos anos, Tomé foi tido como uma pessoa que precisa ver para acreditar, um incrédulo. Tanto que na história, ficou marcada a frase “Eh São Tomé”, quando alguém não acreditava em algo que falávamos ou apresentávamos. Sempre foi colocado esta pecha que Tomé era uma pessoa exigente de provas para poder crer e acreditar.

No entanto, acho que podemos ver outro lado do sentimento/comportamento de Tomé, e talvez fique mais próximo de nós (ou eu mais próximo dele).

A religião, a fé, é apresentada, sobretudo pela Igreja, a todos os povos na história da humanidade. A bíblia é vendida em quase todas as livrarias. E hoje com a internet, muitas mensagens religiosas são transmitidas e retransmitidas.

No entanto, Tomé ao se reunir com seus melhores e mais íntimos amigos, ao ouvir deles que Jesus aparecera à eles, diz: “só acreditarei quando colocar as mãos em suas chagas”.

Não sei se foi isto mesmo que Tomé falou, e é difícil entrar dentro do coração dele para imaginar o seu sentimento.

Mas, usando nossa imaginação, daria para narrar o que aconteceu com outras palavras.

Tomé era uma pessoa que conhecera Jesus, assim como nós O conhecemos pela Igreja.

No entanto, o simples conhecimento, como hoje o simples ouvir ou mesmo estudar Jesus, não basta ao coração do ser humano.

É necessário experimentar este Deus.

Talvez quando Tomé fala “preciso colocar as mãos em suas chagas”, ele esteja falando “preciso experimentá-Lo em meu coração”.

E hoje, com Igrejas lotadas e com a proliferação de Igrejas, talvez muitos estejam falando, e quiçá nós mesmos: “eu conheço Jesus, mas preciso experimentá-Lo.

E, Jesus não se esconde dos que O procuram. Passada uma semana, Jesus se apresenta à Tomé que, fazendo a experiência, muda sua hierarquia interior de valores, e se reordena internamente, a ponto de chama-lo de “meu Senhor e meu Deus”. À partir daquela experiência forte e pessoal, o senhor de sua vida passa a ser Jesus, e o seu Deus passa a ser o Deus de Jesus.

Hoje temos Igrejas lotadas, mas quantos tem como senhor de sua vida o próprio Jesus? Quantos tem como Deus de sua vida o Deus de Jesus? Não vivemos hoje numa sociedade dita cristã, onde o senhor das pessoas são muitas vezes os costumes morais, os desejos materiais, a busca desenfreada pelo lucro, capital, conforto, etc.? Não temos inúmeras pessoas frequentadoras de religião que tem como Deus de sua vida o dinheiro, o status, a fama, o sucesso; enfim, bens que, não são ilícitos, mas que não podem estarem nos altares das nossas adorações?

Pensando assim, acho que muita gente, e talvez nós também, nos identificamos com Tomé. Tomé viveu com Jesus muitos anos, mas não basta. Há necessidade de ter a experiência de Jesus. Nós também frequentamos Igreja, catequese, movimentos, há tempos; mas, não basta. Há necessidade de fazermos a experiência pessoal de Jesus. Há necessidade de colocarmos o nosso dedo nas chagas dEle, ou seja, contato físico, íntimo, pessoal, que pode durar apenas alguns segundos; mas todos que tiveram esta experiência, mudaram suas vidas, re-hierarquizaram seus valores e suas preferências, passaram a fazer a diferença no mundo; relativizaram o que é relativo e absolutizou a Deus.

Viver uma vida longa sem nunca ter feito a experiência de Deus é não encontrar o tesouro escondido, a pérola enterrada, a moeda preciosa, o sentido da vida...

Que Deus Pai nos dê a humildade de Tomé, para dizer o que nosso coração também anseia “desejo de experimentar Jesus, colocar as mãos em suas chagas, experimentar o próprio Deus para realinhar meus pensamentos, desejos, atos e ações... Amém!”

 

Acordar a Deus e acalmar as tempestades

30 de junho de 2015

Evangelho (Mt 8,23-27): Então Jesus entrou no barco, e seus discípulos o seguiram. Nisso, veio uma grande tempestade sobre o mar, a ponto de o barco ser coberto pelas ondas. Jesus, porém, dormia. Eles foram acordá-lo. «Senhor», diziam, «salva-nos, estamos perecendo!» «Por que tanto medo, homens de pouca fé?», respondeu ele. Então, levantando-se, repreendeu os ventos e o mar, e fez-se uma grande calmaria. As pessoas ficaram admiradas e diziam: «Que homem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?».

Tem uma música do Pe.Jonas Abib que diz “o mar é Deus, e o barco sou eu... e o vento forte, que me leva prá frente, é o amor de Deus”.

Lembrando-me desta música, que faz uma alegoria a respeito desta passagem do Evangelho, e tomando-se como metáfora que cada um de nós, portanto, é o barco de Deus, que deve navegar no mar, que é o próprio Deus, Senhor da História, então cabe a pergunta: onde ocorre a tempestade? E a resposta seria: dentro do barco, ou seja, dentro de cada um de nós. E, ainda nesta alegoria, como estaria Jesus? E a resposta seria: dormindo. E, a última pergunta: Onde estaria Jesus? E a resposta seria: dentro do barco (que sou eu). Portanto, dentro de cada um de nós, está sim a presença de Deus, que pode estar acordado ou adormecido; mas está presente!

Quando acontece o adormecimento de Deus? Quando nós O deixamos dormir. Deixando a oração, as práticas evangélicas, a defesa da justiça, a opção pelos pobres, a mudança hierárquica dos valores, predominando em primeiro lugar coisas e não relações, quando deixamos de nos abraçar, de sorrir, de se encantar com a vida, de valorizar os pequenos momentos de amizade ou mesmo de amor... Enfim, quando nos afastamos da humanidade do nosso ser, então Deus adormece. E, não poderia ser diferente, pois Deus escolheu o Ser Humano para morar (encarnação de Jesus); mas, quando o humano deixa de existir, então não há mais espaço para este Deus Humano. “Veio para os que eram seus, e os seus não O receberam...” Poderíamos até dizer “mas os seus O adormeceram...”. E, de fato, muitas vezes queremos mesmo que Ele esteja adormecido, para não me interromper na caminhada

que estou fazendo, na trajetória que estou optando, nos valores que estou abraçando. Acordar a Deus significa acabar com as tempestades, acalmar o ambiente, significa uma nova realidade, que é preciso deseja-la, quere-la, busca-la, optá-la. O amor de Deus, como natureza do próprio amor, tem como essência a liberdade – liberdade de cada um permanecer nas suas tempestades ou acordar a Deus e vivenciar uma outra realidade – a decisão é livre de cada um – parar para orar ou não – praticar a justiça ou não – optar pelos mais necessitados ou não – amar ou não... todos somos livres – só não podemos depois reclamar das tempestades, caso elas estejam ocorrendo; afinal, como já foi dito em outro trecho do evangelho: o Reino está no meio de vós, entre vós... a opção é livre, e as consequências da opção também.

Que tenhamos discernimento suficiente para abraçarmos o que melhor nos conduz ao caminho do Pai, Amém!

 

A Deus o que é de Deus
02 de junho de 2015


Evangelho (Mc 12,13-17): Então, mandaram alguns fariseus e partidários de Herodes, para apanhar Jesus em alguma palavra. Logo que chegaram, disseram-lhe: «Mestre, sabemos que és verdadeiro e não te deixas influenciar por ninguém. Tu não olhas a aparência das pessoas, mas ensinas segundo a verdade o caminho de Deus. Diz-nos: é permitido ou não pagar imposto a César? Devemos dá-lo ou não?».


Ele percebeu-lhes o fingimento e respondeu: «Por que me armais uma armadilha? Trazei-me a moeda do imposto para eu ver». Trouxeram-lhe uma moeda. Ele perguntou: «De quem é esta figura e a inscrição?». Responderam: «De César». Então, Jesus disse: «Devolvei, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus ». E estavam extremamente admirados a respeito dele.

Devolvei a César o que é de César e a Deus o que é de Deus

Além de ser uma resposta inteligente por parte de Jesus, esta frase pode ter “n” significados, sobretudo se a tivéssemos no seu original para ver os detalhes de cada artigo/palavra. Mas, ficando na frase tal como está, podemos refletir a respeito da nossa religiosidade. Independente da religião de cada um, observamos que é comum nos ritos religiosos (Culto – Missa), termos momentos de “entrega”, de “doação” a Deus. Na Missa chama-se “ofertório”. Momento em que se deve colocar no altar nossa vida, nossa caminhada, nossos desejos, sonhos, etc.. Quando se queima o incenso dá-se como uma imagem de que tudo sobe ao Pai, dando a Deus o que é de Deus.

Dar a Deus o que é de Deus – o que é de Deus? Muitas coisas são de Deus: justiça, amor, fraternidade, bem estar social, verdade, misericórdia, bondade, etc.. Portanto, todos estes valores são valores que vieram de Deus e para Ele devemos ofertar. Desta forma, uma pessoa que tem uma vida dissonante destes valores de Deus, nada podem ofertar nos altares. Pode até participar da procissão das oferendas na Missa, mas nada podem ofertar (não te agradam os holocaustos que me ofereces... o sacrifício que desejo é um coração contrito e humilhado). Portanto, nossa vida deve ser uma vida de doação à Deus o que é de Deus. Lutar pela vida, própria e dos demais; praticar a justiça, etc.. Quem assim age, pode com tranquilidade participar de Missa ou Culto ou outro ato religioso, e oferecer a Deus o que é de Deus. Quem não tem essa prática, não há o que oferecer nos atos religiosos, pois o que possuem não é de Deus, e sim de César.

Não temos em nós inscrição de César, mas sim de Deus. No entanto, tem gente que prefere mudar sua inscrição. Pode até fazer, mas como a origem e a essência é de Deus, haverá um desconforto permanente entre a inscrição escolhida e a essência original. Daí a infelicidade, tristeza, vazio, etc.. Nossa inscrição é de Deus e, como diria Santo Agostinho, nosso coração não descansa em paz, enquanto não descansar Nele.

Amém!

Que o Espírito venha nos motivar para a vida verdadeira
15 de maio de 2015

Evangelho (Jn 16,20-23a): «Em verdade, em verdade, vos digo: chorareis e lamentareis, mas o mundo se alegrará. Ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria. A mulher, quando vai dar à luz, fica angustiada, porque chegou a sua hora. Mas depois que a criança nasceu, já não se lembra mais das dores, na alegria de um ser humano ter vindo ao mundo. Também vós agora sentis tristeza. Mas eu vos verei novamente, e o vosso coração se alegrará, e ninguém poderá tirar a vossa alegria. Naquele dia, não me perguntareis mais nada. Em verdade, em verdade, vos digo: se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vos dará».

Na verdade estas leituras colocadas ao dia a dia são preparativos para o Pentecostes, que será celebrado pela Igreja Católica não neste domingo, mas no outro. Trata-se de uma Celebração onde recorda-se o envio do Espírito Santo sobre os apóstolos, onde os mesmos, mediante a recepção deste Espírito, ganham força e entusiasmo para a luta do dia a dia. É o que os motivará para a continuidade de suas vidas, sem a presença física de Jesus, mas com a presença interior de Jesus nos seus corações. Esta força motivacional é necessária a todos os seres humanos. Independente de como supostamente foi este cenáculo onde o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos, a verdade é que hoje, no século XXI, mais do que nunca precisamos de uma força motivadora interior para enfrentarmos os desafios colocados na atualidade. E, um dos desafios, é discernir o que é verdade e o que não é verdade nos meios de comunicação, é encontrar jóias preciosas no meio dos lodos, etc.. Que Deus nos dê este Espírito Santo para conduzirmos nossa vida, nossa caminhada, na verdade, e assim sermos livres de estarmos sendo conduzidos por meios de comunicação que, de valor humano, estão cada vez mais pobres – Amém!

Meus amigos: hoje partilho a reflexão que recebo sempre do Pe.Thomas, pois acredito que seja muito útil.

SEXTO DOMINGO DA PÁSCOA (10.05.15)
Jo 15, 9-17
“Amem-se uns aos outros”
Poucos trechos do Evangelho de João são tão conhecidos como o de hoje, por causa das diversas frases lapidares tecidas dentro dele. Sobressai o tema básico do “amor” - como a característica que deve distinguir os/as discípulos/as de Jesus.
O amor é um dos temas preferidos da sociedade atual, como mostram os nossos cantos, poemas e novelas - mesmo que seja mais na fala do que na prática, e muitas vezes usado para camuflar um egoísmo crasso. Por isso, torna-se necessário recuperar o sentido profundo do amor nos Evangelhos. Até um estudo rápido mostra que o termo tem outro sentido do que aquele que a nossa sociedade liberal e consumista lhe atribui. Na sociedade atual, o amor geralmente não passa de um sentimento agradável, uma emoção, quando não de um egoísmo disfarçado. Tendo como base a emoção, torna-se temporário, volúvel, sem consistência, descartável. Passado o sentimento, termina o amor! Uma das consequências dessa visão pós-moderna é o alto índice de divórcios, de separações, de desistências de tudo que é compromisso, pois a base é como areia movediça e não sustenta o peso do dia-a-dia.
            O amor ao qual Jesus nos conclama tem outro sentido - é o amor “como eu os amei”. Como foi que Ele nos amou? Dando a vida d’Ele por nós. O amor torna-se uma atitude de vida e não primeiramente um sentimento. A comunidade dos discípulos/as - a Igreja - deve ser uma comunidade de pessoas comprometidas com o projeto de Jesus, que veio “para que todos tivessem a vida e a vida plenamente” (Jo 10, 10). A comunidade cristã deve ser muito mais do que um grupo de amigos e companheiros (oxalá fosse isso também, pois frequentemente, nem isso é!) - deve ser uma comunidade enraizada no amor de Jesus, que é a Encarnação do Deus da vida, animada pelo seu Espírito e dedicada a criar o mundo que Deus quer.
A pedra-de-toque de uma comunidade cristã então não será o sentimento e a emoção, mas os frutos que ela dá, frutos que devem permanecer (v. 16) e que não devem evaporar com a instabilidade dos sentimentos. Tal comunidade vai ser comunidade de vida e partilha, da justiça e solidariedade, da verdadeira paz e dedicação. Saberá ultrapassar os limites da mera simpatia e atração, para assumir a vida de cada irmão e irmã como expressão do amor do Pai.
É interessante que, embora o trecho situe-se no contexto da véspera da paixão, Jesus fala da alegria completa. É impressionante como, em um mundo que propõe a satisfação imediata pessoal e a “felicidade já” como metas, garantidas pelo consumo e pelas posses, há tanta gente desanimada, triste, insatisfeita e deprimida. Quantos jovens, mesmo - ou talvez especialmente - nas classes mais abastadas, são irrequietos e perdidos na vida. Pois, a alegria não vem somente das posses e dos bens materiais, e uma vida baseada sobre eles vai necessariamente levar à frustração. Mas também há muita gente, muitas vezes com uma vida sofrida e difícil, que irradia a verdadeira alegria e profunda paz, pois as suas vidas são alicerçadas sobre a rocha - uma vida de amor verdadeira, na doação de si, na busca de uma vida digna para todos. A sociedade do consumo nos aponta um caminho para a felicidade - sempre ter mais, em uma busca individualista de felicidade, que só pode nos levar à alegria falsa dos shows de Faustão ou Sílvio Santos. Jesus nos aponta o caminho para a verdadeira alegria - uma vida de amor-doação, de busca da justiça e solidariedade, que não tem a alegria como meta, mas que a traz como consequência.
Não há nenhum mandamento “simpatizai-vos uns com os outros”, mas há o mandamento do amor! Para isso, precisamos de uma vida fortemente fundamentada no Evangelho e no seguimento de Jesus, pois sem isso será impossível sustentá-la. Jesus nos quer como “amigos” e não servos, ou seja, pessoas que livremente assumem o seu projeto. Assim assinala que a religião não deve ser simplesmente o cumprimento de uma série de leis e regulamentos, mas o seguimento de um projeto de vida, continuador da sua missão, no mundo atual. Um projeto além das nossas forças humanas, pelo qual precisamos do dom sempre renovado do Espírito Santo, um dom que nos é garantido, pois, como diz o texto “o Pai dará a vocês qualquer coisa que vocês pedirem em meu nome” (v. 16). É um projeto que nos coloca na contramão da sociedade atual, consumista e excludente, mas que nos garante uma vida realizada e plena, que os falsos ídolos do consumismo são incapazes de nos dar. “O que mando é isso - amem-se uns aos outros”. (v. 17)

Se O amarmos, Ele virá morar em nós

04 de maio de 2015

Evangelho (Jn 14,21-26): «Quem acolhe e observa os meus mandamentos, esse me ama. Ora, quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele». Judas, não o Iscariotes, perguntou-lhe: «Senhor, como se explica que tu te manifestarás a nós e não ao mundo?». Jesus respondeu-lhe: «Se alguém me ama, guardará a minha palavra; meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada. Quem não me ama, não guarda as minhas palavras. E a palavra que ouvis não é minha, mas do Pai que me enviou. Eu vos tenho dito estas coisas enquanto estou convosco. Mas o Defensor, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito».

«Se alguém me ama, guardará a minha palavra; meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada”.

Faremos nele a nossa morada... moraremos dentro desta pessoa. Deus é quem fala que vai “morar”, “se instalar”, dentro do ser humano. Não falou “dentro de uma igreja”, “dentro de uma imagem”, ou “longe nos céus”, “no infinito distante” – mas, intimamente, dentro da pessoa humana. Esta é a proposta, desejo, sonho de quem ama: morar dentro do outro. Quando dois seres humanos se amam, eles não se aguentam separados fisicamente, e passam a conviver na mesma casa. Isto é perfeitamente compreensível a sociedade. No entanto, Deus também tem esta proposta, só que de maneira mais íntima: morar dentro da pessoa. E, quando Deus mora dentro da pessoa, e estas pessoas se unem, reúnem, se encontram, aí ocorre a verdadeira igreja – “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, Eu mesmo estarei no meio deles”, disse Jesus. Claro que Deus está em toda parte, e inclusive dentro da Igreja, mas o que Jesus ressalta aqui neste trecho é onde Ele tem o desejo de fazer morada... E fica claro: “dentro de mim”. Mas, Ele diz: “aquele que me ama, viremos à ele, e faremos nele nossa morada”; ou seja, não é um intruso, mas é alguém que respeita a nossa liberdade – amá-Lo, significa deseja-Lo. E, desejando à Ele, Ele virá sim, fazer morada em nós. Caso contrário, fica a letra daquela música “procuro abrigo nos corações, de porta em porta desejo entrar, se alguém me acolhe com gratidão, faremos juntos a refeição”. Ou seja, segundo esta música, Ele fica na porta, aguardando, esperando... como o Pai na parábola do filho pródigo, na estrada, aguardando os eu filho/a... Havendo brecha, Ele entra – caso contrário permanece do lado de fora. A opção é livre e pessoal de cada um. A decisão é nossa. O que Ele fará já se sabe...
Que tenhamos a graça de amá-Lo, para que assim Ele possa em nós morar – e assim, sermos construtores do Reino, ou melhor, co-construtores do Reino –amém!

Meus amigos: transcrevo abaixo a reflexão que recebi do Pe.Thomas, que julgo ser útil para o dia de hoje.

3.5.2015

Evangelho (Jn 15,1-8): «Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não dá fruto em mim, ele corta; e todo ramo que dá fruto, ele limpa, para que dê mais fruto ainda. Vós já estais limpos por causa da palavra que vos falei. Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto se não permanecerdes em mim. »Eu sou a videira e vós, os ramos. Aquele que permanece em mim, como eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim, nada podeis fazer. Quem não permanecer em mim será lançado fora, como um ramo, e secará. Tais ramos são apanhados, lançados ao fogo e queimados. Se permanecerdes em mim, e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes, e vos será dado. Nisto meu Pai é glorificado: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos».
QUINTO DOMINGO DE PÁSCOA (03.05.15)
Jo 15, 1-8 - “Sem mim, vocês não podem fazer nada”
Esse texto inicia a seção do quarto evangelho que tem os trechos que mais se aproximam aos discursos da vida pública de Jesus nos Evangelhos Sinóticos. Aqui temos um exemplo raro de uma parábola em João - a da vinha e dos ramos, uma metáfora que expressa o amor íntimo entre Jesus e os seus discípulos. Em contraste, o segmento seguinte (15, 18-16, 4) vai tratar do ódio do mundo (as forças do anti-Reino) para com os seus seguidores.
No Antigo Testamento frequentemente se retrata Israel como a vinha (ou videira) escolhida de Deus, que Ele cuidava com muito amor, mas que deu frutas amargas. Na primeira parte de João, o autor demonstra como Jesus substitui as instituições e festas judaicas; agora, Ele se manifesta como a vinha do Novo Israel. Se ficarem unidos a Ele, os discípulos/as darão somente frutos que agradarão ao vinhateiro - o Pai. No Antigo Testamento, Deus muitas vezes ameaçava podar ou até desenraizar a vinha improdutiva. Embora a vinha do Novo Israel não falhe, sempre haverá ramos secos a serem tirados e queimados.
          A Bíblia sempre insiste que o fruto que Deus quer é a prática da justiça e solidariedade. Este tema perpassa a Bíblia toda, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Os cristãos somente poderão dar este fruto agradável se ficarem unidos a Jesus, pois, como ele disse, “sem mim, nada poderão fazer”. Mais uma vez volta-se à ideia que é pelos frutos que se conhece a árvore.
Assim, nos leva a refletir sobre os frutos que mais de 500 anos de evangelização têm dado no Brasil e na América Latina, como foi feito pela Conferência de Aparecida e o documento publicado por ela. Com uma das piores distribuições de renda no mundo, com uma das maiores concentrações de terras nas mãos de poucos, com indígenas e pobres marginalizados, com tanta gente sofrida, talvez muita coisa tenha que ser podado pelo Pai, para que realmente sejamos a verdadeira videira na vinha do Senhor. Como dizia o mártir salvadorenho Dom Oscar Romero: “Uma religião de Missa Dominical, mas de semanas injustas, não agrada o Deus da vida. Uma religião de muita reza, mas de hipocrisias no coração, não é cristã. Uma Igreja que se instala só para estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, porém que não ouve o clamor dos injustiçados, não é a verdadeira Igreja do nosso Divino Redentor” (Discurso 04.12.1977).
 Sem dúvida, há muita coisa realmente boa acontecendo nas comunidades cristãs do Brasil, bem como na sociedade civil em geral, mas o teste mesmo é a construção de uma sociedade baseada nos princípios de justiça, fraternidade e solidariedade e não no lucro, competitividade e na lei da selva. Hoje, diante da recessão mundial, um dos sentimentos mais comuns em todas as camadas da sociedade é a da impotência. Parece que estamos sem forças diante do rolo opressor do sistema hegemônico, do neo-liberalismo, da globalização, das forças do mercado, da corrupção. Seria fácil cairmos na tentação de desistir da luta para melhorar a sociedade, pois os resultados parecem ínfimos. Por isso urge cada vez mais ficarmos unidos a Jesus, na oração e no compromisso, a Ele que parecia também um derrotado, mas que teve a vitória final na Ressurreição. Se sem Ele nada podemos fazer, o contrário é também verdade - com Ele tudo podemos! Talvez não da maneira que gostaríamos, mas sem dúvida como colaboradores d’Ele na construção do Reino de Deus. 
As dificuldades enfrentadas pelos movimentos populares em favor dos excluídos e pelos setores mais comprometidos das Igrejas - às vezes dentro da própria Igreja - os sofrimentos dos mártires da caminhada e das suas famílias, são podas - mas podas que darão mais fruto ainda. A eleição do Papa Francisco, e a sua atuação desde eleito, nos trouxeram um novo alento e uma nova esperança Como as forças opressoras do Império Romano, aliadas às elites do judaísmo, não conseguiram matar o projeto de Jesus, nem as forças opressoras de hoje conseguirão matar o crescimento do Reino entre nós - uma vez que fiquemos unidos a Ele, e entre nós, pois Jesus mesmo nos disse, “sem mim, nada poderão fazer”!

Meus amigos: hoje não partilho uma reflexão minha, mas uma reflexão que consta do site "evangeli.net", do que eu considerei muito boa e oportuna para estes tempos de "corre-corre" que estamos vivendo.
1.5.2015

Evangelho (Jn 14,1-6): «Não se perturbe o vosso coração! Credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fosse assim, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós. E depois que eu tiver ido e preparado um lugar para vós, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais vós também. E para onde eu vou, conheceis o caminho». Tomé disse: «Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?». Jesus respondeu: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim».
Comentário: Rev. D. Josep Mª MANRESA Lamarca (Les Fonts del Vallès, Barcelona, Espanha)
Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim
Hoje, nesta sexta-feira da IV semana da Páscoa, Jesus nos convida à calma. A serenidade e a alegria fluem como um rio de paz, desde o seu Coração ressuscitado até o nosso, agitado e inquieto, muitas vezes sacudido por um ativismo tão febril como estéril.

São os nossos tempos de agitação, nervosismo e estresse. Tempos nos quais o pai da mentira infectou as inteligências dos homens, fazendo-os chamar bem ao mal e mal ao bem, tomando luz por obscuridade e obscuridade por luz, semeando em suas almas a dúvida e o ceticismo que nelas queimam todo broto de esperança em um horizonte de plenitude que o mundo, com suas adulações, não sabe nem pode dar.

Os frutos de tão diabólica empresa ou atividade são evidentes: a falta de sentido e a perda de transcendência que se apoderaram de tantos homens e mulheres que não apenas se esqueceram, mas também se extraviaram do Caminho, porque o desprezaram antes. Guerras, violências de todo gênero, intransigência e egoísmo diante da vida (anticoncepção, aborto, eutanásia…), famílias destruídas, juventude “desnorteada”, e um grande etcétera, constituem a grande mentira sobre a qual se sustenta boa parte do triste andaime da sociedade de tão alardeado “progresso”.

No meio de tudo, Jesus, o Príncipe da Paz, repete aos homens de boa vontade, com sua mansidão infinita: «Não se perturbe o vosso coração! Credes em Deus, crede também em mim» (Jo 14, 1). À direita do Pai, ele acalenta, como um benévolo sonho de sua misericórdia, o momento de ter-nos junto a ele, «a fim de que, onde eu estiver, estejais vós também» (Jo 14, 3). Não podemos nos escusar como Tomé. Nós sabemos o caminho. Nós, por pura graça, conhecemos, sim, a senda que conduz ao Pai, em cuja casa há muitas moradas. No céu nos espera um lugar que ficará para sempre vazio se não o ocuparmos. Aproximemo-nos, pois, sem temor, com ilimitada confiança de Aquele que é o único Caminho, a irrenunciável Verdade e a Vida em plenitude.

Jesus é o Belo Pastor27 de abril de 2015

Na partilha do deserto de ontem, Márcio disse que tinha ido na catedral São Dimas e o Padre falou que a melhor tradução não seria “bom pastor”, mas sim “belo pastor”. Jesus se apresenta como belo, para tentar trazer ao povo judeu a imagem original de Deus: Deus é belo, Deus é bom, Deus é bondoso, Deus é misericordioso; por isso, dizer “Deus é belo”. Isto porque naquela época (e hoje também) pregava-se a existência de um Deus carrasco, olheiro, castigador, austero, etc., e, diante desta imagem que tinham de Deus, então Jesus vem com a missão de mostrar a verdadeira face de Deus. Um Deus que é Pai, que vem pastorear suas ovelhas, não condenando-as, mas alimentando-as, cuidando delas, uma a uma, chamando-as pelo nome, amando-as a cada uma. É diferente da tradução que se coloca hoje como “bom pastor”; é muito mais!
Outra coisa partilhada também pelo Márcio foi a questão de Jesus fazer similaridade de sua pessoa com o “pastor”, pois hoje temos imagens bonitas de pastor, com ovelhas nas costas, etc., mas na verdade esta imagem não corresponde a realidade da época. Pastores eram pessoas que viviam fora da cidade, pessoas sujas, pessoas que dormiam com os animais (ovelhas), pessoas pobres... portanto, “sem status”. E Jesus não veio e falou “eu sou o Novo Herodes”, “eu sou o Novo Imperador”, “eu sou O Novo Governo Humano e Bondoso”; não! A identificação não é com nenhum personagem que está ligado ao poder político ou eclesiástico. Poderia falar “eu sou o bom escriba, fariseu, sacerdote, ancião...”; não! Não se identifica com as estruturas de poder existentes. Ele, Filho de Deus, se identifica com o pastor... o belo pastor... Portanto, além de ser a imagem do extremamente bondoso Deus, que por si é Belo, também se identifica com a marginalidade da sociedade, criada à partir de uma estrutura social não condizente com o Reino de Deus.
Portanto, um trecho do Evangelho, digamos, revolucionário. Tanto do ponto de vista teológico, que tenta mostrar a verdadeira face de Deus, como denunciador de uma estrutura politica/social/religiosa, que não condiz com o projeto de Reino.
Desta forma, podemos concluir a impossibilidade, do ponto de vista cristão, de unir as realidades distintas: Reino e Poder Político Opressor; Reino e Poder Religioso Opressor. São realidades inconciliáveis. Jesus não veio “melhorar” as relações políticas/religiosas; veio trazer uma “nova relação”, um novo (outro) conceito de poder, um novo (outro) conceito religiosidade. Uma religiosidade que não aposta no medo e na culpabilidade, não aposta do distanciamento de Deus com seus filhos... mas uma espiritualidade que liberta, e uma política que esteja à serviço do bem comum.
Eu sou o Belo Pastor... os que se dizem cristãos, devem (ou deveriam) refletir este projeto de vida (pessoal e social) no dia a dia.
Amém!

Jesus é o bom pastor e os cristãos assim o devem ser também
26 de abril de 2015

Evangelho (Jn 10,11-18): «Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas. O mercenário, que não é pastor e a quem as ovelhas não pertencem, vê o lobo chegar e foge; e o lobo as ataca e as dispersa. Por ser apenas mercenário, ele não se importa com as ovelhas. Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas. »Tenho ainda outras ovelhas, que não são deste redil; também a essas devo conduzir, e elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor. É por isso que o Pai me ama: porque dou a minha vida. E assim, eu a recebo de novo. Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por própria vontade. Eu tenho poder de dá-la, como tenho poder de recebê-la de novo. Tal é o encargo que recebi do meu Pai». O mercenário, que não é pastor e a quem as ovelhas não pertencem, vê o lobo chegar e foge; e o lobo as ataca e as dispersa.
Chama atenção a frase “a quem as ovelhas NÃO pertencem”. Hoje, século XXI, tem tanto “pastor” picareta, e, embora possamos ter aparentes grandes rebanhos, Jesus deixa claro: “estas ovelhas NÃO pertencem àquele pastor...” Ou seja, as ovelhas tem uma pertença à um pastor verdadeiro, independente da consciência destas ovelhas ou não. Nós todos, a humanidade toda, tem uma pertença a um pastor, que é o próprio Deus. Acredito eu que há muita angústia no mundo vivenciada por pessoas que não se sentem “em pertença” a Alguém; e o ser humano tem esta necessidade de “pertença”. Aliás, quando duas pessoas começam a se conhecer, após apresentado o nome, talvez o endereço, talvez a profissão, a próxima pergunta é “e você, pertence a algum grupo, partido, comunidade, movimento, etc.?” E, quando a pessoa diz que “pertence” a um determinado movimento/grupo/agremiação, e isto tem alguma sintonia com o outro, normalmente a conversa flui com outra velocidade, outra facilidade. É comum ouvir-se “que legal, eu também sou deste movimento/grupo, etc.”, e daí a relação fica mais amenizada e o grau de confiança aumenta. Por que? Porque o outro tem “a mesma pertença que eu”. Portanto, esta frase é significativa: “estas ovelhas NÃO pertencem à este mercenário”. As ovelhas, todas, tem uma pertença à Alguém Superior.
Por ser apenas mercenário, ele não se importa com as ovelhas.
O que mais importa ao mercenário é qualquer coisa, menos o outro. Pode ser dinheiro, status, possibilidade de conseguir algo através do outro, e tantas outras coisas; mas, uma coisa não é de sua natureza: “importar-se com o outro”. E, neste mundo onde muita gente se diz cristão, precisamos de sinais para saber quem são, de fato, cristãos, e quem são os ‘pseudo-cristãos’. E, parece que um dos sinais está dado aqui: “importar-se com o outro”. Quem se importa com o outro, está numa similaridade com o verdadeiro Pastor; quem não se importa com o outro (egoísmo) está em similaridade com o “falso pastor”, ou seja, com o “mercenário”. Portanto, um dos sinais não é a frequência à Igreja, possuir livros religiosos, andar com a bíblia, ou ter algum cargo ou função na igreja; um dos sinais é “importar-se com o outro”. E isto vale tanto no campo pessoal quanto social. No campo social é a ação do bom samaritano – ser próximo de quem está neste momento próximo precisando de mim. E no campo social é estar engajado pela luta da justiça, do bem comum. Não dá para uma pessoa falar que não se interessa pela política, pela sociedade, pois isto é “não se importar com o outro”, o que demonstra, na prática, que não está agindo na linha do bom pastor. O bom pastor não contenta com políticas sociais que afetam negativamente a humanidade. Por exemplo, nestes últimos dias no Congresso Nacional foi votada uma lei que tira direitos dos trabalhadores, com voto favorável de pastores e católicos (alguns dito fervorosos)... Podem ter rótulos de religiosidade, mas demonstram, na prática, o distanciamento do verdadeiro pastor – consciente ou não, estão alinhados ao mercenário, e não ao pastor verdadeiro – podem até cantar, fazer show, pregações, carregar bíblias debaixo do braço, no entanto, não estão alinhados com o verdadeiro pastor, pois o verdadeiro pastor “se importa” com o outro – pessoa humana – e não com outros interesses.
Conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai.
Aqui o “conhecer” não é de ter a ficha cadastrar do outro, mas o “conhecer” é no sentido de “comungar” o outro. Saber e entender o outro de forma
profunda, amando-o. Jesus fala que “conhece” suas ovelhas, ou seja, Ele nos ama apaixonadamente, e está pronto a nos servir.
Eu dou minha vida pelas ovelhas.
Para mim não é no sentido de que Ele vai morrer na cruz, mas no sentido que sua vida é uma dedicação ao outro. Dar a vida não significa só o ato de morrer, o ato de cessar as funções biológicas do ser humano. Dar a vida é viver de tal forma que a vida é partilhada com o outro, com o próximo. Dar a vida, é dar a amizade, a presença, o amor, o afeto, o carinho... Existem muitos, mas muitos, que dão a vida pelo outro (e às vezes nem Igreja frequentam). Estes, são espelhos do verdadeiro pastor. Aliás, aqui talvez vá uma outra característica do verdadeiro pastor: “dar a vida pelo outro” – ou seja, ser disponível para o outro, ser alguém em que o outro pode contar...
Este trecho do Evangelho é muito rico... que possamos tê-lo sempre em nossas mentes e corações, para não cairmos numa tentação forte deste século XXI – entrarmos numa religião que nada tem a ver com o verdadeiro evangelho – muitas vezes para sentir-se bem, outras vezes para acalmar a consciência que exige estar num caminho religioso, sem fazer alterações do modo de ser. Uma religiosidade que une os interesses capitalistas/egoístas com uma caminhada cristã, como se pudesse misturar água com óleo. Uma religiosidade fundamentada mais num “status quo” que num projeto do Reino. Esta tentação está cada vez mais eficiente... o tempo passa, mas a mensagem é a mesma: “o bom pastor conhece as suas ovelhas e dá à vida por elas”. Ponto final. Não há variantes desta mensagem. Que Deus nos dê a graça de nos alinharmos à mensagem verdadeira – Amém!

A Deus não se vê, mas se experimenta
21 de abril de 2015

Evangelho (Jn 6,30-35): Eles perguntaram: «Que sinais realizas para que possamos ver e acreditar em ti? Que obras fazes? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: ‘Deu-lhes a comer o pão do céu’». Jesus respondeu: «Em verdade, em verdade, vos digo: não foi Moisés quem vos deu o pão do céu. É meu Pai quem vos dá o verdadeiro pão do céu. Pois o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo». Eles então pediram: «Senhor, dá-nos sempre desse pão!». Jesus lhes disse: «Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome, e quem crê em mim nunca mais terá sede».

Eles perguntaram: «Que sinais realizas para que possamos ver e acreditar em ti?

No início do Evangelho de São João, tem uma passagem em que João Batista aponta “eis o Cordeiro de Deus” e André e outro discípulo vão atrás de Jesus. Jesus olha para trás e pergunta “a quem procurais?” E eles respondem: “mestre, onde moras?”. E Jesus responde: “vinde e vêde”. Diz o Evangelho: “e ficaram com Ele aquele dia”.
Por que me vez este trecho na memória? Porque no trecho de hoje, os judeus querem “ver” para “acreditar”. E a Deus não se acredita pelo que se vê, e sim pelo que se experimenta. Ninguém faz um compromisso de amor com outro por ter visto o outro (pode ter uma paixão imediata, que pode passar ou não), mas uma convivência amorosa ocorre depois que se “experimenta” aquela pessoa. Nem sempre uma beleza física, por exemplo, corresponde à uma pessoa cordial, bonita interiormente. O contrário também é igual: nem sempre uma aparência física não tão sedutora, desaparece, quando percebemos a beleza interior da pessoa, quando a experimentamos como amiga, companheira, etc.. Ou seja, as relações humanas são compreensíveis que se aprofundam pela ‘experiência’ que se faz com o outro, e não com a simples visão que se tem daquela pessoa. E, no trecho de hoje, eles querem “ver” para “acreditar”, e não é o caso; mas o caso é “experimentar” para “aderir” à pessoa de Jesus. No entanto, aparentemente contraditório à isto,  tem o trecho que iniciei nesta reflexão, onde Jesus mesmo fala aos futuros apóstolos “vinde e vêde”. No entanto, o Evangelho continua, não dizendo que eles foram e “viram” onde Jesus morava, mas sim que “foram e ficaram com Ele aquele dia”. Este “ficar” é que mudou a vida daqueles dois.
Os dois discípulos de Emaús também “viram” Jesus caminhando com eles, mas não O reconheceram; salvo quando “o experimentaram” dentro da sua casa. Jesus “fez de conta que ia embora” e eles disseram “é tarde, fica conosco...”. Jesus “entrou” na casa deles, e os olhos deles “se abriram”.
Jesus ressuscitado aparece aos apóstolos, e eles viram, e daí? Nada! No entanto, Jesus pede para ser experimentado: “coloquem a mão em mim...” – e daí eles crêem.
Maria Madalena chora ao túmulo e vê Jesus ressuscitado e “pensa que é um jardineiro”. Quando Jesus fala seu nome, ela faz uma experiência simbiótica de sua audição com as palavras do Mestre, e daí tudo muda dentro dela.
Quando duas pessoas fazem a experiência de um “perceber”, “conhecer profundamente” o outro, pode nascer o verdadeiro amor.
Jesus se diz “pão que desceu do céu”, se diz “alimento”. E, da mesma forma que falou para a samaritana que, quem dEle beber nunca mais terá sede, aqui fala aos judeus que quem dEle comer, nunca mais terá fome.
A samaritana “bebeu” e mudou de vida. Aqui os judeus não O experimentarão e O deixarão.
A Deus não basta ver... a Deus se experimenta... Relação humana não é apenas de ver o outro (se fosse assim, bastava colocar a foto na internet para realizarmos os casamentos do mundo). Da mesma forma que uma relação profunda entre os seres humanos se faz por experiência, também com Deus, uma relação profunda se faz pela experiência.
E alguém poderia perguntar: “como posso experimentar Deus?”.
E vejo vários caminhos, mas dois são certeiros, e complementares: a oração e “fazer as coisas de Deus”.
A oração é o contato íntimo da pessoa com o Seu Criador, do ser humano com Aquele que dá sentido ao próprio Ser Humano. E “fazer as coisas de Deus”, é praticar a justiça, lealdade, misericórdia, perdão, amor, amizade, benevolência, cordialidade, defesa dos pobres e oprimidos, uma vida reta ao lado dos que mais precisam... Caminho que, inevitavelmente, levará para uma experiência profunda de Deus. Quem duvidar disto, tem um vídeo chamado “o quarto sábio”, onde fica claro que uma pessoa que passa a vida fazendo o bem, mais cedo ou mais tarde, se depará com o rosto do próprio Jesus. E, em Matheus 25, o próprio Jesus se apresenta à todos como “aquele que teve fome, sede e foi saciado, que estava nú e foi vestido, que quando preso, foi visitado, enfermo foi assistido...”. Portanto, são formas experienciais práticas que leva um ser humano a descobrir o verdadeiro valor de sua vida, e, por consequência, encontrar a própria vida.
Os dois caminhos (oração e fazer as coisas de Deus) são complementares entre si. Oração que não leva a fazer as coisas de Deus deve ser desconfiada. Oração que não leva o orante a uma mudança constante (em direção de quem mais precisa) deve ser questionada.  
Experimentar a Deus... eis o desafio atual, no entanto, anseio interior de todo ser humano, que nunca se realizará por completo com amores pequenos, projetos finitos e tantas outras coisas “bonitas de se ver”, mas que não o saciam plena e abundantemente... 



Jesus nos ensina a não perdermos o rumo do sentido da nossa existência

20 de abril de 2015

Evangelho (Jo 6,22-29): No dia seguinte, a multidão que tinha ficado do outro lado do mar notou que antes havia aí um só barco e que Jesus não tinha entrado nele com os discípulos, os quais tinham partido sozinhos. Entretanto, outros barcos chegaram de Tiberíades, perto do lugar onde tinham comido o pão depois de o Senhor ter dado graças. Quando a multidão percebeu que Jesus não estava aí, nem os seus discípulos, entraram nos barcos e foram procurar Jesus em Cafarnaum. Encontrando-o do outro lado do mar, perguntaram-lhe: «Rabi, quando chegaste aqui?». Jesus respondeu: «Em verdade, em verdade, vos digo: estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes saciados. Trabalhai não pelo alimento que perece, mas pelo alimento que permanece até à vida eterna, e que o Filho do Homem vos dará. Pois a este, Deus Pai o assinalou com seu selo». Perguntaram então: «Que devemos fazer para praticar as obras de Deus?». Jesus respondeu: «A obra de Deus é que acrediteis naquele que ele enviou».

Duas coisas neste Evangelho: primeiro a questão do povo que vai até Jesus, não por questão religiosa/espiritual, mas por questão material. Outra é que Jesus “não se engana”, percebe que o pessoal vai atrás dele por interesses próprios, e Jesus, como ser humano, poderia ficar quieto e aceitar a presença deste pessoal, pois embora estivessem vindo à Ele com interesses próprios, é Ele – Jesus – que pode dar ou não o que eles querem; portanto, do ponto de vista humano, a presença de pessoas “dependentes” de você, geralmente dá um “bem estar” que sacia o ego humano – e Jesus diz “não” à esta satisfação humana que lhe é proporcionada, em cima de um projeto/proposta que não condiz com a sua missão principal – trazer o Reino de Deus para os corações humanos.
Este segundo ponto é interessante, pois acredito que a maioria de nós, seres humanos, ficaríamos “saciados” de termos pessoas recorrendo a nós, e nós tendo “o poder” se resolver os problemas dela ou não (neste caso, fome de pão). Mas, Jesus, que deve ter sentido isto, talvez tenha se lembrado da tentação no deserto “nem só de pão vive o homem”, Jesus se reporta à sua mais íntima constituição interior e percebe que, apesar do prazer que sente em ver as pessoas recorrerem à Ele, tem pleno discernimento que este prazer deve ser repelido, e, mesmo correndo o risco de todos o abandonarem, falar a verdade. Esta postura não é nada fácil. Distorcer a verdade, ou parte de uma realidade, para manter uma amizade tem sido talvez nosso maior comportamento. Ou ir perdendo o rumo, alterando aos poucos a missão, de tal forma que um dia já nem mais nos reconhecemos no que fazemos. Vejamos, por exemplo, casos concretos de jovens sonhadores em fazer medicina para ajudar o pobre, e depois de formado, trabalhando, vai se distanciando cada vez mais do seu propósito inicial e quando vê, já está em outra órbita. Vejamos casos de pessoas “vocacionadas” a vida religiosa/sacerdotal, com tantos sonhos de construir o Reino, e depois de “ordenado” ou “feitos os votos”, aos poucos vai alterando seus rumos, e quando vê, se é que vê, às vezes é mais opressor que os opressores que antes combatia. Quantos jovens entram na política desejosos de construir o Reino, e depois experimentam outras possibilidades que o agradam e, sem perceberem, aos poucos já estão com práticas que dizem mais a desejos pessoais que aos interesses coletivos. E, neste caso em concreto de hoje, está Jesus. Eu acredito que Jesus tinha vontade sim de ter muita gente por perto dEle, de, digamos, “fazer sucesso” com a sua proposta. Quem não teria? Mas, diante do sucesso aparente deste povo que vai até Ele, motivado por desejos que não são os que Jesus veio propor, Jesus é firme, e fala “na lata” o que percebe, e não se deixa enganar... mais: não se deixa mudar de caminho, de propósito, de rumo, de finalidade da sua vida.

Na espiritualidade inaciana, fala-se em tentação da primeira semana e tentação da segunda semana. Na tentação da primeira semana, o ‘máu espírito’, como qualifica Santo Inácio, são propostas fora de contexto, fora da moral cristã. Já as tentações de segunda semana, são àquelas destinadas às pessoas que, vencendo as tentações da primeira semana, caminham rumo ao bem. Para estes, o ‘máu espírito’ apresenta propostas de desvio de conduta, sob aparência de bem. Acredito eu que, Jesus, está diante deste tipo de tentação: “povo vindo à Ele, em multidão, procurando-O”. É uma “tentação sob aparência de bem”, mas não deixa de ser uma tentação. E Jesus faz repulsa clara a este propósito; por consequência, perderá este povo, mas não perderá seus princípios e valores internos. Quantos de nós, para não perdermos a audiência do povo, perdemos as convicções mais profundas! Que Deus nos ilumine e nos dê discernimento e coragem de nunca sucumbirmos à estas tentações, que são constantes, e que saibamos abrir mão de amizades, sucessos, fama, e tantas outras coisas, se isto vier a comprometer o princípio fundamental da nossa existência cristã – Amém!


São cristãos os agentes de ressurreição
15 de abril de 2015

            Ontem, na oração na casa da minha mãe, lendo em grupo o capítulo 14 (Ressuscitado por Deus) do livro “Jesus-aproximação histórica” de José Antônio Pagola, paramos em duas frases da página 497, onde diz: “Onde para Jesus tudo acaba, Deus começa algo radicalmente novo. Quando tudo parece afundar irremediavelmente no absurdo da morte, Deus começa uma nova criação”.
           Este trecho foi combustível para refletirmos a respeito da ressurreição de Jesus de forma prática para os dias atuais. Senão vejamos:
No lugar do nome Jesus, que é o ser humano por excelência, coloquemos a palavra “ser humano”, e a frase do Pagola fica assim: “Onde para o ser humano tudo acaba, Deus começa algo radicalmente novo”.
            E, na partilha da oração, vimos como isto, de fato, é verdade.
            Quantas vezes nos deparamos em situações que, humanamente falando, é o final de tudo, e, passado um tempo, percebemos que, à partir daquela “morte” nasceu uma nova realidade, uma nova vida?
            Pensamos em algumas clínicas de recuperação de drogados. Quanta gente chega lá sem mais nenhuma perspectiva de algo novo pela frente e, passado alguns anos, aquelas pessoas saem de lá como novos agentes de paz, alegria, formando famílias, amando.
            Quantas pessoas sofrem acidente e quase vão a morte e, uma vez recuperados, sentem que a vida vale mais do que as coisas da vida, e chegam até a tirar nova certidão de nascimento (como eu e outros viram na Santa Casa de Jacareí).
            O que dizer dos pais da criança que faleceu na creche no ano passado, único filho, e que depois o casal se separou e o pai perdeu o emprego e, passado um ano, o casal está junto novamente e a mulher grávida de um novo filho? Não é uma ressurreição?
            Quantas pessoas perderam relacionamentos que pareciam que tinham chegado ao fundo do poço e, passado alguns anos, estão felizes com uma nova realidade. Não é ressurreição?
            Na verdade, existem muitos, mas muitos sinais de ressurreição hoje. Situações extremamente adversas que, do ponto de vista unicamente humano, nada mais haveria de se esperar de bom para o futuro. No entanto, passado algum tempo, uma nova realidade surge. É como uma semente que germina em um deserto árido. E isto é ressurreição.
            Vimos também na oração de ontem que, existem pessoas que já estão mortas, apenas não se deram conta, mas vivem sem viverem, não experimentam nenhum gosto pela vida, fazem do seu dia a dia uma rotina única de trabalhar, comer, assistir TV e limitar-se e se queixar da vida, criticar, etc., mas sem nada a construir, sem nenhum legado a ser deixado. Pessoas que já morreram. Podem ressuscitar, mas precisam perceberem-se mortas. E isto não tem idade – tem gente jovem que já está morto. Mas, podem ressuscitar.
            No entanto, esta ressurreição pode ter contribuição dos cristãos. Cristãos seriam as pessoas que, adeptas a um Jesus ressuscitado, passam a serem agentes de ressurreição onde quer que estejam. São pessoas cuja presença levam vida, esperança (não fofocas, maledicências, etc.), mas alegria, e apontam novos horizontes. Pessoas que visitam doentes, acolhem pobres, lutam por justiça, batalham pela verdade, perdoam e pedem perdão, ajudam, solidarizam-se... São, na verdade, agentes de ressurreição. E, estes, são os cristãos de Cristo ressuscitado.
            Não são cristãos de Cristo ressuscitados por irem numa Igreja, numa Missa, tocarem, irem num culto, lerem a bíblia – aliás temos inclusive políticos federais que cantam, pregam, oram em vozes altas, mas que votaram a favor da terceirização do serviço (Lei 4330); portanto, podem até ter gestos de aparente religiosidade, mas nunca, jamais serão considerados agentes de ressurreição, pois sua prática é de morte, precarizando a relação trabalhista de um povo trabalhador. Isto é ser agente de morte.
            Portanto, diante da ressurreição de Jesus, não há mais dúvida a respeito de quem são os cristãos: são cristãos os que optam pela vida, pela ressurreição. E, na caminhada do dia a dia, só existem duas opções: a opção da ressurreição e a opção da morte. Em termos religiosos, podemos dizer em pessoas que pararam na sexta-feira santa, e pregam a morte de Jesus, sofrimento, como “normalidade” da vida, e outros que passaram pela sexta-feira santa, chegaram no domingo da ressurreição, e optam por serem agentes de vida, esperança, transformação. Claro que tudo com a graça de Deus; mas como Deus agirá, sem contar com seus agentes? Há necessidade de pessoas disponíveis para serem seus agentes de ressurreição.
            Ontem, na oração na casa da minha mãe, foi lembrado o fato concreto de um casal de Jacareí, que moravam debaixo da ponte, e que foram contemplados pelo programa “minha casa, minha vida”, e deram um testemunho que deve mexer com muita gente.
  
            O título é “casal que já morou embaixo da ponte comemora vida nova e dignidade”.
            Vale a pena ler.
            Num trecho da reportagem dizem “passamos de ninguém para proprietário de imóvel”. E, em outro trecho falam “agora é só alegria”. Pensamos ontem: quanta gente tem muito mais que este casal e raramente falam “é só alegria”. Quanta gente raramente se consideram felizes...
            E este casal é um símbolo da ressurreição.
            E foram as políticas públicas (estas que tem gente na rua pedindo para acabar) que fizeram a ressurreição deste casal.
            A religião é uma coisa prática e atual: Jesus ressuscitou sim, mas não para ser venerado, aclamado com glórias e honras, pois isto a nada acrescenta à Ele e Ele não precisa disto. O desejo do Pai é que seus filhos (nós) sejamos também instrumentos de ressurreição. Quer glorificar a Deus? Então vamos agir, de forma prática, a favor da vida, da ressurreição de realidades, ser agentes de esperança, paz, misericórdia, alegria, perdão... Levar a boa nova é isto: é ser instrumento de ressurreição – sempre – agindo a favor da vida, acreditando no outro, ainda que tudo possa parecer morte, como parecia em Jesus na cruz de 6ª.feira – que aprendamos a lição que, quando todas as aparências de destruição, fim, aniquilamento, destruição total, perda, derrota, contida na cena da cruz de sexta-feira santa, é à partir desta realidade que ocorre a ressurreição no domingo. Portanto, desistir de um ser humano ou não apostar nele, por ser analfabeto, pobre ou miserável, drogado, etc., é parar na sexta-feira santa; e Deus não parou na 6ª.feira santa... Deus ressuscitou esta triste realidade da 6ª.feira santa, numa grande páscoa no domingo. E é a isso que somos chamados.
            Que Deus nos dê a graça de sermos “agentes da ressurreição” – Amém!


Meus amigos: abaixo transcrevo um trecho da reflexão que recebi do Pe.Thomas, com relação ao trecho do Evangelho de Jo 20, 19-31, por considerar de uma riqueza única. Vale a pena.

SEGUNDO DOMINGO DA PÁSCOA (12.04.15) - Jo 20, 19-31 - “A paz esteja com vocês!”
No texto anterior ao de hoje, a Maria Madalena trouxe a notícia da Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa nas suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas, somente a alegria e a paz, que já tinha prometido no último discurso. Duas vezes Jesus proclama o seu desejo para a comunidade dos seus discípulos - “A paz esteja com vocês”. O tema da paz, do shalom, é importante na vida de Jesus..
No Discurso de Despedida, na tradição da Comunidade do Discípulo Amado, no contexto de uma certa angústia humana e da insegurança, junto como a promessa do dom do Paráclito, Jesus deixa com os seus o seu grande dom da paz: “Eu deixo para vocês a paz, eu lhes dou a minha paz. A paz que eu dou para vocês não a paz que o mundo dá (Jo 14, 27). Ele teria usado a palavra tradicional dos judeus para a paz, “Shalom”. É uma paz baseada na vinda do Espírito, que será atualizada no texto de hoje: “A paz esteja com vocês! Recebam o Espírito Santo” (Jo 20, 21-22). Enfatiza que não é a paz como o mundo a entende - muitas vezes simplesmente como a ausência de briga, ou até repressão policial. Frequentemente a paz que o mundo dá é aquela falsa, que depende da força das armas para reprimir as legítimas aspirações do povo sofrido - como tantos países experimentaram, e continuam a experimentar hoje, durante as ditaduras de direita e da esquerda. O “shalom” é tudo o que o Pai quer para o seu povo. Inclui tudo que é necessário para  uma vida digna – saúde, escolaridade, lazer, lar, moradia, emprego etc.  Só existe quando reina o projeto de vida de Deus. Implica a satisfação de todas as necessidades básicas da pessoa humana, da libertação da humanidade do pecado e das suas consequências. O “shalom” dos discípulos não pode ser perturbado pelo fato da partida de Jesus, pois é através da volta do Filho para o Pai que o Shalom vai se instalar.
O “shalom”, a verdadeira paz, é um dom de Deus - mas também um desafio para nós, os seus discípulos/as. Pede a colaboração humana! Diante de tantas barbaridades hoje, de tanta violência no campo, da exploração do latifúndio, do tráfico de drogas e das pessoas, da impunidade, qual deve ser a atitude do cristão? Se nós acreditamos no shalom, nunca podemos compactuar com sistemas repressivos ou elitistas que tiram da maioria (ou mesmo de uma minoria) os direitos básicos que pertencem a todos os filhos de Deus. Às vezes, este shalom convive ao lado do sofrimento e perseguição por causa do Reino; mas, quem experimenta na intimidade a presença da Trindade, também experimenta a verdade da frase de Jesus: “não fiquem perturbados, nem tenham medo” (Jo 14, 27), pois disse Ele, “eu venci o mundo” (Jo 16, 33). Frequentemente, uma leitura fundamentalista do Evangelho, fortemente influenciada por ideologias da direita, insistia que Jesus veio trazer a “paz”, entendido como “ordem e progresso” na visão positivista das elites dominantes. Mas, o próprio texto do Evangelho indica que esse tipo de paz estava longe da mente de Jesus. Ele mesmo diz com todas as letras em Mt 10, 34: “Não pensem que eu vim trazer paz à terra; eu não vim trazer a paz, e sim a espada”.
Obviamente, Jesus não diz que veio trazer a violência, pelo contrário, veio desmascarar uma paz imposta pela força, com base ideológica numa falsa imagem de Deus, e que essa ação profética d’Ele revelaria as divisões já existentes na sociedade, nas religiões, no coração das pessoas. Pois, a sua prática e pregação exigiram uma tomada de posição diante da violência, ostensiva ou ocultada. A não violência não é sinônima com não-ação. Pelo contrário, levou Jesus a lançar-se em uma vida dedicada aos valores do Reino, entre os quais o Shalom tinha lugar premente; por isso, Ele foi morto pelos interesses ameaçados por esta pregação do verdadeiro shalom - uma aliança de poderes religiosos, políticos, judiciais e econômicos. Por isso devemos sempre “fazer a memória de Jesus” - da sua pessoa e do seu projeto, para que tenhamos critérios certos para verificar a presença - ou ausência - do “shalom” na nossa sociedade, e nos comprometermos com a criação do mundo mais justo que Deus quer.
O Reino de Deus não é algo escrito em uma tábua rasa. Já existe a força contrária, a do anti-Reino. Assim também, o shalôm não nasce em um vácuo - cria-se em oposição à realidade dura da violência, mesmo quando disfarçada como paz. Por isso, será sempre conflituoso - pois inevitavelmente provocará a reação dos que oprimem e violentam. A dedicação a Ele exigirá uma mística profunda! Uma vida dedicada à construção do Shalôm tem como fundamento uma profunda experiência de Deus. A luta pela paz, pelos oprimidos, por um mundo de igualdade e solidariedade para nós cristãos não pode nascer de uma simples análise de conjuntura, nem de uma indignação ética, por tão necessárias que esses elementos possam ser. A inspiração última da nossa luta pelo shalom tem que ser enraizada na nossa fé - por ser coerente com o Deus em que nós acreditamos, o Deus que vê a miséria do seu povo, vítima da violência, que ouve o seu clamor em favor da verdadeira paz, que conhece os seus sofrimentos, e que desce para libertá-lo de todas as formas da violência que atentam contra a vida (cf. Êx 3, 7-10). É coerência com o seguimento de Jesus, o Verbo Divino que se fez carne e armou sua tenda no meio de nós (Jo 1, 1.14), vindo para que todos tenham a vida e a tenham plenamente (Jo 10, 10). Por isso, devemos ouvir de novo a voz profética de Jesus que conclama a todos nós à conversão: “Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Mc 1, 14).
 As raízes da violência, do anti-Reino, estão dentro de todos nós, como indivíduos e comunidade. Quando compactuamos com qualquer discriminação, quando defendemos a violência contra qualquer pessoa ou grupo, quando aplaudimos os maus tratos contra quem quer que seja, quando interpretamos a vida a partir dos opressores, quando nos entregamos à inveja e ao ciúme, ao ódio e raiva, ao racismo, machismo, classismo, ou a qualquer outro "ismo" que nos divide - estamos nos opondo ao shalôm de Deus. Quando colocamos a propriedade particular como um valor em cima da vida humana, quando defendemos a pena da morte, quando apoiamos politicamente estruturas que acumulam bens nas mãos de poucos, quando aceitamos a ideologia do neoliberalismo, com o seu Deus do lucro, o seu evangelho de competitividade que faz do irmão e irmã os meus rivais, estamos contribuindo para que o shalôm não aconteça. A batalha - e é batalha - contra a violência em favor da paz se travará em muitas frentes - dentro de cada um de nós, nas instâncias de poder político, religioso, eclesial, social e cultural. Os cristãos de todas as Igrejas terão uma responsabilidade muito grande de se tornarem arautos do shalôm, protagonistas de uma nova ordem social, seguindo as pegadas do Mestre que desmascarava a violência sofrida pelo seu povo - muitas vezes em nome de Deus - e trouxe a proposta de um mundo diferente, baseado nos valores do Reino.


A depender a quem tocamos, dependerá nossa qualidade de vida
09 de abril de 2015

Evangelho (Lc 24,35ss): Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como o tinham reconhecido ao partir o pão. Ainda estavam falando, quando o próprio Jesus apareceu no meio deles e lhes disse: «A paz esteja convosco!». Eles ficaram assustados e cheios de medo, pensando que estavam vendo um espírito. Mas ele disse: «Por que estais preocupados, e por que tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede! Um espírito não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho». E dizendo isso, ele mostrou-lhes as mãos e os pés. Mas eles ainda não podiam acreditar, tanta era sua alegria e sua surpresa. Então Jesus disse: «Tendes aqui alguma coisa para comer?». Deram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele o tomou e comeu diante deles.

A sequência dos fatos deste relato é interessante: primeiro fala que Jesus aparece e os apóstolos ficam “cheios de medo”. Em seguida, diz que eles tinham dificuldade em acreditar, tamanha era sua “alegria”. Nesta sequência de relato, fica claro que o medo se transforma em alegria, de maneira rápida, com a identificação da presença de Cristo Ressuscitado. Num primeiro momento – quando era medo – Jesus ressuscitado já estava no meio deles; no segundo momento – quando era alegria – era a mesma presença, mas só que identificado, consciente.]
Podemos tirar uma conclusão: Jesus ressuscitado está sempre presente conosco, mas isto não nos impede de sermos tomado pelo medo. O que transforma o medo em alegria não é só a presença de Jesus ressuscitado, mas a consciência de que Ele está presente, é a percepção que Ele está presente.
De fato, Deus está presente em todos os lugares, e isto aprendemos na catequese inicial. No entanto, nem todos O percebem, O reconhecem. Os discípulos de Emaús estavam tristes e desanimados, e no entanto, caminhavam com Jesus ressuscitado. Quando foi que interiormente lhes mudou o sentimento? Quando perceberam sua presença, quando perceberam que Aquele que caminhava com eles era Cristo ressuscitado.
Acredito ser uma lição para nós hoje, sobretudo neste momento em que no Brasil a mídia quer nos impor uma pauta negativa, um derrotismo, um negativismo, uma “crise”. (os anunciadores da crise, na TV, são pessoas que tem salários acima de 1 milhão de reais por mês... estranho, né?).
Deus sempre esteve e estará presente conosco. Isto não impede de nos sentirmos medrosos, sozinhos, isolados, descrentes, magoados, tristes, etc.. O antídoto disto não é só a presença de Deus, mas é a percepção de sua presença.
Deus, além de se fazer presente, busca também ser percebido. Com a samaritana lhe pediu água; aqui com os apóstolos lhe pediu “algo para comer”, e assim vai. Ele pode conceder um pensamento, sentimento, moção, dica, pista, e muitas e muitas outras coisas. No entanto, perceber ou não Sua presença é um ato livre do ser humano.
A oração pode ser um momento propício para esta percepção, e prescindi-la pode ser a condenação de caminharmos com Deus sem sua percepção. É como se alguém vivesse numa pobreza absoluta, quando o saldo bancário está alto, mas ele desconhece, ele não percebe que tem este saldo bancário... e permanece pobre...
Por fim, Jesus ressuscitado sabendo que seus amigos próximos não o percebiam, fala: “tocai em mim...”. Talvez aí esteja a dica: “tocar em Jesus”. E “tocar em Jesus” hoje pode ser de diversas formas: a defesa da justiça é tocar em Jesus; uma ação de caridade é tocar em Jesus; uma denúncia profética pode ser tocar em Jesus; um acolhimento de um pobre pode ser tocar em Jesus; uma palavra amiga, um ombro amigo, uma lágrima enxugada de alguém, pode ser um toque em Jesus. Enfim, existem “n” formas de tocar em Jesus. E, quando assim agirmos, da mesma forma que o medo se transformou em alegria nos apóstolos, também nosso tédio, descrença, desânimo e outras coisas tantas que tentam nos impor, se converterão em ânimo, esperança, alegria, disposição. O problema é que hoje é mais fácil “tocar na Rede Globo” e em tantas outros meios opressores da humanidade, do que “tocar em Cristo ressuscitado”. E não são só os meios de comunicação opressores, também temos os profetas do apocalipse, e os falsos profetas da prosperidade mágica, entre tantos outros. Enfim, para sabermos se caminharemos com alegria ou com temor/medo, basta sabermos “em que tocamos” ou “em quem tocamos” no nosso dia a dia. A liberdade é nossa. Os apóstolos não tocaram em Herodes, tocaram em Jesus e transformaram suas vidas em vidas plenas. Hoje as opções são as mesmas, com nomes diferentes. A decisão é livre de cada um de nós.
Queira Deus que sejamos agraciados em tocar o que nos gera e dá a vida, e vida em abundância, e não nos percamos nos diversos pontos que pedem a serem tocados, mas que nunca trarão vida – Amém!


Madalena - saber o que se quer e dizer não sei
07 de abril de 2015

Evangelho (Jn 20,11-18): Maria tinha ficado perto do túmulo, do lado de fora, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se para olhar dentro do túmulo. Ela enxergou dois anjos, vestidos de branco, sentados onde tinha sido posto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. Os anjos perguntaram: «Mulher, por que choras». Ela respondeu: «Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram».

Maria Madalena é um exemplo em vários aspectos: de fé, afetividade, lealdade, etc.. No entanto, neste pequeno trecho do Evangelho, ela nos dá uma outra grande lição: saber o que se quer e não perder o foco do que se deseja.
Vejamos:
Ela vai ao túmulo e vê dois anjos, e nem por isso ela se desvia do que ela procura.
Quem de nós, ao ir buscar alguma coisa, ao ver dois anjos, não perderia o foco, não desviaria do que se busca, para encantar-se com dois anjos?
Não é qualquer coisa alguém ver um anjo, e neste caso, Maria vê dois anjos, e nada questiona à eles, nem os interroga, não quer saber de nada a respeito deles: ela tem um foco, um desejo, e ela sabe que está procurando o corpo de Jesus. Pronto! Não é a presença de dois anjos (e isto não é qualquer coisa!) que a fará desviar-se do que ela foi buscar.
Maria está focada, concentrada no que quer, no que deseja.
Outro ponto forte deste trecho é que ela sabe claramente o que aconteceu com ela, quando expressa-se assim: “Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram”. Nesta frase, duas grandes sabedorias, na minha opinião: “levaram o meu Senhor”. O que era o senhor da vida dela foi tirado dela; o que a orientava, a sua bússola interior foi-lhe retirada, e é isto que ela busca: o seu sentido interior para sua vida.
Quantos de nós às vezes perdemos o rumo interno, e continuamos caminhando, como birutas de aeroporto, indo para onde o vento carrega ou indica? Maria não vai onde o vento lhe indica: ela vai onde o seu senhor lhe indica. E o senhor da vida dela é uma pessoa, e quando esta pessoa lhe falta, ela sabe que precisa reencontrá-Lo para reencontrar-se a si própria. Sem o “seu senhor”, não tem para onde ir – é melhor ficar parada diante do túmulo, a continuar a caminhada. Como alguém perdido numa floresta à noite que insiste em continuar caminhando, a tendência é perder-se cada vez mais, e isto não acontece com Maria: ela para e enquanto não reencontrar “o seu senhor”, não voltará a caminhar.
Outro ponto a ser aprendido é quando ela fala “não sei onde o colocaram”. A palavra “não sei” parece que está proibida hoje de ser dita. Hoje parece que todos nós somos obrigados a sabermos das coisas, e quando não sabemos, fingimos que sabemos. No entanto, ela tem esta humildade de dizer “eu não sei”. Se ela não dialogasse com os anjos, se ela se mantivesse num estado de orgulho próprio (comum a nós), querendo resolver as coisas sozinha, talvez não tivesse tido a grande experiência que teve de Jesus logo em seguida. Os Reis Magos também entraram em Jerusalém para buscar informações, pois chegaram a conclusão que “não sabiam” mais para onde se dirigirem. E, mediante informações obtidas, voltaram ao caminho e fizeram a experiência da gruta de Belém. É uma lição a ser aprendida por nós, que insistimos em muitas vezes sermos superiores a tudo: saber dizer, quando não se sabe, a frase “eu não sei”. Frase difícil de se dizer hoje, mas necessária à todos aqueles que, humildemente, revelam-se, para que, abertos, encontrem a novidade. “Eu não sei”.
Portanto, Maria tem claro o foco do que deseja: reencontrar o “seu” senhor e sabe corretamente a sua situação “eu não sei” onde o colocaram.
Saber claramente o que se quer, e perceber-se corretamente como se encontra, talvez seja um dos segredos da vida. O problema é que muita gente não sabe o que quer, muito menos como se está. Talvez por isto tanta gente fuja da oração, pois no silêncio da oração, da meditação, da contemplação, nós nos encontramos conosco mesmo, e teremos a clareza do que se busca e a situação que se encontra. Mas, não querendo deparar-se com a realidade, fugimos da oração, e vamos caminhando, até um dia que o verdadeiro sentido da vida nos cobrará; mas poderá ser tarde, como na música “a lista”, ou na música “eu devia ter amado mais”.
Que aprendamos com Maria Madalena, para que, agindo da sua forma, também tenhamos a grande experiência que mudou para sempre sua vida: encontrar-se definitivamente com “o seu senhor” – Amém!




O Que É Seguir Jesus
22 de março de 2015

Evangelho ( Jo 12,20-33):

Havia Alguns Gregos Entre OS Que tinham subida a festa Jerusalém Pará adorar Durante Uma. ELES se aproximaram de Filipe, era that de Betsaida da Galileia, e disseram :. «Senhor, Queremos VER Jesus» Filipe conversou com André, e Os Dois were Falar com Jesus. Jesus respondeu-lhes: «Chegou a hora em Que o Filho do Homem vai Ser glorificado. Verdade Em, em Verdade, vos digo: se o grão de trigo cai na terra Que NÃO morre, FICA-lo. Mas, se Morre, Produz Muito fruto. Quem se apega à SUA vida, Perde-a; . mas Quem NÃO Faz Conta de SUA vida Neste Mundo, há de Guarda-la Pará Uma eterna Vida Se Alguém Quer me SERVIR, Siga-me, e Onde eu estiver, estara also Aquele que me Sirva. Se alguem me SERVIR, meu Pai o HONRARÁ. »Sinto ágora grande angústia. E Que direi? 'Pai, Livra-me Desta hora "Mas foi Precisamente Para esta hora Que eu vim Pai glorifica o teu nome» Veio, ENTÃO, Uma voz do Céu:?.!. «Eu Já o glorifiquei, EO glorificarei de novo» A Multidão Que ali estava e ouviu, Dizia Que tinha Sido hum trovão Outros afirmavam: ... «FOI Um Anjo Que falou com ELE» Jesus respondeu :. «This voz that ouvistes NÃO foi Por Causa de Mim, Más por Vossa causa E o ágora Julgamento Deste Mundo Agora o chefe Deste Mundo vai Expulso ser, e eu when Pará Elevado da terra, atrairei Todos a MIM ». He falava ASSIM Pará INDICAR de that morte Morrer Iria.


QUINTO DOMINGO DA QUARESMA (25.03.11)

Jo 12, 20-33

"Se Alguém Quer SERVIR a MIM, que me Siga!"

         . O texto de Hoje Traz muitos Elementos Que Tem eco nsa Textos sinóticos Ate Uma Leitura Rápida vai trazer Lembranças dos SEUS Textos Sobre o seguimento de Jesus, p. ex. Lc 9, 22-25: " Se Alguém Quer me Seguir, renuncie a si MESMO, tomo hum SUA cruz Cada dia me e Siga ", OS Outros entre. João Faz Uma Redação Conforme A SUA teologia e enfatiza Que o seguimento de Jesus if DD NÃO Serviço a Ele, SEJA OU, na Luta em favor do Seu Projeto. Todo o Evangelho de João manifes Que o Serviço de Jesus se DD NÃO Serviço AOS Irmãos e Irmãs. Não É Possível SERVIR Jesus sem se colocar AO SERVICO dos Outros, especialmente dos Mais sofridos. Pois o Projeto de Jesus de fidelidade Ao Pai vai Custar -LHE Uma vida - ELE Sera, Como o grão do trigo Que, se NÃO cai na terra e morre NÃO, FICA Sozinho; " mas, se Morrer, fruto Produz muito " (24 v.).

NÃO Que Jesus quisesse a morte OE Sofrimento, mas São inerentes NÃO seguimento do Projeto do Pai, Por Causa de Oposição da Garantida de Grupos de Interesse da Sociedade de Fazer seu (e do Nosso) TEMPO - e apesar das aparências, Não levam à derrota , MAS UM Vitória. triunfalista Jesus NÃO Veio Para Ser, mas Para dar Uma vida em favor de Todos.

Essa era tinha Visão Que Jesus da Missão Fazer Messias hum NÃO Comum - Geral em Como PESSOAS Daquele Tempo esperavam hum messias triunfante, glorioso e guerreiro. A Bíblia nsa Conta Que Deus CRIOU O Homem eA mulher na Sua Imagem e semelhança; mas, na Verdade, NOS MUITAS vezes criamos Deus em Nossa Imagem e semelhança, Para Que He NÃO nsa incomode. A Nossa Tendência E de Querer vencer e nsa impor, de Seguir hum messias triunfante, e NÃO o Servo sofredor. Mas, Paragrafo Jesus, Não há meio-termo. O discipulo TEM Que andar NAS Pegadas Fazer Seu mestre: " S e Alguém Quer SERVIR a MIM, que me Siga "(v 26).

O seguimento de Jesus Leva à cruz; POIs, a vivência das atitudes e opções d'He vai colocar nsa em Conflito com OS Poderes Contrarios Ao Evangelho.

Mas E Importante compreender o SENTIDO de "carregar a cruz". Não É agüentar QUALQUÉR Sofrimento. Se fosse ASSIM, um masoquismo Religião Seria! carregar a cruz é viver Como consequencias de Uma vida coerente com o Projeto do Pai, manifestado em Jesus. Segui -lo Não É tanto Fazer O Que Jesus Fazia na SUA Época e Situação e social, cultural, mas O Que He faria se estivesse here today, Diante dos Desafios da Nossa Sociedade, convivência e Situação concreta. ISSO o Levou hum assassinado Ser, Não Cabelo povo, Claros Más por Grupos de Interesse Bem, "OS anciãos, chefes OS dos Sacerdotes e OS Doutores da Lei " , (UMA elite dominante EM TERMOS Econômicos, Religiosos e ideológicos), e, Fazer MESMO jeito, seguidores OS SEUS entrarão em Conflito mesmos COM OS Grupos Que Hoje representam OS Interesses dos oponentes de Jesus, Sejam Enguias Sócio-Políticos, Econômicos UO Religiosos - normalmente Tudo Misturado VEM Por ISSO, sempre haverá Uma Tentação de criarmos hum "Jesus Luz ", sem exigências Grandes, limitado Uma Uma Religião intimista e individualista, consequencias SEM Sociais, Políticas, Econômicas ideológicas UO. Seria CAIR na Tentação de Pedro, Conforme o relato Sinótico, Quando rejeitava o seguimento de hum Messias Que daria Uma vida sua (Mc 8, 32).
            
Mas que Jesus Queremos Seguir? A Votação se Dara NÃO tanto com Os Lábios, mas com Como Mãos e Os Pes. Respondemos Quem é Jesus Pará NÓS Pela Nossa Maneira de Viver, concretas opções Pelas Nossas, Pela Nossa Maneira de ler OS acontecimentos da vida e da História. Tenhamos Cuidado com QUALQUÉR Jesus that NÃO SEJA exigente, consequencias that NAO Sociais Traz, that NÃO nsa engaja na Luta Por uma Sociedade Mais Justa.
Fiquei triste há POUCO ritmo Ao Ouvir Uma senhora Que tinha deixado a Igreja Católica Pará Aderir a Uma Igreja da Teologia de Prosperidade, na Verdade Uma Empresa multi-nacional, exclamar " ágora Achei o Jesus Que Eu queria ". Sem Dúvida, ó Jesus quería Que Ela, Mas Não o Jesus real! Pois o Jesus real, Jesus de Nazaré, o Jesus do Evangelho, Não foi ASSIM, e deixou Bem claro: " Quem TEM apego A SUA vida vai Perde-la; Quem despreza a SUA vida Neste Mundo, Paragrafo vai Conserva-la eterna Uma Vida "(v 25) .. E claro that here se EUA hum semitismo - o contraste com o" apegar-se "E expresso Nenhum verbo" desprezar "- o Que significa" amar Menos ". Essa Opção E Difícil - embora João NÃO relacionar Uma agonia sem Horto, ELE Expressa Uma MESMA Realidade QUANDO Jesus Diz " Estou perturbado "(v 27).


Mas, o Pai LHE DEU Força, Como Dara Uma Quem Faz Uma Opção Cabelo Verdadeiro Reino , Não seguimento de Jesus, Nenhum Serviço AOS Irmãos e Irmãs, na Construção de Uma Sociedade, exclusões Igreja e Comunidade SEM, Onde Todos tenham a possibilidade de ter a Dignidade e Vida Plena dos Filhos e Filhas de Deus e de Cidadãos da Sociedade.

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